O SENHOR DA COSTURA

Dando continuidade à série “Por dentro das tramas de As 3 Fiandeiras, a segunda parte do especial aborda o trabalho do dramaturgo maranhense Igor Nascimento com o espetáculo “As 3 Fiandeiras”, produzido pelos grupos Xama Teatro e Petite Mort, em temporada em São Luís-MA até sexta*. Das marcas autorais que caracterizam sua direção e dramaturgia ao estudo acadêmico que as relações entre tecer e narrar abordadas no espetáculo motivaram.

Texto: Talita Guimarães

Ilustração da capa: Waldeir Brito (Ternária, para capa da dissertação de mestrado de Igor Nascimento)

Fotos: Talissa Guimarães

Faz parte do teatro de Igor Nascimento desnudar a barreira entre realidade e ficção, tornando diáfanos os limites entre vivido e encenado. Marca notável desde a rubrica final de seu Caras-Pretas (2015), em que o ator que interpreta o vilão é orientado à eterna permanência no palco vazio pós-espetáculo como castigo pela vilania de seu personagem, que merece residir nas sombras da ficção.

A ideia de manter a história viva no corpo do ator retorna bem marcada em As 3 Fiandeiras e nem é só pelo fato do espetáculo tratar da elaboração teatral, mas por ser costurado com uma linha invisível que não finda. Enquanto o público aguarda pelo início na escadaria à porta do Casarão Angelus Novus, onde o espetáculo foi apresentado em novembro de 2016 por exemplo, já se ouvem os exercícios vocais do elenco do Xama Teatro. O que virá para nós, já começou. Quando As 3 Fiandeiras começa, é do fim de um espetáculo da fictícia Companhia Estrela Cadente que a história se inicia, transportando o público da plateia para a coxia, onde as atrizes Beatriz (Renata Figueiredo), Isadora (Gisele Vasconcelos) e Isabel (Rosa Ewerton) desincorporam de suas personagens para voltarem a si, mulheres cheias de desejos e frustrações. Já nesse início, o primeiro contato com o público é estabelecido com muita proximidade, pois as atrizes sentam-se muito perto das pessoas, olhando-as nos olhos e instigando o público a ouvi-las com a atenção e o silêncio dos confidentes. O arremate da jornada das atrizes em processo de concepção e encenação de seu novo espetáculo, batizado de A vida por um fio, é um suspiro coletivo da Estrela Cadente, que entendemos, conclui As 3 Fiandeiras. Na sequência Gisele, Renata e Rosa acolhem os aplausos, apresentam a equipe das Fiandeiras, colocam-se a disposição para fotos e abraços em um ritual que não se desvincula do contado ao longo dos últimos setenta minutos. E quando chega o último dia da curta temporada de novembro de 2016, somam-se ao momento os diálogos entre a equipe sobre a necessidade de desmontar o cenário e organizar o local. “Ô mãe, então me ilumina/ me diz, como é que termina?/Termina na hora de recomeçar…”, Joyce mais uma vez dá a dica em seu “Feminina”.

Tal preâmbulo antecipa uma maturidade alcançada graças a anos de experiências entre o texto teatral e a direção, para que com As 3 Fiandeiras, a dramaturgia de Igor Nascimento funcione como um bordado de ponto apertado, tecido com fios de realidade e ficção que resultam em uma peça coesa e bem alinhavada. Literalmente.

ENTRE O TEXTO E A COXIA

Formado em Letras, Igor Nascimento nasce como dramaturgo em 2009 com as peças “Assassinato de Charllenne” e “As Três Estações da Loucura” sendo premiadas e publicadas simultaneamente pelo Concurso Plano Editorial Gonçalves Dias. Em 2010, estreia como diretor montando o monólogo “De Assalto” com o ator Nuno Lilah Lisboa, com quem funda a Petite Mort, companhia que encena nos anos seguintes “Um Dedo por Um Dente” (2012) e “Dona Derrisão” (2013), ambos com textos e direção de sua autoria.

A experiência de acumular as funções de dramaturgo e diretor encaminham Igor para o hábito de alterar o texto em função dos ensaios e da montagem, a partir da chamada zona de contato do processo de criação que coloca o autor a par da elaboração criativa de todas as áreas envolvidas, da atuação à direção musical. “Em ‘Um Dedo Por um Dente’ com um entendimento maior do trabalho de atuação, já começo a escrever pensando em quem iria falar, nas limitações e qualidades de cada intérprete, na reação do público ao longo das apresentações. Porém, ainda não havia um trabalho de direção mais consistente, o que foi surgir apenas em Dona Derrisão” , explica o dramaturgo e diretor da Petite Mort na introdução de sua dissertação de mestrado “Nas coxias do texto: Confecção da Dramaturgia de As Três Fiandeiras”(2016) apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da Universidade Federal do Maranhão.

