Em busca da realidade que poderíamos viver e daquela que vivemos

Na segunda edição do projeto Literatura Mútua, recebi a escritora maranhense Sabryna Mendes (Itapecuru-Mirim, 1994), autora do romance “Cafés Amargos” (2015) para uma conversa sobre nossas experiências de leitura e escrita como exercício de estar no mundo. Sabryna leva para a ficção uma elaboração da realidade que muitos de nós gostaríamos de viver. Eu escrevo sobre o que muitos de nós vivem no dia a dia. Em comum, nossa literatura tem o interesse pela realidade sob uma perspectiva da experiência humana. Confira abaixo um pouco da conversa compartilhada com o público na noite da quarta-feira (21/09) na Galeria Trapiche.

TEXTO POR TALITA GUIMARÃES

FOTOS POR TALISSA GUIMARÃES

É curioso como tudo começa com elas, por elas. Quando abro a segunda edição do Literatura Mútua às 19h40 da noite da quarta-feira 21/09, é para minha mãe Carmen Guimarães e para a mãe da Sabryna, Rosa Maria, que falo. Nosso público pontualmente presente, além da fotógrafa Talissa Guimarães, não por acaso minha irmã. Agradeço que estejam conosco ali e brinco que será como contar minha história para mãe da Sabryna, que por sua vez se apresentará para minha mãe. Sorrimos as quatro, cúmplices, e acho simbólico. Minha mãe é, desde sempre, minha primeira leitora. Responsável pelos primeiros livros que toquei, testemunha das primeiras experiências que tive no universo literário. 

Começamos pois, e então as pessoas vão chegando, como que atraídas pela conversa em andamento. 

Público materno do início da conversa ganha o reforço do escritor Jônatas, convidado de outubro, e da artista plástica Romana, servidora da Galeria Trapiche.

Público materno do início da conversa ganha o reforço do escritor Jônatas, convidado de outubro, e da artista plástica Romana, servidora da Galeria Trapiche.

LITERATURA MÚTUA: ENTRE A LEITURA E A ESCRITA 

Sabryna Mendes e eu temos um percurso parecido na literatura. Começamos a escrever cedo, na adolescência, tendo nossos livros de estreia premiados pelo tradicional Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luís. Eu com Vila Tulipa na 30ª edição do prêmio, em 2006 e a Sabryna com Cafés Amargos na 35ª, em 2013.

Foi exatamente por causa desses livros que nos conhecemos, há cerca de um ano, quando o Clube do Livro do Maranhão nos reuniu em uma mesa de autores maranhenses contemporâneos para uma roda de conversa com o público na Feira do Livro do Shopping da Ilha. Na época, trocamos exemplares e desde então viramos leitoras uma da outra.

Ao nos reencontrarmos para o Literatura Mútua, Sabryna já me vem leitora de Recorte!, meu segundo livro, que por uma grande felicidade dialoga bastante com seu Cafés Amargos (2015) seja pelo interesse pelo cotidiano, atmosfera presente em nossa literatura, seja por se alimentar de elementos poéticos em comum, como crianças, céu e balões. 

NÓS, LEITORAS ENTRE SI

Começo comentando brevemente minha primeira leitura de Cafés Amargos. “Li o livro da Sabryna muito rápido, logo na semana em que trocamos os exemplares e fiquei muito encantada como o romance é leve e engenhoso. Tem uma habilidade nela, pra um romance de estreia, em prender o leitor numa prosa bem certeira. É engenhosa porque tem uma viagem temporal, começa num tempo e aí viaja ao passado e vai se intercalando passado e presente. E aí você vai descobrindo as coisas e como elas vão se conectando.”, conto.

Sabryna, que se interessa por histórias que a aproximam da vida cotidiana, nos conta como foi ler meu livro. “Quando eu li o Recorte! também me vi muito nessas experiências diárias, ver a rotina e querer transformar isso em poesia. É muito sobre isso que eu trago pros livros também, essa coisa de não fugir muito da realidade, fazer algo muito distante ou uma fuga muito surreal. Talvez por isso que eu não goste tanto de ficção científica nem fantasia, porque eu acho que é uma coisa muito distante da gente.”, opina.

