Na esfera de Paulo Novae
Em bate-papo com o blog em uma noite de muita música e poesia em São Paulo, Paulo Novaes e Bárbara Rodrix, expoentes de uma geração de cantores e compositores paulistanos que trazem a música no sangue, comentaram o processo de produção do “Esfera”, primeiro disco do Paulo que sai este ano graças a um projeto de financiamento coletivo bem sucedido em 2014. 

Pocket show na Brazileria
Paulo Novaes tem um jeito particular de elaborar a vida. As experiências passam por seus poros sensíveis e ele as devolve para o mundo em forma de música. “Paulo é daquele que quando acontece alguma coisa, ele faz uma música sobre isso”, brinca Bárbara Rodrix sentada à mesa do simpático bar Brazileria, na Pompéia em São Paulo. É uma noite chuvosa de sábado e o lugar acabou de sediar o lançamento do livro “Meu Caderno Azul” da escritora Gabriela Abreu com direito a show voz e guitarra de Paulo Novaes. Sentado ao lado da amiga e parceira musical Bárbara, o próprio Paulo Novaes sorri entre um gole e outro de Stella Artois e exemplifica: “Fico apaixonado, faço uma música. Tomo um pé na bunda, faço uma música”. E Bárbara prossegue: “Você faz aniversário, faz uma música”. Os dois sorriem. A chuva cai. 
 
Declaradamente saudosista, do tipo que não se desfaz nem dos cadernos de escola, Paulo explica que compõe para registrar momentos da vida que não deseja que se desvaneçam na memória. “Sou muito apegado ao passado. Não posso deixar os momentos passarem sem eu ter que registrar aquilo em música. Então as minhas músicas de certa maneira, nada mais são do que um registro dos sentimentos pra eu nunca mais esquecer. Tipo daqui a trinta anos, quando eu ouvir uma música que ninguém conhece, que tá lá guardada, que eu nunca vou gravar, eu vou lembrar que aquela música eu fiz porque eu senti aquela coisa naquele dia…”, conta.
 
Desde que começou a compor, por volta dos 13 anos, o jovem paulistano em questão já cantou muito sobre si mesmo, produzindo um vasto repertório autoral que curiosamente chegou ao público bem antes de suas canções ganharem registro em sua voz e guitarra. Músicas como “Paz interior” e “Bem vindo” foram eternizadas nas interpretações primorosas de parceiros como Pedro Altério/Bruno Piazza e Bruna Caram, respectivamente. Gravações que orgulham o Paulo compositor e abriram caminho para que sua música chegasse às pessoas antes mesmo de seu primeiro disco, que em fase avançada de produção tem previsão de lançamento para agosto deste ano. 
 
“Esfera”, o primeiro disco de Paulo Novaes, trará 12 faixas entre inéditas e conhecidas do público, sendo nove canções autorais e três parcerias. O repertório do disco foi pensado cuidadosamente para apresentar ao público a história do prolífico músico de apenas 21 anos, com as músicas em ordem cronológica de composição. “A ideia do disco é contar uma história mesmo, a história da minha vida. Eu falo muito sobre mim nas minhas músicas. O disco foi sendo feito ao longo da minha vida, assim. Então, a ordem do CD, por exemplo, é em ordem cronológica das composições exceto duas músicas. Então o disco conta uma história mesmo”Produzido por Pedro Altério com coprodução de Igor Pimenta, Gabriel Altério e o próprio Paulo, “Esfera” conta com as participações especiais de Dani Black (em “Pequenas Coisas”, composta pela dupla), Bruna Caram (em “De repente”, parceria de Paulo com os primos Bruna e Lucas Caram) e ainda uma participação para lá de afetiva: um coro formado pela família Novaes, berço de músicos onde Paulo nasceu e se criou. 
 
