EM BUSCA DA EXPRESSÃO DO SENTIR

Na terceira edição do projeto Literatura Mútua, recebi o escritor maranhense Jônatas (São Luís-MA, 1990), autor de contos e crônicas publicados no blog Textos do Jônatas, para uma conversa sobre nossas experiências de leitura e escrita como exercício de sentir e lidar com a dor de existir. Jônatas leva para sua escrita ágil e crua, um sentir elaborado sobre a realidade que ele presencia e vivencia. Eu escrevo em busca da ternura da humanidade. Em comum, nossa literatura olha para o mundo com afeto e lucidez. Confira abaixo um pouco da conversa compartilhada com o público na noite da quarta-feira (19/10) na Galeria Trapiche.

TEXTO: TALITA GUIMARÃES

FOTOS: TALISSA GUIMARÃES

A abertura desta edição pediu uma apresentação diferente, afinal o convidado do mês é um personagem real de Recorte! que dialoga inteiramente com a essência do Literatura Mútua. É, portanto, com a leitura da crônica “Jônatas quer ser escritor” que situo o público sobre o rapaz ao meu lado, segundo meu olhar. No texto, falo da ocasião em que vi Jônatas sentado em um banco do Terminal da Praia Grande lendo um livro enquanto seu ônibus não passava. Eu estava sentada na plataforma do outro lado, observando de longe o esforço do jovem em ler a despeito do barulho do lugar e da dificuldade para enxergar as letras miúdas do livro. Já o conhecia e sabia de seus hábitos de leitura e anseios por escrita. Por isso o associei a imagem de quem mergulha em um livro e ao retornar da experiência, transborda em escrita a própria vivência.

Apresentando Jônatas

Apresentando Jônatas

O LEITOR, O COMEDIANTE, O ESCRITOR

Tal apresentação dá margem para que Jônatas tome a palavra em seguida contando como sua vida de leitor começou.

“Eu leio desde molequinho. O primeiro livro que eu li inteiro, que eu me lembro, foi o ‘O médico e o monstro’. Tava lá em casa. Sabe a mesma situação da Sabryna [Mendes, convidada de setembro] que lia os livros que a escola dava? Me deram esse livro. Mas o primeiro livro que eu escutei foi meu pai que leu pra mim. Foi ‘Vida e Paixão de Pandonar, o Cruel’ do João Ubaldo Ribeiro, que é um dos melhores livros que eu já vi na minha vida. Fui alfabetizado com cinco anos, mas eu não lia livros inteiros. Li trechos, livros de escola, mas esse livro, eu tinha uns sete anos de idade, aí ‘O médico e o monstro’ também foi mais ou menos nessa época.”

Jônatas começou a escrever profissionalmente em 2008 quando ingressou no teatro de comédia, no qual apresentava espetáculos de stand-up. Nesse cenário, o primeiro contato de seus textos com um público foi através das apresentações que ele fez sozinho ou acompanhado de outros comediantes como Paulo Batalha e abrindo shows de nomes como Murilo Gun.

Segundo Jônatas, a escrita sempre foi um processo solitário, tanto na época em que escrevia para o teatro quanto quando migrou inteiramente para a literatura. “Quando eu comecei no teatro já era solitário porque eu fiz pouquíssimas peças. Eu fazia mais era monólogo. Escrevia meus textos, interpretava e dirigia. Eu acho que isso me ajuda muito quando eu vou pra literatura, porque sempre que eu vou escrever um personagem, eu penso em diálogos e atuações, e já vou atuando.”, explica Jônatas que em seguida responde a uma pergunta do público sobre os autores contemporâneos com quem já teve contato pessoalmente. Menciona o livro O Encontro do Adeus (Pitomba! Livros e discos), de Frederick Brandão e Iban Ayesta, como uma leitura recente que o impressionou, por se tratar de uma história derivada do projeto de conclusão de curso em Ciências Sociais do Frederick.