Nesse sentido, a escritora comenta o quão parecido é nosso jeito de abordar o cotidiano. “Gosto de trazer o dia a dia pros meus livros, mas com um toque mais poético, sabe? É o trabalho, as dificuldades, o dia a dia, acho que tudo tem uma forma diferente da gente ver e registrar isso. Quando eu tava lendo Recorte! eu pensava que muita coisa aqui eu poderia ter escrito também porque é muito parecido como a gente pensa, como a gente vê algumas coisas também. Pensei ‘putz! Talita é uma amiga tanto de literatura quanto de escrita também, porque a gente escreve muito parecido.”, conta Sabryna que preferiu ler o livro nos dias que antecederam a conversa para tê-lo fresquinho na mente. 

Sabryna Mendes fala sobre as primeiras experiências de leitura na escola

Sabryna Mendes e eu comentamos as leituras de nossos livros

Aproveito para comentar um fato recente relacionado aos leitores de Recorte!, que têm me procurado para revelar um método curioso de leitura: um recorte por dia. Assim, o leitor passa mais tempo em companhia do livro, saboreando-o vagarosamente. O engraçado é que já ouvi isso de diferentes leitores, que inclusive não se conhecem e não tem ligação entre si. 

Explico que, independente do tempo que leve, o recomendável é ler o livro na ordem porque há uma progressão temporal, uma vez que a edição reúne um apanhado de textos escritos entre 2010 e 2014, no qual é possível perceber um processo de amadurecimento pessoal. “Tem uma diferença muito grande da escrita do primeiro recorte para o último. Em quatro anos você muda muito seu jeito de escrever, de pensar, de ver as coisas.”, conto. Consideração que faz sentido para Sabryna. “A gente percebe isso no livro. Quando eu tava lendo os últimos fui lá pro começo pra ver de quando era. Pensei ‘tem um intervalo grande de tempo porque mudou muito a forma como ela via as coisas’. Isso é muito interessante também.”, comenta Sabryna Mendes enquanto folheia o caderno vermelho em exposição com os manuscritos.

O PÚBLICO PARTICIPA

Jônatas, escritor convidado de outubro, prestigia as edições e interage com as autoras

Jônatas, escritor convidado de outubro, prestigia as edições e interage com as autoras.

Após falarmos sobre o hábito de escrever à mão nos cadernos que deram origem a Recorte!, Jônatas pergunta como foi o processo de revisão dos textos que foram para o livro. Respondo que consistiu basicamente em uma revisão sentimental dos recortes que eu gostaria de compartilhar com os leitores e os que já seriam mais pessoais e por isso não sairiam dos cadernos. Houve ainda, obviamente, uma revisão ortográfica e gramatical na transcrição do material que iria para o livro, processo que levou quase cinco meses, entre a seleção dos textos e a revisão final antes da autorização para impressão.

SOBRE NOTAS DIÁRIAS E MEMÓRIA AFETIVA

O formato de breves narrativas dos recortes faz Sabryna Mendes recordar o modelo de agenda diária visto em um filme em que a protagonista tomava nota dos acontecimentos da vida e registrava pensamentos, frases e tópicos sobre gostos pessoais. 

“Tive muitas agendas.”, conta Sabryna. “E as minhas agendas são assim: mesmo que eu não use todas as páginas, passou o ano tem que ser uma coisa nova. Eu tenho algumas ainda em casa, duas ou três, e é um processo parecido de construção do pensamento, coisas que vão caracterizando a gente nessa fase de infância e adolescência. A gente vai descobrindo o poder de escrita”, fala a escritora que consegue visualizar em suas anotações de livros lidos, por exemplo, a transformação do gosto pessoal por gêneros diferentes e a transição da literatura juvenil para a jovem adulto.

