SAULO GALTRI: SENTIDO PARA COMUNICAÇÃO CONSTRUÍDO NA PRÁTICA

A conversa com o terceiro perfilado da série Quem somos nós por nós mesmos cruzou o Atlântico via telefone até a cidade de Dublin, na Irlanda, a fim de trazer para perto a experiência do maranhense Saulo Galtri, Gerente Regional do movimento Encrespa Geral no país. No perfil a seguir, Saulo narra como uniu sua formação em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo ao interesse por mobilização social, especialmente no ramo dos cuidados com cabelos naturais. Especializou-se no tratamento de cabelos crespos e cacheados e escolheu partir para ação que comunica transformações na prática. Na conversa a seguir, Saulo fala das experiências com o próprio cabelo e o da mãe, da transformação de pensamento durante o curso de Comunicação e das questões de gênero e empoderamento diretamente envolvidas com seu trabalho atual na Irlanda, onde mora há quatro anos. 

TEXTO POR TALITA GUIMARÃES

Sábado, 24 de setembro de 2016. 17h, em Paço do Lumiar, Brasil. 21h em Dublin, Irlanda. Uma chamada de Saulo Galtri dispara no meu celular. Atendo a ligação e constatamos felizes que o sinal vai segurar sem cortes a conversa que teremos. Preparo o gravador para a entrevista e após explicar para o – diga-se de passagem – amigo de longa data a abordagem da série Quem somos nós por nós mesmos, em que o entrevistado conta a própria história a partir de um olhar pessoal e afetivo, Saulo opta por uma narrativa focada em sua experiência com o trabalho atual, fruto de uma trajetória de estudo, pesquisa e inquietação particular de anos. 

Saulo Galtri é maranhense e se formou em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo em 2010, em São Luís-MA. E é pela experiência acadêmica que seu recorte específico começa.  

“Um ponto chave foi a entrada na faculdade de Comunicação. Muito do profissional que eu sou hoje só foi tomar conta da dimensão que havia em um discurso contra o cabelo natural na sociedade quando eu passei pelo processo de desconstrução no ambiente acadêmico, fazendo Comunicação. Foi com o início do meu processo. Eu já mexia com beleza, tinha blog, mas esse processo de desconstrução de entender que tipo de discurso tinha presente na sociedade e que ele tinha aquele racismo naturalizado que vinha de encontro ao cabelo natural eu fui entender mesmo quando eu tava na faculdade de comunicação, que eu fui observar que tinha todo um processo pra ser descoberto, pra ser trabalhado e aí que me fez realmente entrar no mundo da especialização  pro cabelo natural sem cair no tipo de cabeleireiro que trabalha com, vamos dizer assim até com um modo mais direto, forma de opressão mesmo, que trabalha com os defeitos da mulher no sentido de fixar, de ajeitar um defeito, que exatamente não é no cabelo natural, que é só aprender a cuidar porque não tem defeito nenhum.”

Saulo Galtri (Arquivo pessoal)

Saulo Galtri (Foto: Arquivo pessoal)

EXPERIÊNCIA PRÓPRIA, THE CURLY GIRL METHOD, ESPECIALIZAÇÃO

O incômodo começou pela experiência própria em não encontrar entre as alternativas convencionais de tratamento capilar algum método que não estivesse ligado à reparação de supostos defeitos do cabelo natural. “Eu sempre usei o cabelo grande. Sempre mexia com o cabelo da minha mãe, fazia experiências, aplicava química, coloração. Fiz cursos de curto prazo, mas nada, nada, nada que fosse trabalhar 100%. Eu trabalhava com cabelo numa esfera menor. Mas por conta exatamente dessa não-alternativa, eu sempre acabava utilizando química como alternativa pro meu cabelo. Eu entendia que meu cabelo era errado, que ele precisava ser consertado.”, conta Saulo Galtri que passou por experiências de alisamento químico que chegaram a fazer seu cabelo cair, de tão agressivas. “E eu nunca ficava satisfeito com o cabelo porque você sempre fica naquele ciclo vicioso: você relaxa ou então alisa, tem que refazer o alisamento então o cabelo fica totalmente não saudável. E era a mesma coisa do cabelo da minha mãe. Eu tava sempre tentando achar uma forma, algo que consertasse o cabelo dela porque ela não gostava do cabelo com cacho, até hoje ela não gosta. E foi exatamente nesse contexto que eu entrei com a questão do blog, comecei a pensar essa questão. Surgiu uma inquietação em mim sobre a questão de não usar química no cabelo, foi então quando entrei em contato com o  The Curly Girl Method, método da garota cacheada em tradução livre pro português, que é da Lorraine Maissey e aí eu vi que tinha algo em relação ao cabelo natural.”, conta.