A transição da escrita no teatro de comédia para literatura ocorreu quando Jônatas percebeu que o público local não estava interessado em assistir espetáculos de artistas maranhenses, prestigiando apenas temporadas de artistas de fora.

img_9409-2“Quando eu fui escrever ficção eu já tinha meio que saído do teatro, desiludido. Porque eu comecei a estudar comédia, ler livros, e estudar não só por livros, mas ver Terça Insana, Joseph Klimber, Melhores do Mundo, Zenas [Emprovisadas] Eu comecei a ver os grupos de comédia contemporâneos que tavam bombando e estudando os caras. E aí eu comecei a produzir em um nível que eu achava que tava bom. Não tava aquela coisa ainda, mas eu sentia que dava pra ir. Inclusive eu apresentei com o Murilo Gun, comediante e ele falou que se eu fosse pra São Paulo ia ser um dos melhores comediantes do Brasil. Na época eu tava ganhando pra porra. Mas aí eu pensei ‘o que acontece’: aqui eles lotam o Arthur [Teatro Arthur Azevedo], cobrando cinquenta, sessenta paus o ingresso. Quando eu apresentei com o Comédia em Pé lá na Concha [Acústica, da Lagoa] cobrando também esse valor, bota mil pessoas num teatro, numa plateia em cinco sessões. Aí eu penso ‘cara, isso é porque aqui não tem. Quando a gente começar a botar num nível bom a galera vai gostar.’ Aí eu vi que o problema não é esse. A galera não quer ver maranhense. Aí eu ‘porra, então vão se fuder’, que eu tava estudando pra porra, tá num nível bom pra ficar perdendo assim pros caras, ah, vai tomar no cu! Desculpa!”, Jônatas se exalta ao lembrar, ri e se desculpa em seguida.

Um marco para seu interesse pela ficção foi a leitura de Charles Bukowski, que influenciou fortemente a escrita de Jônatas, cuja prosa guarda grande semelhança estilística e vocabular com a do escritor alemão. “Quando eu vi aquilo, ele me mostrou que era possível. Não é preciso tu ser um erudito, um cara de linguagem rebuscada, intelectual. Precisa ser um homem que sente e que consegue colocar aquilo que sente no papel.”, conta o escritor.

Nesse sentido, as características mais notáveis da prosa de Jônatas são a narrativa em primeira pessoa, a observação lúcida de mazelas e belezas do cotidiano e relatos do ponto de vista de um eu-lírico que se sente excluído socialmente e se identifica com essa camada da sociedade, trazendo para os textos essas histórias de vida. Pergunto se há distinção entre o personagem e o autor ou se ambos se misturam, ao que Jônatas inevitavelmente recorre à comparação com Buk.

“Quando eu li o texto dele parecia que eu que tinha escrito. Falei ‘caralho, bicho: isso aqui não foi eu que escrevi, não?’, sabe? Porque eram inquietações parecidas e a forma de falar. Claro que não existe isso, quando eu comecei era uma cópia muito mal feita dele, então aí aos poucos a gente vai se distanciando, vai construindo tua própria pegada da dele. Eu roubei muito, assim como ele roubou os outros caras. Ele mesmo fala. Com a literatura eu simplesmente abro o peito. Eu não começo a pensar determinadas histórias, fechar num ciclozinho e pensar como é que é… Eu faço isso no teatro. Na literatura mesmo não. Eu já tentei escrever como um personagem, mas saiu falso. Eu vi que era eu tentando fazer o personagem. Então não, não vou fazer isso. Eu não amadureci, mas eu vou tentar fazer. Porque pode ser uma coisa de característica, né de primeira pessoa, mas eu vou pelo menos tentar, é um processo de amadurecimento. No teatro não, fui fazer uma dona de casa que tá puta porque tem que limpar tudo, cheia de coisa pra fazer, aí nisso eu vou pescando nesse universo que eu pego muito da coisa da minha mãe, mas não de um universo meu. Então ali dá pra eu me distanciar um pouco mais. Na literatura eu não consigo fazer esse distanciamento como fazia um Tolstoi, criava um arquétipo, que criava outro arquétipo aqui, e outro e outro que não tinha porra nenhuma a ver com ele.”

