TECENDO A PEÇA

Texto: Talita Guimarães

Imagens: Arquivos dos grupos Xama Teatro e Petite Mort

Quando a carioca Joyce Moreno cantou “costura o fio da vida só pra poder cortar” fez caber no verso de Feminina a síntese do entendimento sobre a entonação feminil do espetáculo teatral As 3 Fiandeiras, produzido pelos Grupos Xama Teatro e Petite Mort, que sobrepõem camadas de realidade, ficção e mitologia para falar do protagonismo feminino na gestão da criação. Da concepção à arte.

Relacionando o tecer ao narrar, o espetáculo propõe um diálogo entre o ofício das mãos habilidosas que confeccionam peças de renda e as dramaturgas que costuram histórias de vida em busca de uma nova peça de teatro. Com uma narrativa metalinguística sobre atrizes em processo criativo de um espetáculo sobre o universo das mulheres rendeiras, que desejavelmente seja melhor sucedido que o atual fiasco de bilheteria em que estão, As 3 Fiandeiras aborda  ainda o desafio do fazer teatral em um mundo onde sonho e realidade coexistem em constante tensão.

A peça teatral é fruto de um longo processo de pesquisa iniciado em 2012. Com direção e dramaturgia de Igor Nascimento (Petite Mort), foi concebida juntamente com o elenco formado pelas atrizes Gisele Vasconcelos e Renata Figueiredo, do Grupo Xama Teatro e a atriz convidada Rosa Ewerton. Na equipe técnica, o espetáculo conta com Direção Musical e Preparação Vocal de Gustavo Correia, Figurino de Cacau di Aquino, Iluminação por Camila Grimaldi, Cenografia por Ivy Faladeli, Identidade visual de Maurício Vasconcelos e Fotografia de Márcio Vasconcelos.

Em 2017, As 3 Fiandeiras retorna aos palcos em curta temporada entre 02 e 04 de maio, sempre às 20h no Convento das Mercês (Desterro) com ingressos a R$ 20. Na sexta-feira (05) a peça abre o Sesc Amazônia das Artes com apresentação gratuita no Salão Paroquial da Igreja Matriz da Raposa, às 18h30. Em seguida, o espetáculo circulará através do programa de intercâmbio cultural Sesc Amazônia das Artes pelos estados do Pará, Tocantins e Acre.

Ensaios em Foco conversou com o diretor e dramaturgo Igor Nascimento e as atrizes Gisele Vasconcelos, Renata Figueiredo e Rosa Ewerton a fim de conhecer os processos de tessitura (organização) e tecitura (urdidura) que culminaram no espetáculo. O resultado é a série “Por dentro das tramas de As 3 Fiandeiras“, que publicamos em três partes de hoje até quinta-feira (04).

Nessa primeira parte, o elenco fala sobre o processo de montagem do espetáculo desde os primeiros desafios, sonhos, desejos e ideias, passando por relatos sobre a experiência de criação fundada no revezamento narrador-personagem e no interesse pela condição feminina retratada pelas similaridades entre atrizes e rendeiras de bilro, e ainda sobre o recurso do meta-teatro adotado para alinhavar a dramaturgia de As 3 Fiandeiras. 

AS TECELÃS EM CENA

Rosa Ewerton nunca havia feito algo parecido antes. Substituir uma atriz a três meses de uma estreia? Não, essa experiência ainda não tinha lhe alcançado. E olha que em sua pele já moravam mais de trinta anos de carreira artística. Contar histórias também seria novo. A experiência como narradora-personagem, um desafio. Todavia, maior que tudo foram o aprendizado, a descoberta e o acréscimo como atriz, oportunizados ao aceitar o convite dos grupos Xama Teatro e Petite Mort para integrar o elenco do espetáculo As 3 Fiandeiras, em 2014.

elenco fiandeiras.rosa

Conta Rosa, que na ocasião substituiu a atriz Érica Quaglia, partícipe até então de grande parte do processo de montagem e construção das personagens que Rosa teria a missão de prosseguir em tecitura. A saber, uma atriz chamada Isabel que por sua vez interpreta a rendeira Zezé e a moira da Morte Átropos.

“Substituir outra atriz em um processo tão pessoal, tão íntimo, me causou muito estranhamento inicialmente, porque todo o material costurado pelo dramaturgo foi doado pelas próprias atrizes que já estavam nesse processo, há dois anos e meio, quando cheguei. Como não havia tempo para mudar mais quase nada do texto final, tive que entrar na dimensão de outra mulher, sem conhecê-la, tomar como minhas verdades as verdades dela e, lógico, levar para a cena, da maneira mais verdadeira possível”, relata Rosa Ewerton. 