Dois anos depois desse primeiro contato, Saulo ingressou no curso de Jornalismo, cuja fundamentação teórica em sociologia e teorias da comunicação o auxiliou no entendimento de que havia um discurso sobre estética e padrões de beleza imposto que precisava ser repensado. “A faculdade de comunicação reforçou essa questão do discurso da naturalização do preconceito com o cabelo natural principalmente no contexto brasileiro, principalmente pras meninas e mulheres. Se ela precisar se candidatar a uma vaga de emprego existe um cabelo que é profissional, existe um cabelo que não é considerado profissional. Existe essa questão da adequação  do cabelo pra diversos aspectos. Pro que é considerado um cabelo arrumado, pro que é considerado um cabelo disciplinado, até pelo mercado de cosméticos mesmo que a gente tem esses termos que são empregados: “indisciplinação”, “frizz”, essas palavras só reforçam realmente todas aquelas questões que são fatores naturais, que são fatores que pertencem ao cabelo natural de fato. Então na faculdade de comunicação comecei a fazer essa leitura e com o passar dos anos ela foi se aprofundando, conforme eu fui amadurecendo como profissional de comunicação foi me dando embasamento pra chegar nesse ponto de especialização que eu cheguei hoje.”, analisa Galtri.

Após concluir a graduação, Saulo Galtri fez um curso de especialização em corte e aplicação de produtos em São Paulo com Denis Silva, profissional que trabalhava com Lorraine Maissey e o método Curly Girl. Na oportunidade, Saulo conversou longamente com Denis sobre como a mulher cacheada era vista pelo mercado de cosmética e como ainda havia uma lacuna grande em relação a tratamentos de manutenção de cabelos naturais. Foi quando o jornalista decidiu atuar nessa pequena parcela do mercado. “Foi ai que caiu a ficha: tenho que fazer algo nesse sentido. Aí foi quando eu vim pra Irlanda fazer um intercâmbio e percebi que existia essa lacuna aqui também e que ela precisava ser explorada. Depois de oito meses fazendo alguns cursos locais aqui também eu decidi iniciar o trabalho pra abrir o negócio, que foi o The Curly Look.”, resume Saulo, que começou a atender profissionalmente o público em geral em novembro de 2013.

Saulo lembra ainda não ser o único profissional da comunicação a trabalhar com cabelos cacheados e cita a jornalista brasileira Sabrinah Giampá do blog Garagem dos Cachos, que também atende ao público em São Paulo, no Brasil.

ENCRESPA GERAL, FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA, PRÁTICA EDUCOMUNICATIVA

Ainda no Brasil, Saulo manteve contato com profissionais, colegas e pessoas interessadas nas discussões provenientes da área de estética capilar a fim de ampliar seu repertório sobre o assunto e sua atuação no ramo. O contato com o movimento Encrespa Geral, idealizado e dirigido no Brasil por Eliane Serafim,  ocorreu entre 2008 e 2009, quando Saulo colaborava com o blog Clube dos Cachos e participava de fóruns sobre cabelo natural.