NÓS: LEITORES DE MUNDO, FAREJADORES DE VIDA

Na sequência, Jônatas fala que quer comentar um pouco sobre a leitura de Recorte! e saca um papel dobrado do bolso com anotações em uma letra miúda de caneta que consulta de pouco em pouco enquanto aborda os tópicos que julga interessantes trazer para a conversa.

img_9478-2“É um convite. Recorte com a exclamação. Recorte você também! Esse livro nasce de um forma muito humana. A Talita tinha um amigo com quem ela se comunicava através de e-mail e aí num belo dia ela viu uma cena que tocou ela, aí ela escreveu a cena e mandou pra esse amigo. Essa cena ela chamou de recorte. Ela viu que tinha uma intenção: que era alegrar o dia, tanto dela quanto do amigo. Já começa com essa humanidade e aí quando vira livro é pra passar isso prum público maior. Isso também porque ela é jornalista. Ela mesmo fala que jornalista é obrigado a abordar notícias que entristecem, coisas que tão acontecendo que é obrigado a reportar. Mas ela pegou um momento e aí que entra o jornalismo novamente, que acho que quando ela pensou em escrever, ela começou a fazer uma coisa que ela fala no livro que é ‘farejar vida’. Parece que ela já sai pra rua querendo encontrar, querendo fotografar, como ela mesmo fala ‘ó, as cenas tão aí, a gente que não tá olhando’, entendeu? Então ela vai com esse lance do repórter, que vai atrás de furo, que vai atrás da notícia, e ela vai atrás da coisa. O que eu achei muito interessante também, que ela vai falar de momentos alegradores, de recortes, no entanto seria muita ingenuidade se a gente falasse, recortasse momentos alegres e se esquecesse que a gente não sabe por qual motivo a tristeza tá, aparentemente pelo menos, em maior número. Então ela escolhe, ela escreve os não-recortes porque é impossível não escrever, né? E ela fala algo interessante que os não-recortes, que são cenas entristecedoras que sabe quando tu não pode ter essa ideia de escrever algo alegrador como a moça que tá oferecendo balões pras crianças, não dá pra tu focar nisso e esquecer porque parece ingenuidade, parece forçar a mão. Então ela pega uma cena como ela vê por exemplo de um engraxate descalço, que tá ali, um garoto jovem provavelmente, engraxate descalço, que engraxa o sapato dos outros e não tem um chinelo. Então ela fala ‘esses não-recortes serviram pra eu escolher quais textos poderiam ir ou não pro livro’, porque no Recorte! é um bocado de texto que ele tinha em dois, provavelmente mais cadernos, que ela foi cortando, foi selecionando e foi vendo ‘olha, tem esse texto do engraxate descalço, talvez esse outro texto aqui que é mais pessoal não deva ir’. Isso que é formidável também. E uma outra coisa que eu acho legal nesse livro, isso que é bacana, isso foi um tapa na img_9485-2minha cara inclusive, é porque esse livro nos lembra, porque a gente esquece, a gente sai brigando pela justiça, pelas coisas, mas aí de repente a gente esquece pelo que a gente tá brigando. E a Talita me lembra quando ela vê uma criancinha negra no ônibus, pobre, com farda do município,  cabelinho fuazinho assim, linda sabe, e a criança encosta a cabeça no ombro dela e fica. Eu tava numa visão tão carregada que quando eu via uma criança dessa, eu escrevi até um conto uma vez, ‘Igual o Pedro e o João’ que eu digo ‘Por que você não faz igual ao Pedro e o João?’, ou seja por que nós simplesmente não seguimos a vida como estão seguindo, é tão fácil, né? Você se forma, você arranja um emprego, você entra numa empresa, faz um concurso público, você compra seu carro pra ir pra esse engarrafamento que tá um inferno aí, faz o que tem que fazer, volta pra casa, infelizmente assiste Jornal Nacional, recebe o salário, vai no shopping, faz alguma compra e simplesmente você é enterrado. Viveu uma vida boa, foi um bom pai e muito aspas nisso tudo. Mas você não teve contato nenhum com um engraxate descalço. Se ele passou por você, você não viu. Digo mais, se ele passou por você, ‘cê ficou com medo dele te assaltar. Então por que a gente não faz como esses caras? Porque o Pedro e o João não veem meninas negras paupérrimas nas favelas e choram a Deus para se tornarem mais do que empregadas domésticas, porque é o que acontece. Então quando eu tava vendo uma criança naquela situação, com farda do município, a gente sabe como é uma escola municipal, sabe a importância que tem uma merenda, se a gente sabe que a educação tá falida na universidade, imagina. Então eu via um escravo moderno, um filho de um escravo moderno. Então isso pra mim foi um tapa na cara pra me lembrar pelo que eu tô lutando. Eu não conseguia mais olhar pra um criança e ficar enternecido como a Talita ficou, eu olhava pra criança e eu queria abraçar chorando, sabe, porque eu sei o que aguarda ela. Eu ouço Racionais, que tem uma música que fala ‘olha, eu tenho duas opções: ou eu vou trampar no sinal entregando panfleto, perdendo sono, por um salário no mês ou eu posso meter o bicho numa noite e ganhar bem mais, né? Mas Racionais fala ‘não cara, não vai pra isso não’.”