Para a atriz convidada, o maior desafio estava por vir: lidar com o tempo e a linguagem propostos pelo espetáculo. “As outras atrizes já são contadoras há muitos anos e estavam falando delas próprias, o que torna as coisas menos difíceis (nunca fáceis)”, diz em relação às experientes atrizes contadoras de histórias com quem contracena, Gisele Vasconcelos e Renata Figueiredo, do grupo maranhense Xama Teatro. 

Para entender a preocupação de Rosa, é necessário voltar aos idos de 2011, quando Gisele e Renata começaram a tecer os primeiros fios do que com o arremate do dramaturgo Igor Nascimento, se transformaria no espetáculo teatral ganhador do 2º Prêmio Nascente da Universidade de São Paulo – USP, na categoria Melhor espetáculo na área de Artes Cênicas  em 2015, ano de sua estreia.

Gisele Vasconcelos, atriz e pesquisadora conhecida pelo trabalho com contação de histórias, revela que desde o início o trabalho d’As 3 Fiandeiras se ancorou na proposta de revezamento narrador-personagem. “Além da gente querer trabalhar com o revezamento de narrador-personagem, que é uma proposta do trabalho do Xama, também tem um trabalho muito forte com o feminino que também engloba o trabalho do Xama. Então você vê na ‘Carroça’ [espetáculo “A Carroça é nossa”] uma predominância muito grande também das atrizes, você vê na ‘Besta Fera’ [biografia cênica da médica Maria Aragão], a importância dessa figura ícone da mulher que é a Maria Aragão e atriz Maria Ethel e n’As 3 Fiandeiras, que permeia todo o espetáculo essa temática do feminino., explica Gisele. 

Assim, ao trazer o dramaturgo Igor Nascimento (Petite Mort) para escrever e dirigir o espetáculo, a proposta em curso já contemplava o formato de contação de história e o interesse forte por uma narrativa que evocasse feminilidade em três esferas temporais. “A gente queria trabalhar com os três planos, que é o mito, onde a gente traz todas as figuras lendárias, toda essa questão da mitologia também das Moiras e lendas de terra e de mar. A gente queria trabalhar com a realidade, o real, onde a gente coloca essa apresentação das atrizes né, numa interpretação mais naturalista. E a ficção, onde a gente criou essas personagens e esse enredo que é a ida em busca de um filho perdido no mar, que é uma ficção com as três rendeiras.”, pontua Gisele Vasconcelos, que se alterna entre as personagens Isadora (atriz), Chica (rendeira que parte em busca do filho Ribamar) e Láquesis (moira que puxava e enrolava o fio da vida).

Para a atriz Renata Figueiredo, conhecida voz local da contação de história, As 3 Fiandeiras se conecta profundamente com os anseios pessoais do elenco, uma vez que o interesse por uma abordagem teatral ao feminino emerge de experiências e questionamentos íntimos das atrizes enquanto profissionais das artes cênicas e mulheres em sociedade. “Já era um desejo nosso falar sobre o feminino. Eu e a Gisele estávamos num processo muito forte na Companhia quando a gente começou a criar esse espetáculo. Foi numa fase em que a Gisele foi fazer doutorado em São Paulo e eu fiquei sozinha. A gente mantinha uma sede. Essa sede era cara, a gente tava com pouco volume de trabalho.”, lembra Renata que na época estava na faixa dos 37 anos de idade e refletia muito sobre a própria vida, característica levada para sua personagem Beatriz em As 3 Fiandeiras. “Foi em 2011 que esse espetáculo começou a nascer, assim na nossa mente. Então foi uma época em que eu pessoalmente comecei a questionar várias coisas na minha vida. Quem eu era como mulher no meu relacionamento amoroso, quem eu era como mulher na minha profissão, como os homens da minha vida agiam e como eu agia com esses homens. Eu tava pessoalmente num período de muitos questionamentos, iniciando vários estudos sobre o sagrado feminino, assim do ponto de vista pessoal mesmo.”, conta a artista, que além de Beatriz, interpreta a rendeira Maria Aparecida das Dores e Clótos, moira responsável por tecer o fio vital.