Comento que é interessante revisitar anotações e textos que escrevemos há muito tempo e identificar o quanto crescemos. Também tenho o costume de preencher agendas com notas e tópicos, inclusive de anotar quando começo e termino de ler livros, ao que Sabryna conta que tem um diário com campos para anotar livros lidos e comentários sobre a leitura.

O que nunca cheguei a ser é adepta fervorosa de diários com relatos detalhados. O mais próximo de relatar acontecimentos vividos no dia a dia veio com a experiência de escrever as breves narrativas e crônicas de Recorte!, cujos cadernos originais preenchidos acabaram se configurando em álbuns de vivências.

O hábito de anotar citações e versos de música, por exemplo, foi levado para as narrativas do meu livro, pois cito artistas contemporâneos, como Dani Black, Pedro Altério, Zé Renato, Alice Ruiz entre outros, que dialogam de alguma forma com os temas que abordo. Esse recurso inclusive é um ponto em comum entre Recorte!Cafés Amargos, que também conta com versos de música sendo mencionados pela personagem Marina, que em certo trecho cantarola “Oração” da Banda Mais Bonita da Cidade.

Nisso de comentarmos sobre as músicas que fazem parte das notas e trechos dos livros, me vem a questão da memória afetiva que me faz reconhecer músicas que ouvia na infância com um carinho particular, sobretudo por finalmente ser capaz de alcançar seus sentidos expressos nas letras.

NÓS, LEITORAS DE MUNDO

O escritor preferido da Sabryna desde suas primeiras experiências de leitura na infância, por volta dos dez anos, é o Pedro Bandeira. “Foi o primeiro livro que eu li inteiro e entendi a história.”, revela. 

O hábito de ler nasceu durante o Ensino Fundamental na escola, que fornecia um kit de leitura com livros de diferentes gêneros, entre novela, peça teatral, poesia e contos. “Todo ano a gente ganhava uma coleção de livros, que foi quando eu comecei a ler. Não sei porque esse projeto parou porque foi o que me iniciou na leitura. E eu lembro que meus colegas não queriam saber muito de leitura, aí eu ficava com os meus e ainda pedia os dos outros! Porque às vezes vinha os mesmos kits, mas às vezes vinha diferente, aí eu falava ‘ah, não quer ler? me dá que eu fico!’. Aí a gente trocava, pra emprestar e foi num desses que acabou vindo o do Pedro Bandeira.” conta Sabryna.

Público interage com autoras

Público interage com autoras

Nesse momento, uma moça chamada Mairla pergunta à Sabryna se ela já leu O Diário de Zlata, livro de Zlata Filipovic que narra a história real da autora durante a infância vivida em plena guerra em Sarajevo, na antiga Iugoslávia. Embora nem eu nem Sabryna tenhamos lido ainda, a menção ao livro nos faz comentar sobre outra publicação similar, o Diário de Anne Frank, e o formato de livros autobiográficos em formato de diários.

Recordo o quão viva é a narrativa de Anne Frank em seu diário, com relatos que nos transportam para a rotina no esconderijo onde sua família se abrigou da guerra, os procedimentos de sobrevivência adotados e ainda assim a doçura e ingenuidade de seu olhar juvenil sobre a vida, que embora permeada pelo medo consegue abrir espaço para o romance e outras experiências juvenis.

Em seguida minha mãe Carmen comenta as leituras de Vila Tulipa Recorte! distinguindo os tipos de narrativa de meus dois livros. O primeiro, uma ficção sobre a infância e as aventuras que eu gostaria de ter vivido na vila que imaginei, enquanto o segundo uma série de relatos de vivências reais, reflexo da observação do cotidiano fruto do exercício jornalístico. Nesse sentido, Carmen pede que Sabryna comente sobre a relação entre a ficção e a realidade em seu trabalho literário.

