No dia em que o saudoso Mestre Antônio Vieira completaria 90 anos, o “Ensaios em Foco” presta uma homenagem ao mestre da cultura popular maranhense com uma pequena amostra de sua obra em parceria com Lopes Bogéa sobre “Os Pregoeiros de São Luís”.
Texto de Talita Guimarães, ilustrações de Cordeiro Filho, digitalização de Talissa Guimarães

Aos olhos e ouvidos de quem vive o cotidiano maranhense, talvez essas figuras já componham o cenário de forma muito natural. Já para quem vem de fora e pode passar algum tempo por aqui descobrindo os detalhes de São Luís, eles podem ser personagens curiosos.

Fato é que já não estão pelas ruas na mesma quantidade de antigamente, quando o comércio ambulante não tinha concorrência e quando crianças podiam crescer brincando pelas ruas da cidade e esbarrando em cada canto com um vendedor de algodão doce, mingau de milho, pirulito, pamonha e até mesmo garrafas, caranguejo, peixe, arroz de cuxá, camarão, jornais e os curiosos derresóis (doce cujo preço era anunciado rapidamente como “dez réis só”) e compra tudo. Havia ainda o sorveteiro, o vassoureiro, o verdureiro, a doceira, o amolador, o carvoeiro, e os vendedores do famoso “banho cheiroso” e do caruru com bola.
A esses personagens tipicamente maranhenses, que para muitos podem passar como vendedores ambulantes que se fazem ouvir de longe, anunciando em versos aquilo que vendem, os mais apaixonados pela cultura popular chamam pregoeiros e ao canto deles, pregões.
Entre esses apaixonados observadores da cultura maranhense, estavam Antônio Vieira e Lopes Bogea, que reuniram no livro “Pregões de São Luís” os pequenos versos desses personagens e transformaram em canções a fala característica de cada ambulante. No livro, Vieira e Bogea retratam o que cada personagem significa e musicalizam seus pregões. O resultado é uma bela homenagem aos despretensiosos vendedores ambulantes que movimentaram a economia maranhense nas décadas de 60 e 70, quando eram os únicos abastecedores do centro de São Luís.
Entretanto, de um mero registro do cotidiano do homem maranhense, o livro se transformou em um objeto de preservação da tradição cultural do povo, reunindo personagens que servem de estudo sociológico para a compreensão de questões como identidade cultural em processos de folkcomunicação. Para estudiosos da comunicação popular, analisar esses personagens, o ambiente em que eles vivem e a forma como se expressam e se relacionam com outras pessoas pode auxiliar na construção de uma identidade, dos líderes de opinião ao sentimento de pertencimento do indivíduo que se identifica dentro daquele grupo e se apropria daquela cultura.

Da esquerda pra direita: Garrafeiro, Vendedor de Bolinho, Vendedor de Pamonha, Vendedor de Frutas, Roleto de cana
Nesse sentido, o “Ensaios em Foco” traz alguns pregões do livro e ilustrações do desenhista maranhense Cordeiro Filho. Vale lembrar que esses desenhos de Cordeiro Filho figuram como elementos de decoração de muitas repartições públicas de São Luís e algumas empresas privadas também. Assim, aos maranhenses, vale dedicar a atenção os belos traços da nossa cultura, cuidadosamente espalhados por nossa cidade. Sejam pelas ruas ou pelas paredes de nossa cidade…

“Homem do Peixe”
“É pescador!
Bravo lobo do mar!
O pescador vai pro mar
com a sua rede de arrastão,
anzóis, cabaças, espinhéis…
e a fé no coração.
Corpo queimado de sol
e açoite de maresia…
Embora arriscando a vida,
ele sorri de alegria.
Sua vida, sua prece,
ganha pão de cada dia
sai de casa noite alta
com arpão e zangaria…
Ele só volta pra casa
na maré de outro dia.
Entrega o peixe ao peixeiro
Peixeiro, revendedor
Que ganha mais do que ele –
e a vida não arriscou.
Peixe fresco!…
Tainha fresquinha do Caju
Bandeirada e cangatã da
Madre Deus
Olha o peixe-pedra de Ribamar
Tá uma beleza
Peixe fresco!…
É pescador!
Bravo lobo do mar!”

“Jornaleiro”
“Olha o jornal!…
Imparcial, Estado, O Jornal,
Jornal Pequeno, traz notícias
do mundo inteiro.
Olha o jornal!…
Eu sou jornaleiro
esta é a minha profissão.
Eu vendo a notícia o dia inteiro
pra ganhar o pão.
Quando o dia amanhece
saio gritando meu pregão.
Meu pregão é minha prece,
prece, vida, meu irmão.
Eu desperto com o padeiro
que entregar o pão.
Eu entrego as notícias
dadas de primeira mão.
Antes que a fábrica apite
já estou de prontidão,
entregando-o ao operário
seu doutor e seu patrão.
Eu já tenho freguesia
de gente que sabe ler.
Gente atualizada
Notícia vou lhe vender.”
“Banho cheiroso”
Banho cheiroso
Você deve tomar (2x)
Banho cheiroso
pra acabar com essa mofina
e o corpo ficar jeitoso.
Você sente uma moleza
Sem ter doença alguma.
Tem a vida atrapalhada.
Não consegue coisa alguma:
ele é muito valoroso.
Pois não perca mais.
Tome banho cheiroso.
Ele é feito de “tipi”
“Pau de angola” e “pixurim”
Leva “trevo de mulata”
e também “patchuli”
“Jardineira”, “pataqueira”
E também “manjericão”
Leva “rosa-todo-ano”
Amoníaco e açafrão”
No livro constam, ainda, algumas observações sobre o contexto histórico de cada pregoeiro. No texto referente ao jornaleiro, por exemplo, os autores observam fato deste pregoeiro em especial ser o responsável por levar as notícias a pessoas alfabetizadas quando muitas vezes, ele mesmo não sabe ler. Sobre isso, diz esperançosamente o trecho “Que essa freguesia aumente dia-a-dia, até chegar o dia em que o próprio jornaleiro se transforme num dos mais entusiastas leitores de nossa terra.”
Assim, é Dagmar Desterro quem escreve na apresentação do livro as palavras que melhor definem o trabalho de Vieira e Bogea: “Não bastava para eles apenas retratar os tipos descritos com a simplicidade própria: transcreveram também a toada característica desses tipos, musicalizaram os pregões, deram-lhes mais vida.”