POR TALITA GUIMARÃES

Recifense radicado em Garanhuns-PE, Matheus Rocha é um nome jovem que desponta na literatura nordestina com voz madura e referências sólidas, quando o assunto é o próprio projeto literário. O autor do livro de contos A Inteligência das Coisas Cegas (U-Carboreto, 2015), que em 2017 lança A Vida Útil do Fim do Mundo (2016) – cuja campanha de financiamento coletivo está iniciando hoje – reverencia gigantes como Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu. E vai além, transborda suas experiências de leitura do mundo em narrativas que se debruçam sobre a perspectiva humana da solidão e do afeto. 

Na entrevista a seguir, o autor de 22 anos comenta longamente sua trajetória literária, pontuando seus interesses, leituras e experiências. 

[LM ENTREVISTA] MATHEUS ROCHA (PE)

1) A Vida Útil do Fim do Mundo (2016) é seu segundo livro de contos, no qual mais uma vez a condição humana ancorada em uma angustiada busca de si, cirurgicamente já retratada em A Inteligência das Coisas Cegas (2015), é a matéria-prima da sua escrita. Por que a narrativa da angústia humana te interessa?

Matheus Rocha (Foto: Divulgação)

Matheus Rocha (Foto: Divulgação)

Eu me considero muito romântico. Como todo bom taurino – ascendente em câncer, e só piora -, sou um poço de sensibilidade (e chatice, às vezes). A Clarice dizia muito que “as grandes sensibilidades não passam impunes”, e lembro que li uma entrevista do Caio citando isso. Consigo elaborar mais e falar mais quando escrevo, porque me transformo naquilo que tô escrevendo no momento. Essa solidão toda do nosso século me atrai e me repele, ao mesmo tempo. A Hilda Hilst dizia que “a literatura vem desse conflito entre a ordem que você quer e a desordem que você tem”. E acho que passa muito por aí o meu interesse nessas narrativas.

2) Uma marca potente da experiência de leitura de A Inteligência das Coisas Cegas (2015) é a sensação temporal de presente nos contos, como se o leitor estivesse acompanhando ao vivo a narrativa dos fatos. Além é claro do intimismo, que não raro nos leva para o fluxo de consciência dos personagens. O que podemos esperar da experiência espaço-temporal dos 14 contos de A Vida Útil do Fim do Mundo (2016)?

Sempre leio meus textos em voz alta. Acabo trabalhando-os como se fosse uma música. Não por questões de rimas internas ou algo do tipo. Mas por querer fazê-los acontecer. Explodirem na própria experiência da leitura. A música só se mostra enquanto é ouvida. Nem antes, nem depois. Nem entregar e nem esconder. Mas durante, no caminho. Me interessa menos o fato e mais os seus ecos. Daí essa narrativa introspectiva, fechada, sisuda, pra dentro. A vida útil do fim do mundo continua com esse tom fantasma do presente. Continuo com essa falsa sequência temporal. E o intimismo vai rasgando as fotos, as cartas, as conversas.

3) Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu são referências declaradas suas. Além dos mestres Clarice e Caio F. quais autores marcam a tua trajetória como leitor (voraz, a julgar pelos comentários constantes sobre livros lidos nas redes sociais)?

Vou citar mais três, e que têm ligações diretas com os dois. Lúcio Cardoso, a grande paixão impossível da vida da Clarice. Crônica da casa assassinada foi o livro que mais marcou minha vida, até hoje – junto com Os dragões não conhecem o paraíso e Poesias nunca publicadas, do Caio, e Perto do coração selvagem, da Clarice. Ele tem uma pungência quase absoluta, uma dor feroz em cada narrativa. A prosa e a poesia, nas mãos do Lúcio, chegam à tensões quase inimagináveis. É algo que tento ecoar nos meus escritos. Outra pessoa que me influencia diretamente é a Ana Cristina César (ou Ana C., como ela assinava), amiga pessoal do Caio. A poesia fraturada, o verso cortado ao meio, esse silêncio assustado que ela escrevia sempre chegou em mim como um soco no estômago e outro no rosto, com direito à filete de sangue escorrendo da gengiva. E a Hilda Hilst, outra amiga do Caio. Na verdade, a Hilda é um grande enigma. Seja em prosa ou poesia, a estranheza da literatura dela te coloca em face desse desassossego que é se pegar existindo. Todos eles são decisivos e precisos dentro do meu projeto literário.

4) Conte-nos um pouco sobre sua trajetória literária: como foi a transição da vida de leitor para o exercício da escrita e o que as experiências de ler e escrever fazem com você?

