A válvula de escape

Por Carol Rios

O futebol é uma espécie de mundo paralelo à realidade, um espaço próprio, isto é, cheio de peculiaridades; seus habitantes são os torcedores que ali são tão somente torcedores, despidos de problemas e eventuais responsabilidades do mundo terreno. Dessa forma, não há que se pensar em conjugação dos dois mundos, o que desautoriza alegações como “o time ganhando ou perdendo minha situação econômica continua a mesma” ou, ainda, “eles estão enricando e eu continuo na pindaíba”. Ora, amados leitores, torcer é amar incondicionalmente e mais: desinteressadamente! Sim, queridos, a relação “torcedor – clube de futebol” não é movida a interesses, pelo menos não no que diz respeito ao torcedor (os clubes, como bem sabemos, usam de artifícios para lucrar com a paixão do torcedor, lucros que pelo menos teoricamente são revertidos em investimentos no clube, mas isso é assunto para outro post, tratemos agora apenas do indivíduo amante do futebol).

Dessa forma, reitero que futebol é movido a sentimentos, logo, ao adotar um time o sujeito não pretende ser agraciado com fama ou fortuna, seu desejo apenas é otimizar aqueles tão esperados noventa minutos, estar ao lado de amigos e familiares, abrir uma cerveja, berrar, tirar sarro do adversário, vibrar! Que outra explicação pode haver para um Nhozinho Santos lotado apesar da estrutura insatisfatória, do constante desrespeito ao torcedor (evidente, por exemplo, na desorganização na venda dos ingressos) e da incerteza de um bom futebol dentro de campo a ser apresentado?

Torcida boliviana faz festa para receber o time a cada início de partida*

Já fiz parte desse último cenário e, independente do resultado da partida, foram momentos mágicos aqueles. Impossível não se impressionar com um público que vibrou os noventas minutos, ignorou a chuva e mais, um público que te acolheu. Daqui apreendemos duas características da esfera do futebol: a identidade e a lembrança. A partir do momento que você se intitula torcedor de determinado time você assume uma identidade e a reconhece nos demais torcedores, sendo compreensível assim que pessoas que até então não se conheciam vibrem juntas no estádio, troquem palpites, se abracem na comemoração de um gol, lamentem juntas uma falta, calculem juntas o resultado necessário para avançar para a próxima fase. Além disso, nesse mesmo cenário figura a lembrança: quando falo de momentos mágicos falo também de momentos inesquecíveis, momentos que marcam a infância, momentos ao lado dos pais, lembranças do gol do título, do craque que marcou uma geração, de um sacrífio para acompanhar um jogo ou ainda de uma história que vira motivo de riso.

Em goleada, a comemoração da torcida não tem hora para acabar*

Portanto, defendo que torcer pelo futebol é algo desvinculado de qualquer tipo de interesse, é algo que sequer pode ser mensurado. Podem ainda persistir perguntas como: Seu time foi campeão? O que você ganhou com isso? ou Você continua sofrendo por esse time? Para quê essas lágrimas? Entretanto, para mim, formulá-las não faz sentido, que dirá procurar respostas. Digo apenas que há coisas que carecem de explicação, basta vivê-las. A verdade é que, independente de interferir ou não na sua vida, o verdadeiro torcedor (o autêntico cidadão do Futebol) continuará a sofrer e sorrir pelo seu time, como bem descrevem Samuel Rosa e Nando Reis:

“[…] A bandeira no estádio é um estandarte/A flâmula pendurada na parede do quarto/O distintivo na camisa do uniforme/Que coisa linda é uma partida de futebol […]”

“[…] Se ele [meu time] perder, que dor, imenso crime/Posso chorar, se ele não ganhar/Mas se ele ganha, não adianta/Não há garganta que não pare de berrar […]”

(Skank, “É uma partida de futebol”/ Composição: Samuel Rosa e Nando Reis)

Saudações Coloradas! 😀

Fotos e legendas: Talita Guimarães

*Torcida do Sampaio Corrêa-MA em jogos da Série D do Brasileirão 2010