Em busca de paz e amigos
 
Na primeira edição do projeto Literatura Mútua recebi o poeta maranhense Felipe Castro (Caxias, 1991), autor de A Centelha de Eros (2016) para uma conversa sobre nossas experiências de leitura e escrita como exercício de estar no mundo. Felipe escreve em busca de paz. Eu escrevo para fazer amigos. Lemos por necessidade de nos situarmos no mundo, encontrando abrigo nas palavras de nossos autores preferidos. Abaixo, um pouco dos caminhos por onde passeamos com o público na noite da quarta-feira (24/08) na Galeria Trapiche.
 
TEXTO POR TALITA GUIMARÃES
FOTOS POR TALISSA GUIMARÃES
 
Um chão de paralelepípedos provavelmente gelado, uma árvore e uma janela. Tudo banhado por uma luz laranja, após anoitecer. Esse foi o cenário da primeira roda de conversa do projeto Literatura Mútua, que prevê encontros de autores que são leitores entre si, conversando sobre seus livros e experiências de leitura. 

Roda de conversa
Foto: Talissa Guimarães

Quando minha proposta de projeto literário foi aceita pela Camila Grimaldi, coordenadora da Galeria Trapiche Santo Ângelo, a ideia era ocupar a parte interna da galeria, onde geralmente são instaladas exposições de artes plásticas e realizados eventos. Contudo, sensível ao intimismo do projeto, Camila sugeriu que puséssemos nossa conversa em roda na área externa, onde luminárias em formato de lampiões derramariam sua luz alaranjada sob nós. Fez sentido. Na noite entrecortada de luz, a conversa ganhou tons de sol. Na sempre tentativa de iluminar caminhos por onde fluem o fazer literário.


LITERATURA MÚTUA: ENTRE A LEITURA E A ESCRITA
 
A ideia de autores falando dos leitores que são nasceu em um café com o Felipe após nos conhecermos no lançamento de nossos livros no Movimento Sebo no Chão, em abril. Falávamos sobre as leituras de seu A Centelha de Eros e meu Recorte! e de como eles se comunicavam com o nosso tempo, nossas vidas, eram um retrato do mundo que mergulhava em nosso olhar. Naquele momento não éramos escritores falando de suas pretensas obras. Éramos leitores falando do que os livros tinham feito conosco.

Foto: Talissa Guimarães

O tanto de atravessamento e transbordamento que há nisso de ler, escrever e ser lido me colocou curiosa sobre o muito que flui desse fazer, descobrir, aprender. Quis abrir a conversa, levá-la adiante sobre o que os livros fazem conosco, os caminhos por onde nos levam e nos transformam em quem somos. Muito se busca também. E era sobre esse percurso entremeado de escolhas e descobertas que nos propusemos a falar para um público que nos ouviu com generosa atenção e compartilhou suas experiências também ao aceitar o convite para responder a pergunta: “Por que você lê?”.

Para conhecer e sentir” e “Por curiosidade, vontade de aprender e sair da ‘realidade’
foram algumas das respostas do público.
POR QUE LEMOS?
As primeiras lembranças de Felipe Castro em relação à leitura – e aqui abrimos para leitura de mundo no sentido de apreensão dos elementos fornecidos a nossa volta e confecção de sentidos – remontam à infância. O autor de A Centelha de Eros mencionou exercícios de imaginação e brincadeiras de infância que envolviam a fantasia de ser jogador de futebol. Somente anos depois, durante um período morando em São Paulo, que Felipe descobriu a possibilidade da poesia através de um amigo chamado Vítor Salazar, que o inspirou a pensar a realidade através de versos. “É um exercício de atenção. E sendo um exercício de atenção é despejar-se ali no papel. O meu exercício é de despejar recortes de instantes. E é um exercício constante de modo que cria um vínculo com as coisas mais simples da vida, as coisas mais belas.”, afirma.
 
Felipe Castro
(Foto: Talissa Guimarães)
Quando a conversa caminha para as influências, Felipe concorda que suas leituras nas áreas de filosofia e religião conduziram-no para uma escrita interessada pelo olhar de admiração com o mundo. Entre os autores que lhe chamam a atenção, cita Rilke e Nelson Rodrigues. “Tudo aquilo que a gente lê cria experiências. Através da palavra a gente é transportado historicamente. Gosto de pensar assim”, diz.
 