img_9166-2“Eu gosto muito de levar pras pessoas um pouco dessa poesia diária também. Dá pra viver a literatura todos os dias, dá pra viver um romance todos os dias. Não um romance casal, mas um romance com a vida mesmo de modo geral. Quando eu escrevo tem um prazer também de cotidiano, de levantar cedo, de trabalhar, estudar, ter os seus sonhos, ter as suas frustrações também que todo mundo tem. Então quando eu construí os personagens do livro não quis trazer heróis perfeitinhos sabe, idealizar muito, mas são pessoas como a gente que tiveram suas decepções, suas frustrações, que tinham sonhos que não puderam ser realizados. Então eu não gosto muito dessa coisa cor de rosa. Eu já li muitos livros assim, mas quando eu lia esses livros eu pensava ‘ah, não quero escrever desse jeito’. Quero trazer a realidade um pouco mais pra perto.” Sabryna Mendes

Mudando um pouco de assunto, Mairla nos pergunta se nos interessa escrever romances ou crônicas sobre relações homoafetivas e situações de homofobia, ao que respondemos não ser um tema tão próximo do que costumamos abordar, por isso não chegamos a cogitar escrever sobre uma realidade que não temos tanto conhecimento. “Eu nunca li nada sobre. Eu não sei como tratar desse assunto, então pra não correr o risco de talvez falar do que eu não saiba hoje não é o tipo de texto que eu escrevo”, responde Sabryna. Na minha vez, explico que não tenho escrito mais ficção, por isso não chego a planejar uma história com esse tema. “Não chega a ser um tema que me interesse porque eu realmente não estou buscando nenhum tema no momento. A minha literatura é mais voltada pra crônica, pro registro do cotidiano. Pode ser que aconteça de alguma coisa envolvendo um casal do mesmo sexo me comover muito e me inspirar a escrever. Eu não vou dizer que não é um caminho, porque eu não sei, não sei sobre que ainda vou escrever.”, explico.

Nesse sentido, Romana complementa minha fala lembrando que em Recorte! escrevo sobre as crianças que me emocionam e cita a breve narrativa sobre o menino que pergunta se onde os aviões planam já o céu. 

Nessa discussão, enveredamos pela questão das experiências sensoriais que nos movem para a necessidade de escrita. Em Recorte! há um modus operandi regido prioritariamente pelo atravessamento de experiências que vem de fora para dentro. Não são temas planejados, mas decorrentes de fatos vividos. 

Exemplificando a sensação que a leitura desse tipo de texto proporciona, Sabryna comenta um dos recortes do livro. “Essa característica de ser muito pessoal, tem um aqui que pareceu que eu tava lá no lugar, que é a do cuscuz Ideal. Parece que você tá ouvindo o cara falar ‘ideal, ideal’. É um personagem de São Luís que tá quase virando patrimônio.”, afirma Sabryna Mendes.

DOIS CENÁRIOS DISTINTOS: MERCADO EDITORIAL E PRÊMIO LITERÁRIO

Comentamos questões colocadas pelo público

Comentamos questões colocadas pelo público

Mairla traz à pauta ainda como nos situamos no mercado editorial quando pensamos nos temas de nossos livros. Se há uma preocupação prévia em publicar algo voltado para determinados nichos. 

Situo tanto a minha posição quanto a da Sabryna Mendes no cenário da publicação como independente. Primeiro porque somos crias do Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luís, que concedeu prêmios literários aos nossos trabalhos ainda inéditos e segundo porque fomos publicadas posteriormente por editoras por demanda.

Nesse sentido, nossos livros não nasceram planejados para públicos específicos, mas com a preocupação primeira em elaborar narrativas que faziam sentido para nós duas e nos agradariam como leitoras, inclusive.

Na opinião da Sabryna, é possível distinguir dois perfis de escritores no cenário geral.