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“Essa foi a primeira motivação pra mim, pessoalmente, fazer as fiandeiras, e na mesma época a Gisele também teve vários sonhos que também de alguma forma tocavam nessa dimensão do sagrado feminino. Então essa oportunidade de estudar e falar sobre o feminino, falar sobre coisas da nossa própria vida é assim indescritível. A gente poder fazer da nossa vida o material criativo é muito bom porque é uma oportunidade da gente elaborar e transformar sentimentos. Não que esse espetáculo vá abarcar tudo que a gente é, porque tudo que a gente é não cabe num espetáculo, mas de certa forma a gente transforma angústias, incertezas e essas coisas que costumam até envenenar o ser humano em fazer criativo, então desse ponto de vista essa oportunidade de falar sobre o que realmente nós somos nas fiandeiras é um trabalho assim muito transformador. Eu acredito que as nossas angústias, elas não são só nossas, então quando a gente fala sobre isso e transforma isso em material cênico a gente também toca a alma de outras pessoas, a gente toca a mulher que há noutras pessoas, mesmo nos homens né, a gente toca esse feminino, essa parte noturna da alma, essa parte que não guerreia, essa parte que cuida e que não abraça, essa parte de nós, essa nossa dimensão que não tá a serviço do capitalismo, que não tá competindo, que não tá lutando heroicamente, mas sim abraçando, se envolvendo e aprofundando. É uma dimensão que faz falta na sociedade solar, né, a gente vive nesse mundo solar em que a gente tem que conquistar coisas e ser mais do que os outros e a gente tá desenvolvendo justamente a contramão disso tudo que é o acolhimento, que é o ir às profundezas, que é a dimensão do sonho e da fantasia e tudo isso tá dentro do campo da feminilidade e é uma oportunidade maravilhosa falar sobre isso e tocar as pessoas nesse ponto.”, continua Renata.

Quanto ao processo de criação marcado por uma forte entonação feminil, Gisele entende que o diálogo entre experiências reais e elaboração teatral contribuíram para o desenvolvimento artístico da Companhia. 

elenco fiandeiras.gisele

Segundo Renata Figueiredo, o revezamento de vozes narrativas é um treinamento constante no Xama Teatro. “A gente trabalha com essa alternância entre narrador e personagem. Não é difícil fazer um espetáculo em que a gente fique identificada do começo ao fim com um personagem só. Sempre tem um trabalho de distanciamento, mesmo que eu esteja fazendo um personagem, vai ter um momento que esse personagem vai se distanciar da fala cotidiana, do diálogo direto, do discurso direto e vai se remeter a uma história, a algo que aconteceu no passado. Então esse é um exercício que a gente faz bastante no Xama. Pra mim é uma coisa muito legal do momento em que eu comecei a perceber que essa alternância é reflexo duma imagem interior, então se eu tô aqui te contando uma história e de repente eu falo como um personagem eu me vejo realmente como esse personagem [sorri], é uma coisa meio até esquizofrênica, né? Eu tenho todos dentro de mim, tenho tanto o narrador como o personagem. Eu sei como o narrador é, eu sei como é o personagem e o narrador pode olhar pra essa personagem, mas a personagem não pode olhar pra esse narrador porque a personagem tá acontecendo no momento presente e a partir desse treinamento de reconhecer quem é o narrador, quem é o personagem ou quando há alternância de um personagem pro outro a gente consegue fazer essa passagem de um jeito muito natural e de certa forma todo mundo que conta uma história consegue fazê-la”, e para exemplificar como essa passagem natural está presente em nosso discurso falado, Renata menciona nossa experiência cotidiana de chegar em casa e contar um acontecimento do dia para alguém reproduzindo os diálogos e até mesmo as entonações de nossos interlocutores. “Como a gente trabalha muito mais contando histórias do que encarnando personagens a gente consegue fazer essa passagem de um jeito muito tranquilo. E pra nós internamente, vemos os dois né, quando eu sou a Das Dores eu tô me vendo como a Das Dores e quando eu sou a Beatriz narrando eu tô me vendo como a Beatriz narrando, então são entidades [sorri] diferentes que moram dentro de mim, né? Pode chamar isso de uma coisa esquizofrênica ou pode chamar isso de uma coisa espiritual e pode chamar da arte de contar histórias né, que a gente tá contando essa história sob diversas dimensões e diversos tempos, não restrito a um tempo só, então pra gente que exercita muito isso é um jogo muito interessante, muito divertido e que pra nós é natural.”, afirma.

Ainda no tocante às passagens de narrador para personagens, há de se considerar o mérito do texto dramatúrgico de Igor Nascimento, cujo alinhavo das vozes de cada dimensão temporal fornece o suporte necessário ao elenco, segundo destaca Rosa Ewerton. “Quanto ao fluxo de mudança das personagens, é muito mérito do belo trabalho do diretor, dramaturgo, costureiro Igor Nascimento. Ele costurou muito bem as passagens, nos fazendo ver ou descobrir cada nuance das idas e vindas, que precisavam ser sutis e delicadas como um traço de hábil desenhista. Cada uma de nós, atrizes, trouxemos, também, para a cena nossas próprias descobertas e sensações a respeito dessas nuanças e demos nosso toque pessoal, nossa assinatura, fechando a tessitura final levadas pelas mãos do nosso costureiro, diretor”, a atriz elogia.