“Enquanto diretor sempre pensava o que seria interessante colocar no palco, que tipo de jogo de cena teria mais força. Enquanto dramaturgo, tentava organizar esse material recolhido a fim de achar uma costura, criando situações, entrecruzando falas, montando os perfis das personagens.”, distingue ainda, ao analisar o entendimento de cada função alcançado com o trabalho em “Dona Derrisão”, espetáculo que aborda a tensão entre memória e esquecimento diante de uma doença degenerativa.

Assim, entre o texto e a coxia, Igor se entende como um “rato de cena” que não abre mão de estar nos bastidores participando ativamente da montagem dos espetáculos, da escrita aos cenários. “Eu gosto dessa maquinaria do teatro, admite considerando que o mais interessante é poder ficar em uma posição que possibilite medir as reações do público a fim de identificar quais cenas funcionam e quais precisam de ajustes. “Você fica sempre numa operação criativa ali das coxias, que é diferente de estar na plateia como eu já estive algumas vezes”. Poucas aliás, segundo ele, que assistiu da plateia apenas as apresentações de seus textos para “Negro Cosme”, “O Balão Mágico” (onde assistiu somente o ensaio geral), além de alguns experimentos com textos seus e a peça nova que o ator Lauande Aires deve estrear em junho desse ano, cujo texto Igor Nascimento assina.

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ENTRE O TECER E O NARRAR

Graças à repercussão dos espetáculos da Petite Morte, Igor Nascimento é convidado pelo Xama Teatro para escrever e posteriormente dirigir o novo espetáculo do grupo, que já vinha sendo gestado pelas atrizes Gisele Vasconcelos, Renata Figueiredo e Érica Quaglia em torno da amarração de três temas: atrizes contadoras de histórias para adultos nas quais as vivências das próprias atrizes estavam envolvidas; as Rendeiras de Bilro da Raposa-MA e por fim, o ciclo da vida, refletido no mito das três Moiras da mitologia grega: três irmãs de aspecto sombrio, fiandeiras responsáveis pela fabricação, tessitura e corte daquilo que seria o fio da vida de cada ser vivo. 

Em “Nas coxias do texto: Confecção da Dramaturgia de As Três Fiandeiras”(2016), o Igor dramaturgo dialoga com o Igor pesquisador para estruturar o processo de criação da dramaturgia de As 3 Fiandeiras situando a escrita do texto como etapas análogas a uma costura. “A dissertação é sobre o processo de confecção do texto e esse estudo foi dessas múltiplas ações que tem o texto, dos inúmeros fatores que podem influenciar a escrita e como isso se deu ao longo do processo. Basicamente esse processo de confecção, mas confecção mesmo. A dissertação é dividida de acordo com o processo de costura, então o molde, o corte, a confecção dos fios, tudo isso eu tô transformando em uma maneira de falar desse processo de criação conjugado, em colaboração, no qual o texto é sensível a várias mudanças, então é essa contaminação do texto, da cena, dos ensaios e das apresentações que eu tô colocando nesse estudo.”, explica Igor.

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DE MIA COUTO A JOSÉ RIBAMAR REIS

“O drama está no mundo antes de estar em cena.” (Henri Gouhier)

Assim como Gisele Vasconcelos disseca o ofício do ator-contador em sua tese de doutorado, Igor Nascimento sistematiza em sua dissertação as pesquisas, entrevistas e referências obtidas com o processo d’As 3 Fiandeiras. Entre as referências menciona a psicóloga yunguiana Clarissa Pinkola Estés, cuja obra Mulheres que correm com lobos (1994) fornece subsídios para compreensão do arquétipo da mulher selvagem, que valoriza o instinto e aí ligam-se as personagens das Moiras do destino, além das entidades e orixás femininos que evocam maternidade e estabelecem relação com terra e mar, muito forte nas personagens das rendeiras.