A amizade com Eliane e Amanda Pedrazolli resultou em um maior envolvimento do jornalista com o coletivo que promove encontros de conscientização sobre o uso do cabelo natural em várias cidades do mundo desde 2013. “Quando eu vim pra cá disse que queria desenvolver o projeto dela aqui, porque o Encrespa tem várias pernas, vários afluentes ao redor do mundo. Tem Encrespa em Londres, na Itália, na Austrália, em vários outros lugares. O último que chegou a lançar foi na Angola. Além de em várias cidades do Brasil ele tá espalhado no mundo mesmo e eu queria trazer como Gerente Regional o Encrespa aqui pra Irlanda até porque eu sabia que ia encontrar um público bem diversificado, envolvido também com cabelo natural aqui que precisava desse apoio.”, explica Saulo, que juntamente com um equipe de sete pessoas diretamente envolvidas é responsável pela edição irlandesa, que em 2016 chegou a sua terceira edição no dia 08 de outubro com palestras, depoimentos e atividades culturais em Dublin.

Participantes da terceira edição do Encrespa Geral em Dublin. (Foto: Arquivo Pessoal)

Participantes da terceira edição do Encrespa Geral em Dublin. (Foto: Arquivo Pessoal)

Para o profissional, o trabalho com a comunidade local requer sensibilidade para identificar as referências culturais com as quais se está lidando. “Aqui a gente precisa de um recorte mais regional que remeta um pouco a gente, porque você cai de paraquedas no meio de uma estética que não pertence a sua. Então você muito facilmente pode ou não se perder um pouquinho daquilo que você é realmente, porque você acaba indo a um profissional e ele acaba ditando pra você o que você tem que fazer em relação ao seu cabelo. Então é muito fácil você alisar o seu cabelo aqui na Irlanda, mais ainda do que no Brasil. No Brasil hoje em dia você ainda tem uma opção, aqui na Irlanda não é uma opção, você vai sair com o cabelo liso como se fosse uma forma de remediar mesmo o seu cabelo. Então até uma forma de mostrar pras pessoas que não tem nenhum problema com cabelo natural em si. É só aprender a cuidar, aprender a respeitar.”, afirma Saulo que acredita no uso do cabelo natural como forma de posicionamento político que comunica o reconhecimento de uma estética liberta do padrão imposto pela indústria e seu histórico  ditador de regras que não raro favorecem discursos opressivos em relação à aparência física.

Pergunto como se dá a construção do referencial teórico que considera conceitos de identidade cultural, pertencimento e empoderamento das pessoas, uma vez que o assunto não se limita às mulheres envolvendo também crianças e homens no reconhecimento do cabelo com o qual a pessoa nasceu. 

“Tem alguns livros que eu posso até citar e deixar como referência pro trabalho que a gente tá fazendo e também tem um curta que teve um impacto bem forte, chama ‘Good Hair’, com aquele cara que fazia o “Todo mundo odeia o Chris”, ele mesmo a pessoa, o Chris [Brown] mesmo, como entrevistador. Ele fez esse documentário em que ele ia nos guetos americanos pra ver o que eles entendiam como cabelo bom, qual era esse referencial que a mulher negra americana buscava nos salões de beleza pra ter o cabelo bom e ele mostrava que a maioria das mulheres mexiam quimicamente com o cabelo ou então utilizavam peruca sempre como forma de cobrir, remediando, com aquele contexto de remediar mesmo o cabelo crespo natural como se tivesse um problema ali né, que perpassa muito pela questão da colonização, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Ele fez o recorte americano, mas é um processo muito de colonização, dessa subalternação que a princípio a raça negra teve, muito similar nos dois países sobre essa relação de marginalização. Existia aquele foco no branco, foco na supremacia realmente que classificava o cabelo crespo como não apreciável. Ou se dava um jeito de prender ou você fazia algo que deixasse ele mais próximo desse conceito eurocêntrico de beleza realmente. Ele aborda um pouco disso, mas bem superficialmente. Teve outro livro que eu li que era o “Against All Odds” [ da autora Mahisha Dellinger, da linha Curls] que é da dona de uma rede de produtos também dos Estados Unidos, uma mulher negra que acabou construindo o próprio negócio pra que ela conseguisse desempenhar todo o discurso dela e propor um bom serviço para mulheres negras nos Estados Unidos. Ela aborda praticamente a mesma coisa, de como ela superou todas essas cicatrizes na autoestima feminina e o próprio livro da Lorraine Massey, o “The Curly Girl hand book”,  fala muito disso. A história pessoal da Lorraine é sobre um outra perspectiva, que a Lorraine é uma mulher branca, então eu comecei a perceber que tanto a mulher branca quanto a mulher negra, se elas tivessem cabelo natural elas iriam compartilhar o mesmo tipo de desconforto social por conta do cabelo, porque os cabelos delas sempre iam ser tratados como se fossem pra ser remediados realmente, algo pra ser trabalhado.”

