Experimentando a mente com Telúricos 
 
POR TALITA GUIMARÃES
 
Capa do disco Experimente a mente (2015)
Arte: Joubert Ribeiro
Certa vez, de passagem pela Beira Mar no Centro de São Luís-MA, vi um volante de ônibus fincado no solo do Rio Anil em plena maré vazante. A imagem, fortemente simbólica, imediatamente resgatou em minha memória os seguintes versos da música “Almanaque” de Chico Buarque: “Quem tava no volante do planeta que meu continente capotou?”. Ao ouvir Experimente a mente (2015) da banda maranhense Telúricos, me dei conta de que é uma geração com os pés fincados na experiência em Terra, através de um sentir profundo da vida, que vai tomar o volante do planeta e dar um rumo para o que há de melhor a ser sentido e criado.
 
É nesse contexto de inquietação e inspiração que os Telúricos surgem no seio do Sebo no Chão, um dos movimentos mais interessantes e efervescentes do cenário artístico atual de São Luís-MA, no bairro do Cohatrac.  Influenciados pelos desdobramentos do Tropicalismo nas artes – música, cinema, literatura e artes visuais – a banda originalmente formada por Giovanne Chaves (Voz, Guitarra e Sintetizador), Allan Oliveira (Voz, Guitarra e Sintetizador), Hugo Rodriguez (Baixo), Vinicius Medeiros (Bateria) e Petrus Hermann (sintetizador) em novembro de 2014 propõe com repertório autoral um diálogo entre o rock psicodélico setentista e o atual; buscando em grupos como os Novos Baianos, por exemplo, uma referência não só musical e estética, mas também de modo de vida. 
 
Telúricos em formação original:
Giovanne Chaves, Allan Oliveira, Hugo Rodriguez, Vinicius Medeiros e Petrus Hermann
Foto: 
Joubert Ribeiro
Já de início, a primeira faixa do disco de estreia da Telúricos dá o serviço: “Abre o sinal” (Allan Oliveira/Giovanne Chaves/Tairo Lisboa) é um manifesto contemporâneo em resposta ao poeta que certa vez afirmou que o sinal estava fechado para a juventude. A julgar por todo o rebuliço protagonizado pelos jovens que não param de romper barreiras e desconstruir limites a cada geração, o sinal não só tá aberto, como já não é o que delimita até onde a juventude é capaz de ir, se quiser e precisar.
 
O interesse pela Semana de Arte Moderna, importante marco de exaltação à inovação artística em 1922 no Brasil, é referência explícita na menção a Oswald de Andrade e no declarado convite a experimentar a vida pulsante através dos sentidos humanos no baião “Antropo-fagizan-do” (Giovanne Chaves).
 
“Bossa safada ou rock acanhado” (Felipe Sampaio/Giovanne Chaves) brinca com o que há de rock na bossa e vice-versa, literalmente compondo uma experiência sonora antropofágica. A faixa conta com o inconfundível trompete ensolarado de Bigorna, jovem músico talentoso do cenário ludovicense.
 
Em “Vila opaca” (Giovanne Chaves/Allan Oliveira), o disco alegre agrava o tom para uma poesia pungente que fala do drama social da Vila Apaco, localidade arrasada por uma enxurrada que ficou a esperar intervenção do governo em termos de regularização das moradias de inúmeras famílias prejudicadas por uma adutora rompida. 
 
O caso da Vila Apaco lembrado sensivelmente pelos músicos tem ligação direta com o Movimento Solrealista, cujo manifesto maior é o longa-metragem Luíses-Solrealismo Maranhense (2013), produzido pelos jovens cineastas do Éguas Coletivo Audiovisual, que também fazem no filme o registro da situação do lugar. Não por acaso, o Éguas bebe na mesma fonte surreal e tropical que os Telúricos. Ambos compartilham o olhar sensível e atento para a realidade ao redor, expressando o que pensam a respeito através de um contundente fazer artístico.
 
Na sequência, “A pedra de Barros” (Giovanne Chaves) atenua o tom pesado da crítica social na faixa anterior com um rock leve e poético, que remete a Raul Seixas e ao poeta Manoel de Barros com sua relação prenhe de neologismos e subversões com as palavras e seus sentidos.
 
“Tevê” (Giovanne Chaves/Felipe Sampaio/Hugo Rodríguez) é uma pérola de Experimente a mente com versos inspirados como “Lá em casa tem uma menina/ que fala pelos cotovelos/ quando o braço dela se aproxima/ é de se arrepiar os cabelos”, que não só faz uma crítica midiática pertinente convidando ao desprendimento das tecnologias quanto joga perspicazmente com a apreensão sensorial do conteúdo e do objeto, como o eriçar dos pelos que pode tanto ser fruto das notícias aterradoras quanto do contato da pele com a tela de um televisor ligado.
 
Quase fechando o disco, tem-se ainda o lamento “Contato amargo” (Allan Oliveira), talvez a faixa mais intimista do disco e “Marcha não súbita ao fim” (Giovanne Chaves/Vinicius Medeiros) canção onírica que reflete sobre o sentido de pertencimento ideológico e a ausência de representatividade política sentida pelas gerações mais jovens. As ações humanas e suas relações com o tempo e o espaço também fazem parte da leitura suscitada pela letra.
 
Para um disco de estreia, Experimente a mente (2015) da banda Telúricos entrega um consistente manifesto solrealista que convida a abrir os poros, sair para a rua e se alimentar de toda luz, calor e energias vitais que movem nossa mente, nem sempre aproveitada em sua capacidade devida.  
 
O convite foi feito e o sinal está aberto. Que Telúricos sentem a frente do volante do planeta e nos conduzam por caminhos de som e luz!
 
“Então vamos correr por aí
Vamos viver
A vida é um leito, um tobogã
Desliza e cai toda manhã
Então vamos correr
Vamos viver
O que virá depois? O que virá?
E o que fará você do que virá
Se nada for?”
“Marcha não súbita ao fim”
 (Giovanne Chaves/Vinicius Medeiros)
 
AGENDA
São Luís-MA – 10.04.2016, Pôr do Sol.
Sim, a boa notícia é que a banda vai tocar no lançamento do meu livro Recorte! no Sebo no Chão (Praça da Igreja Nossa Senhora de Nazaré, Cohatrac)! Oportunidade daora de curtir a Telúricos ao vivo, sacar o Sebo e me dar um abraço. 😉
 
Para curtir, ouvir, ver e contatar
Telúricos
Fanpage: Os Telúricos
Soundcloud:  Telúricos
Youtube: Os Telúricos
E-mail: osteluricos@gmail.com