Na sequência, Jônatas, que fala longamente quase sem pausas, envereda por inquietações com injustiças sociais no contexto da luta de classes. Distingue a beleza segundo a poesia do capitalismo, diferenciando o poeta como aquele que não se seduz pelo materialismo, mas lamenta quando seus objetos de admiração no mundo são convertidos em bens valorados.

Nesse rumo, a conversa passeia ainda pelo posicionamento político do convidado e suas opiniões sobre o cenário econômico. Jônatas fala da relação da elite com a classe trabalhadora, do racismo, do patrimonialismo e até de royalties.

Ao retornarmos para a relação do nosso contexto histórico com a literatura, somos questionados por uma moça do público se figuras como a do engraxate descalço não aparecem tanto em outros livros porque pertencem a uma realidade já superada. Ao que discordamos de tal entendimento, visto que não superamos a desigualdade social que produz indivíduos como ele, que está sim muito presente nesse tempo dito moderno, porém marcado por problemas antigos. “A gente escreve sobre elementos reais e são esses elementos reais que atravessam os tempos, que não evoluem e que estão presentes. Se você atravessar a rua e entrar no terminal ele vai tá lá, agora. Apesar de toda modernidade, ele existe.”, falo.

Nesse sentido, evoco o papel que escritores tem como pensadores da realidade. “Eu gosto de propor, quando a gente fala que o papel da gente, o jeito da gente interferir na realidade é falando sobre essa realidade e alimentando pra que outras pessoas observem e por isso o convite Recorte!, olhe para a realidade você também. Quantos de nós não somos engraxates descalços simbolicamente, sabe? Quantos de nós servimos aos interesses dos outros por questões diversas ao longo da vida, sendo que são coisas que a gente oferece pro outro que a gente nem tem. É muito simples a simbologia dele, mas ao mesmo tempo muito forte pra cada um de nós.”, acrescento.

Em seguida leio um trecho extraído do blog do Jônatas, chamado “Um dos maiores motivos do poeta ser odiado”.

Leio Jônatas

Leio Jônatas

E Jônatas lê “Fabinho”, crônica escolhida de Recorte!.

Jônatas lê "Recorte!"

Jônatas lê “Recorte!”

Após as leituras e comentários, sorteamos dois exemplares de Recorte!.

OUTRAS EDIÇÕES DO LITERATURA MÚTUA

Após a edição de  outubro com Jônatas, fui convidada pela Secretaria Municipal de Cultura – SECULT a levar o Literatura Mútua para a programação do Espaço Jovem da 10ª Feira do Livro de São Luís – FeliS. Assim, fizemos seis rodas de conversa com sete autores entre os dias 07 e 12 de novembro no Centro Histórico, unindo-se ao projeto Thalita Rebouças (RJ), Ferréz (SP), Duda Veloso (MA), Igor Nascimento (MA), Gustavo Lacombe (RJ) e Zema Ribeiro (MA). Na semana seguinte, na quarta (16) retornamos para a Galeria Trapiche recebendo a dramaturga Júlia Emília (MA) para uma conversa sobre as dramaturgias do corpo. Em dezembro, o projeto recebe a poetisa Manu Marques Barbosa para a última roda de conversa da temporada 2016. Os encontros gratuitos são sempre às 19h30 na Galeria Trapiche (Praia Grande, em frente ao Terminal de Integração).