Interessa a Saulo trabalhar e discutir também a dificuldade para cuidar do cabelo natural na infância, muitas vezes fruto de uma falta de informação dos pais, mas também da falta de produtos disponíveis para o cabelo natural do público infantil. 

“Eu comecei a perceber, por causa das minhas sobrinhas, olhando o passado, pensando, relembrando de algumas coisas. As minhas sobrinhas alisam o cabelo delas desde quando tinham nove anos de idade. Nove anos de idade! Comentando isso com a minha mãe, eu disse ‘gente, isso é terrível’. Você não tem opção nenhuma praquela criança gostar de cuidar do cabelo. Mas aí você vai ver o que é que tem de opção pra um pai e pra uma mãe no sentido de saudável pra lidar com o cabelo natural: nada! Então a opção que ele tinha realmente, achando até que tava fazendo bem pra criança, era colocar a criança em contato com a química, então isso foi assim devastador quando caiu a ficha mesmo, que a gente acaba colocando uma pessoa que tá em pleno desenvolvimento hormonal, psicológico e de todas as formas, se desenvolvendo como pessoa realmente, e acaba bagunçando com a imagem pessoal dela dessa forma. E numa outra esfera também, a econômica. A moda, a indústria cosmética trabalham em cima das inseguranças femininas realmente, entendeu? É dessa forma que eles fazem dinheiro. Eles te tornam insegura a respeito da tua imagem, seja você gorda, seja você magra, seja você com cabelo crespo, são sempre os opostos. Sempre fazendo você desejar aquilo que você não tem. E isso pro cabelo natural é devastador. E é terrível se você for ver a quantidade de salões especializados pra cabelo cacheado da quantidade de salões que oferecem a escova e a chapinha com secador, esse tipo de coisa ainda é devastador, é bem grande. É por isso que desde que eu tive contato em 2008 com essa questão, desde a faculdade, eu tive que fazer alguma coisa porque foi uma forma também de desempenhar um trabalho de comunicação que eu já fazia. Eu tinha aquela lacuna, eu não sentia que a comunicação que eu fazia trabalhando da forma que o conceito formal, ela atingia tanto, ela transformava tanto o contexto, transformava tanto o mundo, até naquele contexto mesmo mais de – não quero falar sonho, mas é outra coisa – ideologia, que é a aquela coisa que você tem e tal, mas quando você cai na realidade você vê que você tem que fazer  o que todo mundo faz pra vender o arroz e o feijão. E aí eu vi que eu conseguia atingir mais pessoas, eu conseguia transformar mais vidas de pessoas quando eu trabalhava com a mão na massa e comunicava. Por exemplo, hoje como especialista em cabelo cacheado e gerente do Encrespa Geral eu consigo semear, eu consigo olhar no olho da pessoa, consigo comunicar de uma forma mais direta do que como comunicador, por exemplo vendendo meu trabalho como assessor, sendo em jornal ou TV ou onde quer que seja a gente não consegue. Você tem uma tabela pra trabalhar, você tem uma agenda a desempenhar e foi dessa forma que eu consegui realmente lograr êxito, vamos dizer assim, na forma com que eu imaginava que seria o meu trabalho mesmo aliando o que eu gostava de fazer com a paixão mesmo que eu tinha em mente.”