Bárbara Rodrix e Paulo Novaes em bate papo com o blog
após o show na Brazileria. (Março/2015)
Enquanto o músico revela as doze faixas do disco (“Esfera”, “A gente chega lá”, “Alma”, “Perdoa”, “Pequenas Coisas”, “De repente”, “O que eu quero”, “Marca no peito”, “Cor de sol”, “Ferida aberta”, “Eu mesmo” e uma que não tem nome ainda feita em parceria com Pedro Altério), uma chuva fina incessante cai – “garoa” para paulistas como eles, “sereno” para uma maranhense como eu. Então pergunto ao Paulo por “Semi-lágrima”, música que canta a chuva (“Vem ser milagre pros que prezam por acreditar que seu destino lava a alma/ Vem ser tragédia pros que vivem sem poder olhar pro céu fechando e lá vem água”) e que se tornou conhecida do público através de um clipe no youtube. “Ih, essa ficou pra trás mesmo!”, sorri e Bárbara pergunta “Qual? A chuva?”. Confirmamos. A ausência da canção no repertório é a chave para Paulo desvelar preciosidades sobre sua experiência como compositor. Explica que cada canção pertence a um momento específico da vida e que algumas fecham ciclos, assim como outras iniciam novas fases. “‘Semi-lágrima’ representa um momento que foi um ciclo que se fechou e esse ciclo se reabriu quando eu fui pro Canadá e fiz ‘Esfera’. Aí eu fiz todas as outras músicas a partir disso”. Paulo conta mais sobre a composição de “Esfera” no vídeo em que canta a música com Bárbara Rodrix para o canal Música de Graça. 
 
Para Paulo, o processo de produção do disco foi totalmente natural e coerente com a ideia de percorrer uma linha satisfatória por sua trajetória de composição. Um exemplo disso foi que a penúltima faixa, intitulada “Eu mesmo”, marca esse entendimento quanto a um ciclo que caberia delimitar dentro do disco, começando em “Esfera” e se fechando em sua composição mais recente, fruto de uma parceria com Pedro Altério. “Quando fiz o ‘Eu mesmo’ eu falei: agora preciso gravar o CD. Aí vi que tinha fechado um ciclo. Tanto que muita gente fala ‘ah você não gravou tal música e tal música e tal’ e eu gravei músicas bem antigas, né? Eu gravei músicas que eu fiz com 17, 18 anos, 16 até e é isso, é um disco que conta a história da minha vida”, explica.
 
Bárbara comenta sobre a identificação
com as letras do amigo Paulo Novaes.
Para entender essa história de vida cantada, é preciso percorrer versos de música por música (ouça aqui). E perceber que Paulo Novaes conta sua história de vida sim, mas vai além. Toca com delicadeza em feridas e marcas que constituem uma esfera de afetos concernentes à existência humana. Quando canta sobre si mesmo com apurada franqueza, Paulo Novaes fala por muito mais gente do que só por si mesmo. E tem consciência disso. “Tem músicas que as pessoas se identificam em certos momentos. Tem uma música que chama ‘Marca no Peito’ que fala do fim de um relacionamento grande e tem muita gente que passa despercebido com essa música. As pessoas que ‘tão terminando relacionamento, que ‘tão tentando se conformar acham essa música, então isso é muito engraçado”, conta. Comento que eu mesma recorro a “O que eu quero” quando preciso me consolar de que a vida é uma jornada que vale a pena se nos esforçamos em entender quem somos e qual nosso lugar no mundo. E então Bárbara Rodrix concorda que não é difícil se encontrar nos versos do amigo. “Eu já tive várias músicas preferidas do Paulinho. Em cada momento da vida é uma, assim. E é um negócio muito louco que a gente tem por rever e revisitar nossas canções. Eu também componho desde muito nova. Quando você revisita suas canções, elas te trazem outros significados”reflete Bárbara, cujo sobrenome não deixa dúvida: trata-se da filha do grande Zé Rodrix. Paulo assente com a cabeça exclamando um sonoro “Exato!” enquanto Bárbara continua “Elas não ficam velhas, né? Elas se ressignificam”, afirma para o amigo concluir: “O tempo inteiro”.
 
Paulo conversa com o blog acompanhado de perto pela amiga Bárbara Rodrix, que participa do bate-papo enriquecendo ainda mais a nossa conversa.
A concretização do disco se deu graças a um financiamento coletivo bem sucedido pelo site de crowdfunding Partio. Pergunto como Paulo encara o processo de ser incentivado a gravar um disco com o apoio de pessoas que ele nem conhece ou sequer poderia imaginar que se interessariam em contribuir financeiramente. “Isso é a coisa mais maravilhosa que existe. Ter dado certo e exatamente o que você falou: muitas pessoas que eu não imaginava, que eu não conheço e pessoas que eu não imaginava que me ajudariam e me ajudaram e é isso, é uma puta responsa, né? Eu fico o tempo inteiro querendo retribuir da melhor maneira”, afirma. Para Bárbara Rodrix o processo de financiamento coletivo do “Esfera” guarda certa particularidade quanto ao apoio do público para um primeiro disco. “Quando você vai gravar um disco ‘cê tem que se concentrar muito pra fazer o que você acha que tem que fazer e assim as pessoas vão gostar ou vão desgostar, mas enfim, o público e a obra vão se encontrar em algum momento. No caso do Paulinho antes dele gravar nem precisou se preocupar nisso e nem se preocupar em não se preocupar. As pessoas já gostaram antes, já apoiaram antes de saber o que ia ser”, acredita Bárbara ao que Paulo lembra que o mote da campanha foi justamente uma mobilização pedindo que ele finalmente gravasse seu CD. 
 