Comento que ao participar recentemente de uma roda de conversa sobre Recorte! no IFMA, onde cursei o ensino médio, minha professora de Filosofia da época esteve presente e me perguntou o que a literatura significava para a minha vida considerando os medos e incertezas a que somos submetidos cotidianamente. Respondi que tanto o hábito de ler quanto de escrever representava um transpor de portas para universos que eu não teria acesso de outro modo e para meu universo particular também, que era ativado ao entrar em contato com autores inspiradores que me ensinavam sobre a vida e me instigavam a escrever, tornavam suportável viver. Muita coisa que eu lia me transportava para lugares reais que eu ia alcançar mais tarde. Não só em termos de objetivos concretos, mas de entendimento, de me colocar no mundo e perceber que eu estava entendendo coisas que tinha lido muito tempo atrás e que não tinha feito tanto sentido antes. 
Pergunto então ao Felipe para onde a literatura o transporta e como o situa no mundo. “É um exercício de estar aqui agora simplesmente. Gostaria de conhecê-los, conhecer a todos nós assim. É um exercício de dialogar, oferecer perspectivas de mundo que todos nós buscamos. Da mesma forma que eu vou me reconhecendo nas coisas, nos teus recortes, por exemplo”, fala Felipe Castro que em seguida pede que eu comente a importância de promover esse tipo de conversa através do Literatura Mútua.
 
Talita Guimarães
Foto: Talissa Guimarães
O momento é oportuno pois se relaciona diretamente com o espírito de Recorte! e o interesse por uma comunicação afetiva, que toca o outro através da escrita, mas que não precisa necessariamente do texto em livro para existir porque é uma experiência real, que antecede o registro. Cada breve narrativa, relato e crônica impressa no livro é um corpo de letras para um momento colhido do cotidiano, que vira registro com a intenção de ser compartilhado com outras pessoas. Então a importância real do encontro é a partilha. 
Explico que a transição feita da ficção com meu infanto-juvenil Vila Tulipa (2007) para a não-ficção em Recorte! (2015), que se debruça inteiramente sob o registro de cenas reais e elementos fornecidos pelo cotidiano, tem uma grande influência da minha formação em Jornalismo, que me despertou para a vida real e para uma consciência do que é estar no mundo como sujeito crítico, autônomo e criativo. Mas além disso, há a busca pessoal e intransferível por querer gostar de estar no mundo e aí entra a escrita afetiva que dá o tom à prosa poética de Recorte!.
O retrato do real que construo no livro é inteiramente pessoal e afetivo. Um “retrato a partir de si” como observou Meiri Farias, jornalista paulistana que assina o prefácio de Recorte!, durante a roda de conversa “O jornalismo do essencial: o instante fugaz em que o trivial se torna crucial em Recorte!” realizada em abril na Biblioteca Pública Alceu Amoroso Lima, em São Paulo.
 
O PÚBLICO COMPARTILHA SUAS IMPRESSÕES
 
O escritor Jônatas, que será o convidado de outubro na terceira edição do Literatura Mútua, comenta o quanto gosta do nome do livro de Felipe, que remete aos deuses da mitologia grega. Estudioso da Filosofia, Jônatas compartilhou conosco o mito de Eros.
 
O professor de Língua Portuguesa João Batista, presente na plateia, também teceu um longo comentário sobre o hábito de observar as coisas mais delicadas e mínimas do cotidiano e da importância de não se deixar levar pela indiferença que insensibiliza os sentidos diante de tragédias sociais que são banalizadas como a existência de moradores de rua ou ainda o episódio em que um cachorro de rua morto em um atropelamento mexeu tanto com o professor que ele precisou voltar ao local e remover o corpinho do animal do meio da rua.  Comovido, cobriu o cachorrinho e notou que um outro cão permaneceu próximo o tempo todo, velando o amigo.


Professor comenta sobre sensibilidade necessária para lidar com a realidade
Foto: Talissa Guimarães

A RELAÇÃO COM O LIVRO ENQUANTO OBJETO E A LEITURA DOS NOSSOS TRECHOS PREFERIDOS DE A CENTELHA DE EROS E RECORTE!