Enquanto professora e pesquisadora, Gisele Vasconcelos destrincha a construção técnica do revezamento de vozes. “Essa passagem tem relação com a própria ação. Ação de cada personagem, qual objetivo de cada personagem, tarefa de cada personagem, energia, ação física, circunstância. Nós usávamos muito esse trabalho de ações físicas, tecendo as ações físicas das atrizes-narradoras, então eu vou fazer isso pra quê, e isso foi tecendo cada personagem nesse trabalho e o que faz essa mudança muito maior de um narrador para um personagem tem a ver com os elementos, fatores como energia, então cada um é diferente do outro. Tem a ver com espaço, tem a ver com tempo. Então o tempo de cada um. E pra tecer as personagens é importante destacar também as nossas observações, de conversar também com rendeiras e essa conversa, essa observação trouxe muito esse referencial dessa figura feminina que é a rendeira. Já em relação às atrizes, a gente trouxe um pouco de nós mesmas praquele espetáculo. Um pouco da Gisele que tá na Isadora, é um pouco da Rosa que tá nesse momento na Isabel, antes na hora de tecer o texto, era um pouco da Érica, que fez parte com a gente do primeiro processo e na hora da encenação foi um pouco da Rosa e a Renata que é um pouco da Beatriz, ou Beatriz que é um pouco da Renata”, explica Gisele lembrando que durante o processo de pesquisa foram ouvidas rendeiras de bilro da Raposa-MA e Floripa-SC. 

O artifício do meta-teatro empregado na dramaturgia de Igor Nascimento, que funciona como elemento de coesão dos planos mítico, real e ficcional do espetáculo conforme lembra Gisele Vasconcelos, vai além para Renata enquanto representação do real. “O meta-teatro pra nós representa mais ou menos também o que eu falei em relação ao feminino, né? É a gente levar pra cena o nosso material de vida. Isso é uma filosofia, não sei se eu posso usar essa palavra com a licença do termo, é uma filosofia do grupo Xama. A gente só trabalha a partir do que a gente faz. Se eu for fazer um mestrado, se eu for fazer um doutorado, se eu for estudar algo, eu vou estudar algo que eu realmente estou fazendo. A gente é muito abstrato na hora de tocar o sonho, na hora de contar histórias, mas na hora de trabalhar nós somos muito práticos, o nosso material é a nossa vida, é o que a gente faz cotidianamente. É isso que a gente tem segurança pra falar e é isso que a gente tem segurança pra fazer e essa é a matéria-prima com a qual nós criamos até agora. Não sei, a gente não sabe se vai ser pra sempre assim o Xama, mas hoje a gente pode dizer que essa é uma identidade do grupo, a gente só faz e só trabalha com o material da nossa vida. Então o meta-teatro é a forma que a gente encontra de colocar essa biografia em cena. É o teatro falando do teatro, é a gente falando da gente. Então pra nós é um recurso fundamental, um recurso épico, um recurso com o qual a gente pode falar do nosso próprio trabalho dentro do nosso trabalho e com isso a gente traz pra discussão e torna esse material relevante e possível de empatia pras pessoas que tão assistindo.”, declara Renata Figueiredo, cuja fala pode ser exemplificada com a tese de doutorado “Ator-contador: a voz que canta, fala e conta nos espetáculos do Grupo Xama Teatro” (2016) apresentada por Gisele Vasconcelos à Escola de Comunicações e Artes – ECA da Universidade de São Paulo – USP  sobre o processo criativo que envolve a voz e o corpo do ator-contador. O estudo integral pode ser acessado aqui.

Hoje plenamente integrada às tramas fiadas nesse processo vivo de construção teatral, Rosa exalta a experiência com As 3 Fiandeiras enquanto desafio que mantém o fazer teatral pulsante. “O teatro dentro do teatro traz à baila a velha e atual discussão sobre as vicissitudes e os prazeres desse ofício que nos escolheu. Por que FAZER, por que NÃO fazer? Como NÃO fazer? COMO fazer? Essas questões são discutidas, com sutileza e humor, ao longo do espetáculo, trazendo para nós próprios, artistas fiandeiros dessa trama, algumas respostas e, cada vez mais, perguntas. É o que nos move.”, conclui Rosa Ewerton.

Na quarta-feira (03/05), a segunda parte da série “Por dentro das tramas de As 3 Fiandeiras” trará o trabalho do dramaturgo maranhense Igor Nascimento com o espetáculo. Das marcas autorais que caracterizam sua direção e dramaturgia ao estudo acadêmico que as relações entre tecer e narrar abordadas no espetáculo motivaram.