Uma vez que a campanha foi bem sucedida, o processo de gravação começou do zero no estúdio Gargolândia em Alambari-SP e seguiu com as gravações dos cellos no Rio de Janeiro e algumas guitarras no estúdio do Tó Brandileone (5 a Seco) em São Paulo-SP. “Não tinha nada, mas tinha tudo, porque a minha banda, os caras que tão comigo desde que eu fiz o meu primeiro show autoral são os mesmos caras que tão gravando comigo. O primeiro show que eu fiz na minha vida eu tinha 14 anos e foi em Itapetininga. Tinha até uma gravação desse show e era eu, o Gabriel [Altério] e o Igor [Pimenta]. O Pedro [Altério] participou, a Bárbara [Rodrix] tava lá, entendeu? Então as pessoas que ‘tavam comigo quanto eu tinha 14 anos, ‘tão comigo até hoje. Então não foi uma coisa que eu tive que pensar”, conta. Para Paulo e Bárbara, já era óbvio que o ambiente de gravação do “Esfera” seria rodeado por pessoas significativas nessa trajetória musical. “É lógico que o Pedro vai ser o produtor, é lógico que a Bruna vai participar, que é minha prima, puta parceira, é lógico que o Dani [Black] vai participar, que é outro puta parceiro que me apoia pra caralho e é um puta cara que eu admiro pra caralho, é lógico que eu ia gravar na Gargolândia, é lógico que minha família ia participar, que afinal de contas eu devo tudo a eles. A musicalidade que eu tenho eu devo a eles, então é uma coisa que é até óbvio demais assim, tudo sempre esteve desenhado, o repertório… Se você pegar o primeiro rascunho de repertório, mudou umas quatro músicas, isso em 2011, que eu fiz o primeiro rascunho, 2012. Então pouca coisa mudou, né? Tudo muito óbvio, né?”. 
 
Quando fala então sobre poder contar com a batuta profissional e afetiva de Pedro Altério, Paulo não mede palavras. “Pedro é um cara que acompanhou minha trajetória desde o começo, me viu evoluir, fazer as primeiras músicas. Ele entende exatamente o que eu quero. A gente… É até engraçado… A gente tá produzindo o disco junto com a gravação, então sempre surgem ideias testando coisas. Não é uma coisa ‘ah vamo gravar isso aqui’ e cabô. Não. Vou testar isso aqui, então o disco tá ficando bem rústico assim”. E nesse processo cada detalhe tem sido saboreado.A gente ‘tá achando muito legal, ‘tá se divertindo muito, se emocionando. É uma coisa muito legal. Já vi discos serem feitos de outra maneira, então eu acho que tá sendo feito do exato jeito que eu sempre sonhei assim. Com um cara que eu sempre quis fazer junto, que é o Pedro, que é o cara que mais consegue me enxergar, a minha sonoridade, num lugar que eu sempre quis fazer, com os músicos que eu sempre quis fazer, com as participações que eu sempre quis, então eu diria que eu não mudaria uma vírgula do disco assim. Pode ser que as pessoas não gostem, mas eu tô amando. Tô gostando muito“, o músico não esconde sua satisfação.
 
Desde o início da campanha no Partio em agosto de 2014, Paulo vem conciliando a atenção dada ao disco com a graduação em Jornalismo e o estágio no setor de comunicação do Corinthians – não por acaso seu time do coração – em um ritmo intenso que só deve desacelerar um pouco com sua viagem à Europa, para onde parte após a finalização do “Esfera”, a fim de descansar um pouco e se apresentar em shows já agendados na França e na Alemanha. 
 
Enquanto o lançamento oficial do “Esfera” não rola por aqui, vale conferir os shows voz e guitarra que o músico tem apresentado em São Paulo. O próximo está marcado para as 22h do sábado 04 de abril no Manali Bistrô (Rua Vizeu, 20).
 
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