Inaugurando o Literatura Mútua Indica comento a experiência de leitura de cinco livros da gaúcha de Ijuí Eliane Brum, uma das repórteres brasileiras mais premiadas e importantes do jornalismo contemporâneo, com trabalhos também na literatura e no audiovisual.

POR TALITA GUIMARÃES

“Fui salva pela palavra escrita quando comecei a ler – e (talvez) em definitivo quando escrevi. E – importante – quando fui lida. (Eliane Brum)

Eliane Brum (Foto: Lilo Clareto)

Eliane Brum
(Foto: Lilo Clareto)

Ela revira as entranhas do mundo. De onde faz brotar tudo o que há de mais belo e terrível. Estreita os olhos miúdos e atravessa superfícies. Rompe todas as camadas. Faz sangrar. E segue adentrando profundamente. Vai apalpando a massa de coisas que surge diante de si com uma rara voracidade delicada, que se não pretende alterar a essência do que apreende, por outro lado elabora-a como nunca antes alguém ousou elaborar.

Quando emerge das profundezas do mundo que só ela é capaz de escavar,  Eliane Brum traz nas mãos uma miríade de belezas acesas e terrores em pisca-alerta em suas impressões apuradas e apreensões elaboradas. Então despeja tudo no papel, no teclado ou onde quer que lhe seja permitido falar com as pontas de seus dedos mágicos, capazes de tocar onde mais ninguém se arrisca alcançar.

Eliane Brum me rasga toda vez que me alcança. Abre minha carne com suas palavras cortantes e injeta em mim todo o sentimento do mundo que ela tão incessantemente se propõe a desvendar, com seus olhos sempre críticos e contundentes sim, mas nem por isso menos amorosos. Porque o que há de mais poderoso em seu olhar é o amor que permite com que ela veja o mundo da forma como vê, como ninguém mais parece ver. E como só ela sabe compartilhar.

capa_vida_q_ninguem_veEm A vida que ninguém vê (2006), a repórter Eliane Brum percorre Porto Alegre-RS trazendo à tona os habitantes invisíveis, cujas narrativas jamais iriam parar nos jornais. E não parariam mesmo até que seu diretor de redação Marcelo Rech no Zero Hora decidisse que só havia uma pessoa a quem ele poderia dar a missão de consertar essa falha histórica no jornalismo. E lá foi Brum revirar as engrenagens invisíveis da cidade em busca dos seres que a mantém viva. É graças a esse movimento de olhar para onde ninguém mais quer ou se permite ver que a jornalista nos brinda com textos fantásticos em forma e conteúdo. Para além de reportar o que apura, Eliane o faz magistralmente porque dá conta dos ambientes, dos gestos, climas e intenções. Apreende em profundidade e apura com rigor. Reúne informações certeiras sobre os lugares por onde passa e pessoas com quem conversa. E ela não conversa só com os olhos de seus interlocutores. Conversa também com os braços, pelos, marcas, unhas, vestimentas, pertences, almas. Desvela pessoas e lê ambientes com fenomenal percepção jornalística. 

capa_o_olho_da_ruaSeu livro seguinte, O olho da rua (2008) reúne dez grandes reportagens produzidas durante os anos em que Eliane foi repórter especial da revista Época. Com prefácio de Caco Barcellos, que ressalta o rigor e a sensibilidade nos quais se fundamentam o trabalho da gaúcha, o livro representa uma ode a reportagem concebida pela relação repórter-realidade que só se estabelece com a ida para a rua e com as conversas olho no olho que substanciam a experiência de estar em contato com as narrativas da vida real. Não é à toa que o subtítulo do livro é “uma repórter em busca da literatura da vida real”. Em O olho da rua Eliane Brum percorre um Brasil de histórias de vida e morte descrevendo experiências profundas que vão das parteiras da Amazônia aos 115 últimos dias de vida de uma paciente terminal. Narra ainda, entre outras histórias, seus dias em um retiro de meditação vipássana e sua estadia em uma casa de repouso para idosos; o encontro com uma família da periferia de São Paulo para uma reportagem sobre pobreza que aborda o cotidiano de quem sofre a queda drástica do padrão de vida devido ao desemprego e os testemunhos das mães que perderam seus filhos para o genocídio de jovens que se envolvem com o tráfico. Após cada reportagem, que conta com fotografias certeiras de nomes como Lilo Clareto, Denise Adams, Mirian Fichtner, Luludi, Frederic Jean e Marcelo Min, há um depoimento de Eliane Brum sobre a concepção de cada texto, o que inclui memórias sobre os bastidores das pautas, sua relação com os personagens e também a autocrítica sobre os caminhos adotados e nesse sentido, há um doloroso pedido de perdão aos personagens da reportagem A casa de velhos, pela reconhecida exposição de intimidades que postas no texto constrangeram as pessoas retratadas após a publicação. Com efeito, o livro não só dá uma aula de jornalismo como ensina sobre a humildade necessária para o exercício da profissão.