Saulo Galtri durante Encrespa Geral 2015. (Foto: Claudia Vieira)

Saulo Galtri durante Encrespa Geral 2015. (Foto: Claudia Vieira)

Nesse ponto da conversa, é possível visualizar que o caminho traçado por Saulo Galtri converge para uma prática educomunicativa em que a comunicação é o componente de um processo educativo fundado na ação. Há o rompimento de uma barreira estabelecida entre o fornecimento de uma informação e uma orientação prática mobilizadora através de uma comunicação direta.  Segundo Saulo, os temas que vem do ambiente acadêmico com análise sociológica precisam ser detalhados e desconstruídos para torná-los acessíveis ao público sem distinção, proporcionando a construção de um diálogo qualificado e esclarecendo o público quanto ao direito à liberdade de ser, vestir e usar o que quiser. “Porque é muito fácil você cair no conto da elitização também, você acaba afastando essas pessoas. Eu tô falando com pessoas, Talita, de várias esferas sociais, mas a maioria das mulheres é negra, da mulher do cabelo crespo que ainda é marginalizada, que vem de contextos não tão afortunados. A realidade é essa, então eu preciso que essa mulher entenda esse contexto dela, entenda que o cabelo dela é uma forma de se posicionar politicamente. Primeiro que não tem problema nenhum, que ela pode se posicionar politicamente por meio do cabelo dela, uma forma de resistência que isso já abre uma aba pro movimento negro. O Encrespa não é um movimento negro, mas ele trabalha com o protagonismo negro, ele trabalha com esses temas e também no final das contas, no resultado de tudo, na liberdade pra mulher. Se ela quiser usar o cabelo dela natural ela usa, se ela quiser usar o cabelo até alisado mesmo ela usa, mas que ela primeiro entenda esse contexto de estar bem consigo mesmo e de perpassar essa leitura que a mídia implementa, que bombardeia ela diariamente seja na TV seja nas revistas, até pra essa questão mesmo de representação, de representativa que a gente fala muito também no Encrespa Geral se torne plenamente independente. Totalmente independente. Se ela tem senso crítico, ela consiga desconstruir e construir principalmente o que ela tem em relação a informação. Esse é o principal, entendeu?”, explica Saulo, já tratando da promoção de uma leitura crítica dos discursos construídos socialmente e difundidos pelos meios de comunicação de massa.

O Encrespa Geral na Irlanda promove um evento anual gratuito com o objetivo de sensibilizar e conscientizar as pessoas interessadas em cabelo natural através de um encontro com relatos de experiências, palestras com especialistas e atividades culturais.

“O Encrespa é educativo, cultural e político. Ele perpassa por essas três esferas maiores. É educativo no sentido que, por exemplo, a gente trabalha com mães, pra que elas entendam o processo de cuidar de uma criança de cabelo cacheado, crespo, qualquer que seja a textura do cabelo, pra que ela entenda por onde que ela vai passar, o que significa incentivar o cabelo dela, incentivar o cabelo da criança natural. Ele é cultural no sentido que a gente traz mobilizações sociais, representações sociais de comunidades, de periferias, por exemplo que seriam marginalizadas e que o envolve também mulheres crespas. Por exemplo, a gente tá trazendo agora esse ano o Samba Rock que vem de uma comunidade lá de São Paulo. A quantidade de mulheres de cabelo crespo nos bailes de sambarock é absolutamente incrível. Você vê as fotos delas, mulheres altamente confortáveis, seguras com seus cabelos, com o black delas, com aquele cabelo com volume, exatamente o que a sociedade diz pra não fazer. E ela dançando, utilizando aquele cabelo como um instrumento realmente de dança e de tudo, sabe totalmente conectada com si mesma. A forma como ela carrega aquilo, então esse tipo de experiência é cultural, a gente traz pra que sirva de representatividade pra essas mulheres que tão presentes no Encrespa. E político quando a gente trata de questões sobre representatividade e empoderamento. Representatividade a gente sempre explica o contexto social no sentido de questionar, será que a gente tá sendo representado suficientemente nas novelas, nas revistas, nas escolas, sabe? Será que nossas questões estão sendo abordadas? Empoderamento quando a gente fala como o direcionamento, que a gente encare as lutas diárias do contexto, a gente não abaixe a cabeça. E saiba os nossos direitos realmente. Por exemplo, no Encrespa passado a gente teve casos de meninas relatando que quando moravam em São Paulo sofriam altamente assédio de serem aprovadas numa vaga de emprego, mas a finalização da aprovação seria feita se elas dessem um jeito no cabelo porque o cabelo cacheado não era algo que era profissional. Então esse tipo de posicionamento político é importante porque você consegue condicionar essa pessoa pra que ela não abaixe a cabeça porque esse tipo de coisa é diária, não acabou.”

