A quarta e última publicação da série Literatura Mútua Indica vozes femininas na literatura mundial, de autoras premiadas com importantes honrarias literárias como o Prêmio Saramago e o Príncipe de Astúrias às autoras que mergulham na vida para alimentar sua arte dessa imersão ou relatam os conflitos e tensões de ser mulher no Oriente Médio. 

Elas estão no mundo lançando luz sobre representatividade e reivindicando autonomia em lugares e momentos históricos que se tornaram pontos de virada para a expressão de vozes femininas. Da ficção à não-ficção em histórias em quadrinhos, as autoras indicadas a seguir transbordam em suas obras literárias experiências pessoais, criatividade, poesia e engenhosidade. 

A quadrinista iraniana Marjane Satrapi, a poeta curitibana Alice Ruiz, a cineasta estadunidense Miranda July, a escritora carioca Nélida Piñon e romancista paulistana Andréa Del Fuego são as escritoras que o LM indica a seguir.

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Conhecida principalmente pela HQ autobiográfica Persépolis (2004) que também conta com um longa de animação, a quadrinista iraniana Marjane Satrapi retorna ao retrato da condição feminina no Irã em Bordados (2010), livro ambientado em uma reunião de mulheres da família Satrapi em torno do samovar, tradicional bule de chá iraniano, para compartilhar experiências íntimas que revelam como vivem as mulheres no oriente médio, fortemente monitoradas por padrões religiosos e culturais próprios de um regime opressor.

O traço marcante das expressões e características orientais somado ao humor ácido de Marjane ilustram um livro forte sobre situações grotescas vividas por mulheres diante de casamentos arranjados e precoces, sendo obrigadas a descobrir de forma obscura do que se trata amor e sexo nas relações humanas e familiares de uma sociedade patriarcal muito rígida, que ainda relaciona a honra de uma mulher à virgindade, por exemplo. O nome do livro, nesse sentido, faz referência tanto ao hábito de conversar longamente quanto ao procedimento médico de reconstituição do hímen, praticado por mulheres iranianas que precisam apagar as experiências do próprio corpo em nome de um moralismo imperativo.   

O mais interessante da literatura de Marjane Satrapi é a universalidade de seus temas, ainda que muitos deles estejam envoltos em costumes culturais típicos do Irã, não é difícil se identificar com suas personagens e comportamentos sedentos por mais espaços de liberdade e independência.    

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Nome forte da poesia brasileira, a curitibana Alice Ruiz é uma força da natureza, tanto por sua versatilidade artística quanto por seu posicionamento insubordinável. Poeta, letrista, tradutora, publicitária, com vasta obra na literatura e na música, Alice é uma autora de grande sensibilidade, que sintetiza em palavras potentes sentimentos e sensações preciosas. 

Em Desorientais (2011), Alice Ruiz apresenta haikais que valorizam as coisas mínimas, os detalhes sutis e as sensações instantâneas diante de acontecimentos cotidianos que aos olhos destreinados passam despercebidos, mas não para a poeta que apreende tudo a sua volta, do voo do vagalume à mosquinha pousada a sua frente, do sabor da espera ao gosto da estação do ano. 

E sabe falar de delicadezas e agruras com igual primor, em um exímio diálogo entre rigor e sentimento. Até diante do inexprimível, Alice Ruiz extrai poesia, como no haikai a seguir:

tanta poesia no gesto

nenhum poema

o diria

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A cineasta estadunidense Miranda July driblava o bloqueio criativo que a impedia de escrever o roteiro do que viria a ser o filme “O Futuro” lendo o jornal de classificados PennySaver, que oferta toda sorte de itens inusitados, de jaquetas à girinos. 

Interessada nas histórias por trás das ofertas, Miranda July começou a ligar para os anunciantes para conhecer quem eram e como viviam aquelas pessoas, além é claro de descobrir porque queriam se desfazer daqueles itens. O resultado é uma série de entrevistas interessantíssimas sobre pessoas comuns com seus modos de vida particulares cheias de sonhos, rotinas, desejos, frustrações e histórias para contar. Nesse processo, conhecemos também mais sobre a própria Miranda que compartilha detalhes de sua vida e de seus hábitos com gentil partilha, como quem fala de si para um amigo novo. 

Delicado, confessional e incomum, O escolhido foi você (2013) se configura claramente como parte do processo de imersão na vida necessário para alimentar uma artista, tanto que é o que traz Miranda de volta ao seu roteiro com o ganho de um personagem da vida real que interpreta a si mesmo e que ela conheceu entre os anunciantes do PennySaver. 

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Uma das autoras mais cultas da contemporaneidade, a carioca Nélida Piñon é autora de textos sofisticados com referências intelectuais cuja leitura enriquece fortemente por suas reflexões e citações a clássicos da arte mundial. 

Em O Livro das Horas (2012), Piñon, primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras e primeira brasileira a receber pelo conjunto da obra o importante prêmio espanhol Príncipe de Astúrias, recolhe memórias sobre o tempo, os amigos, as leituras, as viagens, os sentimentos e suas respectivas reflexões em um apanhado afetivo da própria trajetória.

Densa e erudita em suas reflexões sobre a vida, Nélida Piñon compartilha memórias inestimáveis como as de sua amizade com a escritora Clarice Lispector, narrando com igual elegância a inusitada ida a uma cartomante e a leitura de Sófocles. Afinal, deve ser como a própria autora confessa: “é da escriba aproveitar o que a vida despeja em sua porta”.

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A paulistana Andréa Del Fuego venceu o prestigioso Prêmio Saramago com seu primeiro romance, Os Malaquias (2010). Com uma narrativa engenhosa e criativa, seu livro seguinte, As Miniaturas (2013) pensa como se dá a confecção surreal dos sonhos que as pessoas tem quando dormem criando todo um onírico universo paralelo, onde funcionários de um Edifício chamado Midoro Filho recebem pessoas adormecidas em salinhas burocráticas e conduzem através da exposição sucessiva de objetos de plástico em miniaturas às histórias que as pessoas irão sonhar.

É assim que a leitura flui por capítulos alternados sobre cada personagem envolvido no processo: mãe, filho e oneiro (o funcionário condutor das sessões de sonhos). O ponto de virada acontece quando uma regra é quebrada: o mesmo oneiro atende a pessoas da mesma família, no caso uma mãe e seu filho, envolvendo-se na história desses personagens, o que acarreta sérias implicações no desenvolvimento de suas atividades oníricas. 

Com um texto fortemente poético e em alguns momentos até cômico, Andréa Del Fuego passeia com originalidade pelo interessante mundo das narrativas oníricas com uma história emocionante, empática e comovente, que convida o leitor a imaginar como seria se houvesse uma fábrica de sonhos induzidos e como amor e a realidade dialogam com o imaginário humano, mesmo quando entorpecido.