capa_uma_duas-e1381628405498A estreia na ficção acontece com o surpreendentemente brutal Uma duas (2011), que apresenta uma Eliane Brum capaz de pôr em palavras uma nauseante relação entre mãe e filha, com uma narrativa que se alterna entre os pontos de vista da dupla protagonista. A escolha editorial em imprimir o livro com tinta laranja é absolutamente desconfortável e contribui para uma experiência de leitura que transtorna, tanto pelo simbolismo de abrigar uma narrativa rascante marcada por automutilação e a complexidade que envolve os laços sanguíneos, quanto pela metalinguagem da história escrita com sangue. Uma das grandes marcas da ficção de Brum é justamente a capacidade intelectual de trazer à tona personagens que expurgam o acúmulo de vozes, afetos e sentidos que encontraram residência na repórter ao longo dos anos e precisavam escapar de alguma forma. Intensa e corajosa, Eliane Brum deságua na literatura toda a realidade obscura e sombria que na vida real não ousamos encenar. 

capa_ameninaquebrada_211_300De volta ao jornalismo, A menina quebrada (2013) traz um apanhado de 64 dos 234 textos mais brilhantes da coluna semanal assinada por Brum no site da revista Época. Neste livro em especial, conhecemos o percurso de des(identidades) que tanto interessa a autora quando o assunto é dar sentido a própria trajetória de vida. Para dar conta do mundo através do exercício da escrita opinativa, Brum segue o caminho inverso ao pressuposto pelo ego. Nutre-se de todo repertório possível de pesquisa e informação sobre o que a desacomoda para falar com a propriedade necessária para também desacomodar. Assim, apresenta análises profundas sobre o Brasil,  o mundo e a vida desconstruindo preconceitos e lugares-comuns, relatando episódios de imensa força e ternura – como o do texto homônimo ao livro que trata da criança que se assusta ao descobrir que pessoas também quebram, ao ver uma menina com a perna engessada -, comenta filmes, livros e espetáculos teatrais, analisa a relação entre pais e filhos, convida a repensar a medicalização da dor e a não-escuta dos pacientes depressivos, critica a imagem de Lula recriada pelo cinema, lança luz sobre a luta dos Guarani-Kaiowá, reflete sobre maternidade, paternidade, adoção, pedofilia, envelhecimento, memória, religião, política, imprensa, sexo, gênero e mais uma enorme gama de assuntos que após atravessá-la, transbordam em textos que convocam a uma lucidez feroz e sensível, que não só ampliam nosso entendimento acerca dos assuntos do mundo como alargam nossa existência ao entrar em contato com tão forte exercício de pensar.  

meus-desacontecimentos-220x300-e1406186555382Por fim, seu último livro publicado é a aguardada autobiografia Meus desacontecimentos – a história da minha vida com as palavras (2014), na qual Eliane Brum se entrega sem pudor à narrativa sobre sua relação com a palavra escrita. A linda capa de Eiji Kozaka nos antecipa a Eliane pequenina deparando-se com as primeiras letras a fim de significar sua existência. De todos os livros da brilhante repórter, considero Meus Desacontecimentos o mais pungente. Porque nos traz Eliane Brum em primeira pessoa como nunca antes. Tanto para quem está acostumado à sua escrita luminosa quanto para quem não a conhece, o livro fornece uma dose fortíssima de lirismo à flor da pele. É lindo, mas exige que seus leitores sejam fortes, ou no mínimo se permitam página após página se fortalecer diante de uma narrativa de vida tão intensa que vai das visões de uma infância angustiada – Eliane nasceu após seus pais perderem uma filha, situação pesadíssima que faz pairar no ar a possibilidade de uma vida só ser concebida porque houve uma morte antes –  à maturidade inquieta, passando por muitas memórias familiares e relatos íntimos sobre o que lembra Eliane de cada episódio marcante escolhido ser levado ao livro. Nesse sentido, as modestas 143 páginas do livrinho de bolso que é Meus desacontecimentos se transformam em um coeso dossiê sobre a importância da palavra escrita e lida na vida de uma pessoa. Toda a história de Eliane Brum, segunda sua própria narrativa pessoal e afetiva, é um percurso de estreita relação entre morte e vida, ser e não ser, identidade e desindentidade, acontecimentos e desacontecimentos. O que poderia ser e não foi, mas sobretudo tudo o que veio do que deixou de existir. É complexo e arrebatador. Como a própria vida. 

Acompanhe Eliane Brum aqui e conheça mais sobre seu trabalho e seus outros livros.