Para Saulo, a contracorrente que afirma já haver uma ditadura do cabelo natural não corresponde à realidade, uma vez que o assédio contra o cabelo cacheado e crespo ainda ocorre de forma muito expressiva e violenta para representar uma questão que supostamente teria sido superada assumindo uma posição social opressora.

Eu acredito ainda como naturalista mesmo, alguém que promove o cabelo natural, que isso não existe ainda porque a quantidade de pessoas que eu vejo sendo assediadas sejam pelos companheiros, seja pelo ambiente profissional, o ciclo de amizade, quem quer que seja, o ciclo social de uma forma geral mais ampla é muito grande. Tem pessoas que são assediadas o tempo todo pra que mudem o cabelo quimicamente ou de forma sintética. Porque é como se as pessoas mesmos, os olhos das pessoas ainda não tivessem aceitando, ainda não tivessem preparados pra aceitar aquilo que você é, aquilo que você vai morrer com, o cabelo que você vai morrer. O cabelo que você nasceu, o cabelo que você vai morrer e que você não aprendeu ali dentro de uma timeline a aceitar, a trabalhar o melhor, entendeu?”

Dentro desse contexto que as palestras e rodas de conversa se mostram como aliados poderosos do processo de sensibilização e conscientização dentro dos eventos do Encrespa Geral. 

“A gente faz palestras, momentos culturais, momentos psicológicos, de divisão, compartilhamento de experiências, mulheres que tem histórias marcantes, a gente acaba trazendo os recortes delas e fazem tipo um tete-a-tete mais amplo. Ano passado a gente teve a Charlote que ela é da Dinamarca, a mãe dela é negra e o pai dela é dinamarquês e ela dividiu a história dela, o cabelo dela, as incertezas, as inseguranças que ela teve com quarenta pessoas assim. Tinha gente chorando, quarenta pessoas e ela dividindo aquilo por vinte minutos e essa divisão, essa aproximação, de não deixar o ambiente tão formal. Essa questão de deixar íntimo todo evento é tão importante porque a gente tem pessoas que tão num brotar ainda realmente, e aí despertar pra coisa mesmo então a gente tem uns momentos por exemplo das palestras, às vezes a gente tem esse momento de divisão, de compartilhamento desses recortes pessoais que são exatamente quando as meninas acabam se enxergando ‘olha, mas mesmo ela na Dinamarca, um país totalmente diferente do Brasil, teve as mesmas coisas, foi assediada por causa do cabelo pra sabe, arrumar ou então lidou com algum tipo de xingamento, bullying, esse tipo de coisa.”

Além de promover o debate e articular a organização das pessoas interessadas no assunto, o evento funciona como um ponto de encontro para mães, mulheres e seus companheiros conhecerem as histórias uns dos outros e firmarem amizades e relacionamentos mais sólidos. O encontro que já teve uma edição bilíngue em português e inglês, esse ano teve o foco na língua inglesa por abranger pessoas além da comunidade brasileira em Dublin. Segundo Saulo, a conversa flui em inglês e o idioma é aperfeiçoado também. “Acaba que as mulheres trazem os maridos, fazem amigas, esse tipo de coisa que são fora do contexto brasileiro e acaba o inglês fluindo.”, afirma Saulo Galtri.

EXPERIÊNCIA PESSOAL, DESNATURALIZAÇÃO E POSICIONAMENTO

Considerando que a experiência profissional adquirida por Saulo está diretamente vinculada ao seu amadurecimento pessoal, conversamos também sobre como ele avalia a mudança interna observada ao longo desses anos dedicados ao estudo, pesquisa e especialização na área.