No campo da estética, a prosa poética de Mia Couto é uma inegável fonte de inspiração e referência para o texto de Igor.  “Fui atrás de obras literárias que davam tratamento artístico às lendas, ao mar e ao universo feminino. Deparei-me, então, com Mia Couto em A Confissão da Leoa (2012) e Fio das Miçangas (2009). As relações de seus personagens com a terra, com as lendas e com o ofício forneciam imagens impressionantes. Como o autor tratava a relação dos personagens com os deuses, a maneira como os personagens tratavam seus mortos, a profunda relação com a terra e a maneira delicada de escrever me inspiraram bastante.”, relata em “Do fio ao tecido: a pesquisa criativa e a construção da fábula”, capítulo 1 de sua dissertação.

Quando passa às lendas locais, dois livros em especial fornecem material sobre causos e personagens típicos da Raposa-MA, como o monstro marinho Pioco e o touro encantado João de Una, uma entidade local, além das versões locais de histórias com sereias e a história real da moça Marcelina. São eles “Carimã” (2007) do escritor e pesquisador maranhense José Ribamar Sousa dos Reis e “Recordações de um Povo” (2006), que reúne entrevistas feitas por crianças da 5ª série com seus avós e pais sobre as origens da cidade em um interessante resgate  e registro da memória oral. 

O desafio de construir as vozes íntimas de personagens engajadas foi trabalhado com o material fornecido pelo elenco e pelas leituras referenciais. “A entonação feminina foi se construindo aos poucos e mudando mesmo, fazendo com que o texto encaixasse literalmente na boca da atriz e depois voltasse pro dramaturgo em um fluxo que nunca acabou, nunca acaba. Sempre há pequenos ajustes. Essa entonação feminina foi fruto dessa zona de contato do trabalho coletivo que aí que entra a marca das atrizes, o que elas querem falar e o que elas acham que não. A visão feminina que eu tinha pouco a pouco foi sendo mudada por elas mesmas, pelas coisas que foram acontecendo também ao longo do tempo.”, explica o autor.

Quanto ao processo colaborativo adotado na criação do espetáculo, Igor explica como a presença do dramaturgo nos ensaios, processo de montagem e apresentações se deu, considerando a ausência de hierarquias das funções entre os profissionais envolvidos, embora houvesse responsáveis pela palavra final em cada função. “O que me coube como dramaturgo foi pegar as temáticas, desenvolver possibilidades de personagens, de ações, de enredos curtos, de várias versões da peça, de vários tratamentos até chegar a terceira versão e em cima dessa terceira versão vários tratamentos foram feitos de acordo com as soluções que a gente ia trazendo na cena. Às vezes um texto se mostrava muito cansativo, muito exaustivo e na hora uma solução de cena por exemplo, uma marca de direção funcionava melhor e o texto tinha que se dobrar pra isso porque era mais interessante essa marca, era mais interessante que o texto caísse e entrasse a marca. A música por exemplo e a mesma coisa com a atuação, às vezes era mais interessante o que uma atriz falava, que arranjo ela dava pro personagem do que um arranjo que eu tinha criado antes, então pouco a pouco esse molde, esse texto foi se encaixando às outras coisas. E a direção é como uma equalização de todos, do que cada um tá criando no momento, essa questão de arranjo da cena, marcação, disposição do espaço. Juntar uma ação que você colheu lá com outra aqui, juntar luz. A direção tem uma escrita diferente de elementos no qual você vai achar como é que eles combinam e isso também é contaminado pelas outras áreas, com a dramaturgia e com a atuação. Então dessa parte da dramaturgia e direção que eu assino o que acontece é que uma vinha a socorro da outra, tinha uma hora que a dramaturgia tava muito forte, precisava de uma cena. Tinha hora que a dramaturgia estava muito fraca, precisava ser cortada, precisava de outro tipo de solução, de um arranjo, de um tipo de treino pra descobrir que coisa tem ali. O trabalho de criação das atrizes é que moldava esses dois pontos, o texto e a direção.”, discorre Igor Nascimento.

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Na terceira e última parte da série “Por dentro das tramas de As 3 Fiandeiras”, a ser publicada na quinta-feira (04/05), Talita Guimarães comenta a experiência de assistir ao espetáculo.

SERVIÇO*

Em 2017, As 3 Fiandeiras retorna aos palcos em curta temporada entre 02 e 04 de maio, sempre às 20h no Convento das Mercês (Desterro) com ingressos a R$ 20 e R$ 10 (meia). Na sexta-feira (05) a peça abre o Sesc Amazônia das Artes com apresentação gratuita no Salão Paroquial da Igreja Matriz da Raposa, às 18h30. Em seguida, o espetáculo circulará através do programa de intercâmbio cultural Sesc Amazônia das Artes pelos estados do Pará, Tocantins e Acre.