“Tem os escritores que são mais midiáticos, tão mais preocupados em vender. É como fazer um produto: vou ver o que o público tá querendo, o que tá vendendo e o que tão comprando. E tem aquele escritor que tá mais preocupado em colocar ali sua sensibilidade. Depois que ele escrever, que fizer a leitura pessoalmente dos seus registros pessoais que ele talvez vai adaptar. Porque se ele quer publicar, ele quer que as outras pessoas leiam. Então de uma forma ou de outra depois ele vai adaptar praquelas pessoas que vão ler, e pensar assim ‘ah, será que isso aqui tá bom pra ser lido? será que as pessoas vão entender?’. Então depende muito se é uma preocupação midiática de cara ou secundária. Acho que esse é muito mais um processo que eu e Talita, a gente tá, que é essa questão de colocar a visão do público como secundária”. Sabryna Mendes

Brinco que nossas primeiras leitoras foram as nossas mães e a banca do concurso literário. “Quando o júri premia a gente é que a gente descobre que aquele livro vai ganhar um público. E aí é nesse cenário que a gente se descobre escritora também, né? É desse cenário que a gente vem.”, falo.

Sabryna recupera a colocação da Mairla sobre a possibilidade dos leitores estarem enjoados dos mesmos tipos de livros considerando que talvez seja devido ao fenômeno da difusão de supostas fórmulas de sucesso.

“Esses livros que tão aí, que são colocados como produto pode ver que tem todo um padrãozinho, é como uma receita de bolo. Então justamente por isso que talvez a gente possa pensar que as pessoas estejam enjoadas. Esses que a gente vê que tão colocados como produtos tem um padrão, como uma notícia pra quem trabalha com jornalismo que tem uma estrutura. Então quando a gente começa a escrever por conta própria, nem sempre vai com a receita pronta, coloca como uma coisa diferente, vai escrevendo o que dá vontade, o que vem à cabeça, não tá preocupado em vender. Até porque é muito difícil pra quem tá começando, então a pessoa pensa em escrever só por escrever mesmo, ninguém vai publicar. Depois a gente se descobre um outro tipo de escritor.” Sabryna Mendes

AUTORES E GÊNEROS LITERÁRIOS PREFERIDOS

Jônatas pergunta quais gêneros mais nos chamam a atenção e qual autor foi mais marcante em nossas vidas de leitoras, pedindo que Sabryna comente ainda a leitura dos chamados “romances cor de rosa”.

Sabryna Mendes conta, de forma bem humorada, que ao ter acesso à coleção de livros fornecidos pela escola, percebeu logo com quais tinha mais afinidade, tanto para gostar de ler quanto para se inspirar para escrever.

“Quando eu comecei a ler por gêneros, logo vi o que eu gostava e o que eu não gostava. Comecei a ler poesia e não entendia. Quando eu era criança ficava ‘ué, tá faltando alguma coisa’. Aí quando eu comecei a ler contos, eu já achava as histórias curtinhas demais. Ficava pensando ‘tá faltando alguma coisa. Como é que a história que tá começando aqui vai terminar logo ali?’ O que eu gostei logo de cara foram as novelas. Como era pra criança era mais condensadinho, mas tinha um começo, um meio e um fim. Eu gostava mais. Nisso eu fui descobrindo quais tipos de livro eu gostava, que era de uma ficção mais longa. Eu lia novela e depois comecei a ler romance. E quando eu comecei a escrever, comecei a pensar é esse tipo de livro.” Sabryna Mendes

Quanto à leitura de “romances cor de rosa” Sabryna conta que leu por um tempo os livros do famoso autor Nicolas Spark, mas depois começou a notar que as histórias eram muito parecidas, identificando uma espécie de fórmula nas narrativas. Hoje, como leitora gosta muito de romances policiais e Sherlock Holmes.  

Na minha vez de responder, comento minhas primeiras leituras de infância e a influência vocabular das leituras que eu fazia quando escrevi meu primeiro livro aos 16 anos.