“Isso é bem interessante, Talita. Tem coisa que a gente vai fazendo e não vê muito sentido, acha inútil, mas tem várias outras questões por exemplo envolvendo a cadeira de sociologia na faculdade que eu não via muita aplicação na vida cotidiana, mas quando eu vim pra cá e tive esse distanciamento da cultura do Brasil local comecei a observar o Brasil com o contexto social mesmo da coisa. E nesse contexto mais estético-capilar, quando eu vim pra cá, porque você se distancia do objeto pra observar realmente. Com todos esses contatos que eu tive no ambiente acadêmico e dos contatos que já tive com as ferramentas pra trabalhar com o cabelo natural, com esse distanciamento eu pude abordar o objeto de uma forma muito mais enfática, entendeu, e foi exatamente quando todo o contexto que eu já vinha trabalhando com o Encrespa, até contextos que eu não tinha um clareamento ainda em mim, eles floresceram assim de uma forma muita rápida, eles amadureceram de uma forma muito rápida porque fazia tudo muito sentido. Você não tem todo aquele bombardeamento midiático, a TV, sabe aquele embranquecimento. No Brasil tem muito contexto eurocêntrico como modelo de beleza e quando eu vim pra cá vi que era exatamente o contrário. Quando a gente vê que eles enaltecem bastante a beleza natural, também de uma certa forma, no sentido de apreciação, não que você vai em um salão e vai ser oferecido trabalhar com cabelo natural, não, mas no sentido de apreciação mesmo, no contexto de originalidade mesmo da coisa. Hoje ainda tem muita gente que exotifica o negro, ou então o cabelo natural, mas também tem muita gente que aprecia. A exotificação não é legal, mas é esse distanciamento, ele veio na hora certa porque eu consegui despertar todas as ferramentas que eu já tinha nesses contextos pra ser usadas enfaticamente como por exemplo o Encrespa Geral ou então no trabalho que eu já venho desenvolvendo pelo The Curly Look.”

Saulo lembra ainda que tanto na Irlanda quanto no Brasil a imagem da mulher ainda é muito questionada, o que demanda um trabalho constante de desnaturalização da opressão. “Essa questão da opressão entra num contexto até maior do que só do cabelo porque a maioria do meu trabalho, 95% é focado só pra mulheres realmente. A mulher, ela é tratada como objeto mesmo na mídia, pela indústria e ela é bombardeada todos os dias, então ainda há muito que se avançar sobre as questões femininas, no quesito de respeitar mesmo as escolhas, respeitar mesmo a mulher como indivíduo, sabe? Esse tipo de coisa que tem que avançar realmente porque tá muito atrás ainda, ainda tem muitas questões pendentes. A questão sobre a imagem da mulher tá muito atrasada ainda”, afirma o profissional.

Diante do atual contexto político brasileiro em que a inversão dos valores e a manipulação dos fatos está ditando os rumos do país em nome do poder de um grupo dominante, percebe-se que intervir diante de injustiças históricas se vincula ao enfrentamento de regras como atitude política. Comportamento que se aplica às lutas do feminismo contra toda forma de violência à integridade física e psicológica da mulher. Nesse sentido, pergunto o que Saulo pensa a respeito da adoção do cabelo natural como decisão política. 