A oportunidade é também para comentarmos a leitura de nossos livros. Tornamo-nos leitores um do outro ao mesmo tempo, o que motivou de certo modo uma amizade literária. 
 
Conto que tenho uma relação de muita intimidade com livros enquanto objetos. Cheiro as folhas, acaricio a capa, tomo notas nas páginas, marco trechos preferidos, dialogo com o que está sendo dito pelos autores.
 
No caso de A centelha de Eros escrevi à lápis nas bordas letras de música e versos que se comunicavam com a poesia de Felipe. O poema que escolho ler para o público é o maior do livro, que com licença de todos leio na íntegra. Chama-se “Amanhã será um novo dia” em que o poeta dialoga com uma secretária que encontrou em seu caminho. A moça, aparentemente mal humorada com a vida, comoveu Felipe que sentiu necessidade de dizer-lhe algumas palavras de esperança. Entre os versos, destacam-se:
Felipe Castro, por sua vez, escolhe de Recorte! a crônica “Da janela lateral” em que narro a vez em que viajei no mesmo ônibus que um rapazinho que cantarolava uma música a plenos pulmões com a cabeça para fora da janela. Felipe convida o público a embarcar na crônica comigo e acompanhar o que se desenrola do passeio. “Ela coloca o som em palavras“, diz-nos sobre meu jeito de descrever a cena.
 

POR QUE ESCREVEMOS?

 
Gabriel Garcia Marques disse certa vez “Escrevo para que meus amigos me amem mais”. Quando somos convidados a responder por que escrevemos, recorro ao Gabo para falar da escolha afetiva que motiva o fazer literário. Escrevo para fazer amigos, me ligar às pessoas, tocar e ser tocada. “O livro só existe porque o mundo existe. É o mundo que me atravessou e voltou pro mundo. Então não é nada que saiu só de mim ou que eu inventei. São elementos que o mundo me forneceu e eu acho que é quase que um dever meu devolver ‘olha mundo, como você é lindo’.”, conto. Há ainda o exercício de estar no mundo que reside no fazer literário que combate a indiferença. “Escrevo muito para não ser indiferente, para fugir disso. Pra ser inquieta, mas sem perder a paz”, concluo.
 
Foto: Talissa Guimarães
Felipe por sua vez, busca paz ao escrever. Para sentir alívio após a sofreguidão comum ao seu processo de escrita. Conta-nos também da sua relação de troca de experiências com o fazer literário. “Escrever é deixar um registro através do qual trocamos experiências e mergulhamos nas perspectivas uns dos outros”, afirma Felipe Castro que reflete ainda sobre o registro de espaço e tempo no qual escritos são situados ao contar que ficou pensativo sobre assinar um “nome de autor” em seu livro. “A gente deve sair da literatura pra vida.”, conclui.


NOVOS LEITORES

Ao final da roda de conversa, sorteamos exemplares dos livros comentados para o público presente. A advogada Caroline Rios e o designer Pablo Muniz ganharam A centelha de Eros e Recorte! respectivamente.

Caroline Rios, Felipe Castro, eu e Pablo Muniz
Foto: Talissa Guimarães

PRÓXIMAS EDIÇÕES DO LITERATURA MÚTUA: SETEMBRO E OUTUBRO

A conversa, inesgotável embora o tempo de evento imponha o contrário, não deve se encerrar por ali. O convite é para que pensemos o mundo juntos, através das nossas formas de lê-lo e tocá-lo adiante. E que a cada mês possamos nos encontrar para trocar ideias sobre nossas experiências.
 
Em setembro, recebo a escritora Sabryna Mendes, autora do premiado romance Cafés Amargos para continuarmos no fluxo em busca de compreensão sobre o que a leitura e escrita fazem conosco. A segunda roda de conversa do projeto Literatura Mútua acontece na quarta-feira 21/09, a partir das 19h30 na Galeria Trapiche.
 
Já em outubro, será a vez do Jônatas, leitor voraz e cronista do cotidiano, trazer sua contribuição para a roda na quarta-feira 19/10, também às 19h30 na Galeria Trapiche.
 
Até lá!