“A minha experiência com a leitura foi na infância. Lembro que o primeiro livro que eu tive a experiência de folhear, de ver as ilustrações é do Walcyr Carrasco, que é até autor de novela. Ele escreveu um livro infanto-juvenil chamado “Quando meu irmãozinho nasceu” e o livro se desfez todinho, ficou bem velhinho mesmo. Esse e o “Memórias da Emília” do Monteiro Lobato. Eram edições pra criança mesmo e foram minhas primeiras leituras. Depois eu comecei a frequentar bibliotecas, Farol da Educação onde eu sempre tirava os livros da Stella Karr, que eram aventuras de uma turminha de amigos que sempre tinha um mistério, um suspense. Eu gostava muito, dialogava muito, os personagens tinham meio que a minha idade e foi isso que me inspirou. Muito que você lê tem a ver com o que você quer escrever, né? A forma como você quer escrever. Tenho muito claro pra mim que Harry Potter, a saga inteira foi uma aula vocabular. Tive muita influência vocabular da série, as expressões, a forma de construir as frases, que quando eu tava escrevendo Vila Tulipa me vinha muito a forma como ela escreve, a partir da tradução brasileira.É muito incrível isso como vai inspirando a gente a escrever e a tratar os temas do nosso jeito, do jeito que a gente olha as coisas, como queria que fosse” Talita Guimarães

Na sequência lemos nossos trechos preferidos de Cafés Amargos e Recorte! e comentamos a relação entre a construção ficcional e a narrativa inspirada na realidade em nossos livros.

CAFÉS AMARGOS E RECORTE!: LEITURAS E DIÁLOGO

Interessada por histórias de personagens que se envolviam em investigações e aventuras, Sabryna Mendes nos conta que na impossibilidade de viver aquelas tramas na vida real, começou a escrever as histórias que gostaria de viver. 

“Quando eu comecei a perceber ‘bom, já que não dá pra eu ser de uma turminha que desvenda mistérios, vou começar a escrever e criar a minha própria história e meus próprios personagens que podem fazer o que eu quiser. Então quando surgiu essa construção dos personagens que são baseados no real, mas são ficção é justamente isso de eu querer pessoalmente ou um personagem viver alguma coisa e eu levar isso pra literatura. Criar um personagem, imaginar uma situação e criar alguma coisa que eu quero que ‘ah, eu quero que isso aconteça’ então vou um criar um personagem, vou criar uma situação, vou criar uma história pra passar um tempo que eu quero passar pros leitores ou pra mim mesmo, como escritora independente só pra escrever.” Sabryna Mendes

Sabryna conta que já tentou escrever contos e crônicas, mas não considera ter a habilidade necessária. “Não é uma coisa que fica bom, não tem aquele timing. É uma coisa assim que acaba se perdendo e eu não consigo colocar do jeito que eu quero como eu consigo trabalhar com a ficção. Eu tenho muito mais imaginação pra fazer ficção que pra escrever crônicas, essas coisas”, acredita a escritora, que faz faculdade de Jornalismo e revela que seus colegas de turma sempre acham que ela vai ter mais facilidade pra escrever porque já tem um livro publicado.

“Não é fácil, porque é um outro jeito totalmente diferente daquilo que eu cresci querendo fazer e cresci querendo me espelhar nos autores que eu lia. Cresci lendo aquelas histórias do Harlan Coben. Eu quero pensar uma história tão bem quanto ele pensou e deixar os leitores como eu fico quando leio os livros. Então a busca da construção da história é nessa linha de querer passar alguma coisa através da ficção, mas sempre tendo muito da realidade porque eu quero que as pessoas se imaginem no lugar do personagem. Eu quero que elas pensem ‘ah, o que eu faria no lugar dele? será que ele fez certo?’. E provocar isso, fazer elas se colocarem no lugar do outro mesmo que ele seja um personagem fictício, mas que leve a essa reflexão diante de determinada situação.” Sabryna Mendes

Pergunto qual a relação da escritora com seus personagens, se é de amizade, se são autobiográficos, ou se são exorcismos de alguém que ela não quer nem pode ser.

