[CRÍTICA]

O ESPETÁCULO: ÍNTIMO, LÍRICO, ENCANTADOR

Texto: Talita Guimarães

Imagens: Arquivos dos grupos Xama Teatro e Petite Mort

Ao pôr em cena atrizes contando histórias de mulheres rendeiras que se lançam ao mar em busca de um filho desaparecido, o espetáculo As 3 Fiandeiras navega desde o princípio pela narrativa da criação. Da concepção à arte, dá voz a toda sorte do que significa ser e estar mulher no mundo.

Em seu desenrolar, propõe e executa um diálogo entre as mulheres que vivem e as que encenam, fundindo no trio protagonista representações de afetos, lutas e paixões. E fazendo emergir das mulheres que representam toda narrativa de combatividade, tradição e conflito que nelas há em comum com as representadas.

A apresentação no espaço limitado do Casarão Ângelus Novus* é bastante feliz do ponto de vista da proximidade estabelecida com o público (à exceção dos assentos posicionados entre os cenários, que tapam a visão de alguns ângulos das cenas, o que já não se repete na temporada de maio de 2017 no Convento das Mercês, com uma melhor distribuição do público). Quando o mapa da plateia ao redor do corredor onde o espetáculo é encenado funciona, dá muito certo porque nos coloca muito perto da elaboração teatral que faz parte do próprio roteiro (atrizes em processo criativo, concebendo e encenando seu espetáculo).

O texto final de Igor Nascimento, que bebe inegavelmente na mesma fonte da prosa poética do moçambicano Mia Couto, é lírico e comovente sem afetações. Tem delicadeza no trato com as palavras e é certeiro como a poesia das tradições culturais de um povo que constrói seu saber na lida diária, em comunhão com a natureza e curiosidade pelos seus mistérios.

Curiosamente, é quando as atrizes do Grupo Xama Teatro/Cia Estrela Cadente encenam as histórias das mulheres rendeiras que o portal da fabulação aberto mais parece real e possível, feito de matéria palpável. Quando o espetáculo dentro do espetáculo finda e assistimos as três narradoras de volta a coxia (construída pela iluminação eficiente de Camila Grimaldi, que cria os ambientes necessários com as cores apropriadas para cada atmosfera), os gestos desarmados e as expressões exauridas revelam a desincorporação de quem eram até poucos instantes atrás.

O figurino e a música são elementos indissociáveis de importantes funções na contação da história maior, que abarca rendeiras e atrizes da fictícia companhia. Enquanto o figurino deslumbrante em cores sóbrias e rendas delicadas se desdobra em camadas que se transformam nas vestes cotidianas das rendeiras, no figurino da Cia Estrela Cadente, na pele de corais de personagens fantásticos como Pioco e no couro do touro João De Una, até as várias camadas translúcidas das saias que são erguidas e balançadas como velas do barquinho que leva as rendeiras Das Dores, Chica e Zezé mar adentro em busca de Ribamar, filho desaparecido de Chica. Vale muito reparar nas cores de cada camada na cena em que as rendeiras observam o avanço da maré em direção às suas casas à beira-mar: a última camada das saias é azul-mar e a penúltima cor de areia/terra. Enquanto o mar avança sob a areia, as atrizes sobem as camadas cor de areia das saias deixando a mostra a parte azul em um sutil e muito bem pensado movimento de encenação do que é narrado.

Destaque especial para a trilha sonora original, composta por Gustavo Correia em parceria com o elenco, e os momentos em que as atrizes cantam com uma afinação muito bonita das vozes do trio. É encantadora a conjunção das vozes, luzes e movimentos em cena, em especial na passagem em que rodopiam sob uma fraca luz azul abraçadas aos carreteis de madeira que fazem parte do cenário, econômico e funcional.

Assim, leva-se ao palco todo o processo de contextura que converge na trama sobre a construção de sentido para um novo enredo. A insatisfação com o resultado. As imperfeições do processo. A angústia do bastidor. O entrelaçamento das identidades que compõem as várias camadas de narrativa. O real, o fictício e o mítico. O caos e o transe da criação.

E é nesse trânsito entre dimensões narrativas que a carga de tensões se aguça, levando as protagonistas mar adentro de suas buscas, juntas por solidariedade e sororidade, termo tão em voga em tempos de articulação entre as vozes de tão diferentes condições femininas. Nesse sentido, as tramas paralelas que culminam em reencontrar o filho perdido e conceber um novo espetáculo unem-se no mesmo suspiro final de alívio.

*Talita Guimarães assistiu “As 3 Fiandeiras” três vezes. Primeiro a duas sessões, da temporada de quatro, apresentadas no Casarão Angelus Novus no Centro Histórico de São Luís em novembro de 2016. Depois mais uma vez nesta temporada de maio de 2017, no Convento das Mercês.