Eu sempre disse que sou um leitor tardio. Comecei a ler, efetivamente, com 15 anos. Encontrei em casa, por acaso, o romance fantástico A cidade das feras, da peruana Isabel Allende. Devorei o livro, claro. Coincidiu com o fato de ter ganho uma caixa de livros do Paulo Coelho – um presente de um primo. Li tudo em pouco tempo, e foi a experiência com os livros do Paulo que me tornou um leitor. Comecei a habitar – literalmente – a biblioteca da escola. Fui explorando tudo que tinha pra ler, a começar da prosa e poesia romântica nacional – aquele surto repentino, a tentativa de ler toda a vanguarda literária. Álvares de Azevedo foi o primeiro poeta que li, e me encantei. Comecei a escrever sonetos por conta dele. Seguindo o fluxo, encontrei Goethe e seu Werther. Paixão à primeira vista, e comecei a escrever prosa. Tentava me aproximar o mais que podia deles e não mostrava nada do que escrevia à ninguém. Comecei a frequentar os circuitos literários do Sesc Garanhuns, que foi meu verdadeiro lugar de formação literária. O contato direto com escritores, monstros sagrados da literatura brasileira, me impulsionou à sair da prosa e poesia romântica vanguardista e experimentar outras leituras e escritas. Um dia, na biblioteca da escola, um exemplar dos Morangos Mofados, do Caio, caiu na minha cabeça. Interpretei como um sinal e levei pra casa. Pronto: achei. Era isso que eu queria escrever. Assim. Sentia a pulsação romântica e desesperada, mas dentro de uma narrativa excepcionalmente moderna. Depois do Caio, comecei a ler tudo que gravitava em torno dele e saí descobrindo outras referências. Clarice, Ana Cristina, Lúcio, Hilda. Fui lendo e juntando tudo que eu gostava, e aí fui trabalhando minha escrita em cima da deles. Me senti um pouco mais à vontade pra compartilhar algumas coisas e comecei a publicar em redes sociais. Participei de algumas antologias, publiquei em alguns jornais literários. Até sair o livro.

Leitura e escrita são modos de vida. Não são atividades, no sentido estrito do termo. E quem vive desse modo, vai encontrar referência em tudo. Sempre vai ecoar a leitura ou a escrita. Ou os dois. Não falo de uma romantização, claro. Mas de um outro modo possível de viver, que não seja tão mecânico assim. Um modo mais doloroso, sem filtro, mesmo.

5) Tua experiência editorial já nasce fundamentada na era do financiamento coletivo de produtos culturais. Teu primeiro livro contou com arrecadação para ser publicado e saiu pelo selo independente U-Carbureto em 2015. Em 2017, você recorre novamente a esse método para lançar o segundo livro. Por que você acredita no sistema de crowdfunding e no que ele se sobressai como opção à convencional busca por contrato com uma editora?

O crowdfunding é uma ferramenta basicamente democrática – isso que tá tão esvaziado de sentido no nosso país. Todo mundo participa, e eu faço questão disso. É uma forma de juntar gente. Quem acredita no teu trabalho, quem gosta, tá ali te dando esse suporte. Desde o início. Esse contato com quem realmente faz acontecer é imprescindível e importantíssimo pra mim. Serve de termômetro, também. Claro que, ao longo do tempo, você acaba tendo um certo espectro de leitores. E são eles quem acolhem e dão destino ao que escrevo. São eles que tornam possível tudo isso. Sempre fiz muita questão de responder cada um, de tomar um café ou uma cerveja com quem quisesse falar sobre o livro. Sempre quero saber como foi, as impressões, qual conto gosta. Tudo isso faz parte. E com o modo convencional, por editoras e tal, isso pouco ou quase nunca acontece. Não adianta de nada ter uma visibilidade numa editora que distribui teu livro pra todo país se você não sabe nem quem são seus leitores e onde estão. Sem contar essa frieza, sobra a espera, a demora da resposta.

6) Aproveitando o momento de lançamento do financiamento coletivo para publicação de A Vida Útil do Fim do Mundo (2016), fique a vontade para convidar nossos leitores a conhecerem o livro e abraçarem a campanha.

Entre os dias 31/01 e 31/03, vai tá aberto o financiamento do meu segundo livro de contos. 14 histórias intimistas, possíveis. Fortes influência da prosa e da poesia da geração do mimeógrafo. E do intimismo clariceano, da prosa do Caio Fernando. Vale o investimento, vale a leitura e vale o abraço!

SERVIÇO:

O que? Campanha de financiamento coletivo do livro A Vida Útil do Fim do Mundo (2016) do escritor pernambucano Matheus Rocha.

Quando? 31/01 à 31/03/2017.

Como participar? Doando o valor que desejar através do site Vakinha