“A gente tá falando da naturalização de violências. Por exemplo, o racismo é altamente naturalizado no Brasil. Se a gente for ver os termos pejorativos que tem o cabelo natural, que eu trabalho muito no Encrespa, são terríveis. A gente acaba crescendo achando que é inocente, mas não é, então quando você acorda pra enxergar que esse tipo de termo que você utilizava seja o ‘preto de alma branca’ seja o ‘cabelo de bombril’ esse tipo de coisa, você se posiciona politicamente porque você não vai deixar passar a próxima vez. E é um posicionamento político porque você se torna um agente transformador seja no menor contexto que você tiver. Às vezes a gente não está falando só de agentes, pessoas que façam um movimento, participem de um movimento, mas no dia-a-dia realmente de quebra dessa naturalização errada. Acontece que a padronização, dentro do contexto social principalmente elitista das companhias que pressionam o governo nesse método mais político, gera lucros e quando a gente rompe com essa padronização, com essa naturalização do que é considerado normal, mesmo que isso decepe, mutile sua imagem pessoal  ele se torna um ato político porque você tá fazendo isso pra sua sobrevivência e do que você acredita, sobrevivência de si próprio, da sua identidade. No final do dia sua identidade que tá em jogo, entendeu? Então ela é positiva porque é dessa forma que a gente trabalha no Encrespa, que a gente por exemplo, não faz questão de quantidade de pessoas, mas a qualidade mesmo das pessoas de apreciação do evento, que elas vão tá presente porque a intenção é que elas sejam semeadoras mesmo disso, que a gente consiga desconstruir e desnaturalizar essas questões e que elas levem a frente, que elas consigam fazer a mudança no menor contexto que seja, que seja fazendo no cabelo do filho, da filha, em casa desconstruindo o esposo que as vezes é irlandês e vez ou outra não sabe lidar muito com o termo e tal e acaba ido prum termo que é um pouco mais ofensivo, mas que ainda assim é naturalizado, mas aí ela já se posiciona politicamente e não deixa passar, entendeu? Porque é muito complexo, é muito mais agressivo do que a gente imagina.”

O sol que já se recolheu há horas da capital irlandesa, finalmente se despede do litoral do Brasil também quando nossa conversa por telefone vai chegando ao fim. O último tópico que percorremos tem a ver com a opinião do especialista sobre as discussões acaloradas que frequentemente tomam conta das redes sociais quando alguém posta um comentário torto ou preconceituoso sobre as aparências alheias. Saulo avalia que a internet, enquanto território onde as opiniões mais diversas se chocam, favorece com muita frequência de postagens tocarem em pontos delicados, que repercutem amplamente. “Como a gente vem de um tempo que teve os direitos renegados de uma forma bem ampla, tá tudo muito delicado. Por exemplo, é a mesma forma quando eu vejo pessoas querendo ouvir de mim uma posição contrária às mulheres que alisam o cabelo. Eu não tenho posição contrária nenhuma com quem alisa o cabelo. Até digo pras meninas ‘alisem o cabelo, façam o que vocês quiserem, agora o que eu vou dizer pra vocês é que vocês façam com saúde, entendeu?’. É só o que eu quero, desejar que vocês façam com saúde, mas até essa forma que eu falo como vocês vão fazer com saúde pra não soar ofensivo porque a mulher de forma geral  já tá teve a imagem questionada, discutida, direcionada de tantas formas, sabe, ditada de tantas outras formas que tem essa questão magoada socialmente falando.”, opina Saulo, que menciona ainda a existência de um feminismo conectado que reage imediatamente à toda e qualquer expressão de opressão, seja essa opressão fruto de um mau uso das palavras ou da má intenção em ferir mesmo.

Comunicar o que se acredita construindo sentido para o que você quer comunicar é a essência do trabalho de Saulo Galtri. A conversa percorre a trajetória de uma vida dedicada à transformação social narrada pelo próprio protagonista. Com suas escolhas narrativas, lembranças que opta por compartilhar, fatos cuja memória considera relevantes e posicionamentos sobre o que acredita ser o mais importante. É assim, através de um relato em primeira pessoa que conhecemos o que pensa o dono da história que está sendo escrita dia após dia.

E é com o trabalho de Saulo Galtri por ele mesmo, que o Ensaios em Foco dá continuidade à série de entrevistas Quem somos nós por nós mesmos, que já conta com os relatos da cantora e atriz corumbaense Paula Mirhan e do músico e pesquisador maranhense Marcos Lamy. De agosto a dezembro, publicaremos conversas resultantes de encontros com pessoas que muito tem a nos contar sobre suas vidas e projetos. Sempre a partir de um relato pessoal fruto de um olhar afetivo sobre a própria trajetória.