“Sempre vai ter um pouquinho de mim, uma coisa ou outra, nem que seja uma característica ou uma mania. Porque eu acho que é um jeito de eu me colocar um pouquinho pessoalmente ali no meio. Tanto que às vezes as pessoas leem e falam ‘ah, isso aqui é tu, eu sei que tu faz isso aqui!’. Eu gosto de deixar esses detalhes. Eu gosto que o público tenha algum tipo de simpatia por eles. Mesmo que seja pouco. Porque eu não gosto de colocar um personagem totalmente ruim porque nem sempre se é só ruim. Quando eu tô construindo os personagens eu gosto de colocar eles com seus defeitos e qualidades e deixar o público gostar deles ou não. Mas geralmente eu gosto deles. [risos]” Sabryna Mendes

Em seguida, devo ler um trecho de Cafés Amargos e explico que foi difícil escolher qual parte trazer para o público porque a trama toda é tão envolvente e bem entrelaçada, que dá vontade de ler um capítulo inteiro, ao mesmo tempo em que não posso adiantar muito a história para não estragar as surpresas. O que há de certo é uma grande empatia pelos personagens, que vivem uma realidade que convence o leitor. Escolho por fim ler um trecho do segundo capítulo em que a prosa poética de Sabryna Mendes se sobressai através de um diálogo doce entre os protagonistas no início do livro. É o primeiro encontro de Tomás, aos 16 anos e Marina,  de apenas 6, na história. Dez anos depois, os personagens se reencontram em novas e especiais circunstâncias e a trama se desenrola. 

Leio trecho de "Cafés Amargos"

Leio trecho de “Cafés Amargos”

Sabryna observa que o trecho lido, crucial para o desenvolvimento do romance, tem uma identificação com o tema da infância e um diálogo com o trecho de Recorte! que ela escolheu ler, que também fala de crianças e balões. Trata-se da crônica “A encantadora de balões” que relata a rotina de uma vendedora de loja de vestuário infantil sempre à porta distribuindo balões coloridos para as crianças que passam no corredor do shopping.

Sabryna Mendes lê trecho de "Recorte!"

Sabryna Mendes lê trecho de “Recorte!”

A partir do diálogo estabelecido entre nossos livros, Sabryna fala sobre como após a leitura os nossos olhares se transformam, inspirados pelo efeito do livro em nós.

“Gosto do jeito como tu vê as coisas diferente. Se fosse qualquer outra pessoa passando ia pensar que era uma funcionária do shopping trabalhando, mas eu gosto do jeito que tu pensa o que pode estar acontecendo por trás, porque ela tá ali e aquela criança, então o livro todo, e esse recorte tem essa sensibilidade por trás que faz com que quando a gente termina de ler comece a olhar pro lado e pensar ‘ah, vou ver aqui o que a Talita ia escrever disso’. Acaba propondo pra gente esse outro olhar pro mundo. Isso é uma das melhores coisas do livro.” Sabryna Mendes

NOVOS LEITORES

Para encerrar a noite de conversa permitindo o prolongamento das experiências de leitura, sorteamos exemplares de Cafés Amargos Recorte! para o público. Os sortudos da vez foram o poeta Felipe Castro, primeiro convidado do projeto na edição de agosto, que ganhou um exemplar do romance da Sabryna e o Herick Borges, que ganhou meu livro e aproveitou para presentear a mãe.

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Sabryna Mendes, Felipe Castro, Herick Borges e eu

PRÓXIMAS EDIÇÕES DO LITERATURA MÚTUA: OUTUBRO, NOVEMBRO E DEZEMBRO

Em outubro, será a vez do Jônatas, leitor voraz e cronista do cotidiano, trazer sua contribuição para a roda de conversa na quarta-feira 19/10. Já em novembro, recebo a dramaturga Júlia Emília, autora de Vivendo TeatroDança para a quarta edição do projeto no dia 16/11, às 19h30, na Galeria Trapiche. Encerrando a temporada 2016 do Literatura Mútua, converso em dezembro com a jornalista e escritora Manu Marques Barbosa, autora do livro Em verso e prosa (2016) na quarta-feira 14/12.
Todas as rodas de conversa acontecem sempre a partir das 19h30 na Galeria Trapiche (Praia Grande, em frente ao Terminal de Integração).
Em novembro, teremos um bônus especial do projeto durante a FeliS. Fiquem ligadinhos em nossas redes sociais que soltaremos as novidades ao longo das próximas semanas. 😉
 
Até lá!