Muito melhor do que parece

POR TALITA GUIMARÃES

O Terno sempre chega com a música certa na hora exata para mim. Há qualquer coisa em nossos ciclos vitais que nos liga quanto ao alcance de sentidos mais largos juntos. É como crescer com os músicos que a gente gosta e isso é lindo.
 
Da esquerda para direita, O Terno é Gabriel Basile (bateria), Guilherme D’Almeida (baixo) e Tim Bernardes (voz e guitarra)
(Fotos: Divulgação)
Quando precisei sorrir, descobri o deliciosamente inteligente 66 (2012), álbum de estreia que já abre com música homônima brincando com o interesse do trio paulistano pela sonoridade da década de 1960 em versos que ironizam a fronteira entre o plágio e a influência, alfinetando com fina ironia o mercado de hits. Certa vez, minha prima Lili estendeu um fone de ouvido para mim no banco traseiro do carro para que eu ouvisse uma “música muito legal”. Não precisei de mais que alguns segundos para reconhecer “66” (clipe abaixo) e surpreender minha prima cantando a plenos pulmões deliciosos versos como “Eu misturo como eu quero com mais tudo o que eu quiser”, desde então meu lema para a vida.
 
Na sequência, muito rock com narrativas irreverentes e ousadas, que falam de desapego e morte, mas também de compromisso, identidade e amor. Impossível não cantarolar “Modão de Pinheiros” ao caminhar pelo bairro paulistano, cujos nomes das ruas estão todos no trajeto amoroso cantado por Tim. A letra, de Maurício Pereira do Mulheres Negras e pai do vocalista d’O Terno, narra os encontros e desencontros amorosos vividos pelo eu lírico após esbarrar com “uma linda moça que descia a Rebouças”.
Em O Terno (2014), o power trio formado por Tim Bernardes (voz e guitarra), Victor Chaves (bateria) e Guilherme D’Almeida (baixo) nos sai com um disco mais sóbrio e angustiado, que elabora em versos fortes a busca por paz em meio a temporais existenciais, contrariedades e a preocupação com o futuro. Fala de saudade, ilusão, medo e até aposentadoria. Bem resolvido com seu som, permitem-se inclusive à auto-ironia ao rechaçar o rótulo de vanguardistas que sabem, logo lhes atribuirão. Com doçura e maturidade, o segundo disco me alcança em um momento de busca pelos versos que Tim nos sopra com firmeza.
 
 
E então chegamos ao dia de hoje, 26 de agosto de 2016, quando O Terno libera nas plataformas de streaming seu terceiro disco intitulado Melhor do que parece, já em nova formação após a saída do baterista Victor Chaves e a entrada de Gabriel Basile em seu lugar.
 
O que nos aguarda no novo trabalho já havia sido minimamente antecipado pelas músicas “Culpa” e “Melhor do que parece”, primeira e última faixas respectivamente, ambas de autoria de Tim Bernardes. A primeira um pop leve e inteligente sobre o complexo de culpa que pode vez por outra nos tomar sem motivo real (“Parece que eu fico o tempo todo culpado com culpa eu não sei do quê”). Já a segunda, filosófica e profunda reflete sobre a percepção que temos da realidade quando algo interno encontra-se fora do eixo (“Vou procurar em todo canto até/ Achar onde eu perdi/ Minha vontade, o meu prazer de conseguir/ E a paciência que eu preciso para curtir (…) Tudo está melhor do que parece/ Eu olho e vejo tudo errado/ Faz tempo que está tudo certo”).
 
 
O recheio, conhecido pelo público hoje, adiciona nova camada de maturidade à deliciosa conjunção de poesia, inteligência e bom humor da banda. O rock está lá, assim como a verve experimental, que cresce exponencialmente com a incorporação de instrumentos de cordas, sopros e harpa somada ao desempenho vocal de um Tim em sua melhor forma.
 
O resultado é um álbum acalentador, que supera a temática da incerteza do segundo disco com uma perspectiva humana de crescimento e compreensão. O amor, que antes pedia “Bote ao contrário” (“Pare, não vê que está me torturando/ Pare, não faça mal a quem sempre lhe fez bem”) encontra conforto em “Não espero mais” (Eu tenho um tipo de certeza com você que me faz bem/ Eu sei que estou apaixonado/ E que você me quer também/ Não posso crer/ Mas acho que é a minha vez de ser feliz/ Com você eu não espero mais/ Eu te olho e só posso pensar/ Que valeu a pena esperar/ Sou feliz como não fui jamais”). 
 
Capa de Melhor do que parece (2016)
(Arte e diagramação: Talita Hoffmann)
Há paz no entendimento de que a vida é caminho a ser percorrido em “Quando a dor passar”, que canta a clareza que surge das experiências vividas por inteiro. “E depois que a dor passar/ poder abrir o olho e ver tudo igual/ E tudo aquilo que você pensou ter acabado está a salvo/ As coisas não estão tão mal assim/ (…) Essa paz de ver que tudo passa é bom pra gente aguentar firme se acontece uma próxima vez/ (…) Porque pra quem foi ferido é fácil de uma cicatriz se abrir/ Mas há por vir muita beleza ainda”).
 
Destaques especiais para a delicada “Nó” (“Quando a vida dá um nó/Não adianta sentir dó de si mesmo”), a romântica “Volta” (“Vem, volta que eu estou te esperando desde que eu nasci/ Minha vida pro momento que eu te conheci/ E o amor que eu guardava/ Eu guardei pra você”) e a libertadora “Deixa fugir” (“Vai ser feliz/ Ela sem dúvida nenhuma está sendo/ (…) O que passou ficou marcado e ninguém vai apagar/ Um dia ela foi feliz do seu lado/ Hoje ela precisa de mais/ Mais que você (…) Ela mudou e alguma coisa importante sumiu/ Hoje ela olha o mundo pela janela do jeito que um dia te viu/ (…) Você tentou trazer de volta/ Ela escapou outra vez/ Não tem porque mais evitar a verdade/ Deixa fugir nada mais”).
 
Inspirado, “Melhor do que parece” (2016) já nasce sob o signo da superação de expectativa. Sensível às dores de viver, produz cuidado bem ao seu jeito: terno.