CONECTA MÚSICA – Palestras
 
SEXTA-FEIRA (11.12.2015) – Cine Praia Grande
Palestra “Arte e Ativismo Urbano” com BAIXO RIBEIRO e MARIANA MARTINS, diretores do Instituto Choque Cultural (SP).

Equipe do Instituto Choque Cultural (SP): Baixo Ribeiro (camisa azul), Mariana Martins (blusa preta), Raquel Ribeiro, Marcia Oliani e Susana Jeha

“A gente cria filho para melhorar o mundo”, disse o personagem Hugo, vivido pelo ator Orã Figueiredo na novela Totalmente Demais em capítulo exibido no primeiro dia de 2016. Não seria inadequado relacionar tal pensamento ao nascimento da galeria de arte e do Instituto Choque Cultural, há doze anos em São Paulo. Quando o filho pré-adolescente do casal de urbanistas Baixo Ribeiro e Mariana Martins enveredou pelo caminho do desenho, Mariana se preocupou com o mercado de arte que o filho encontraria em São Paulo. E foi com a intenção de intervir nessa realidade, que ela uniu-se ao marido em um projeto que modificou para melhor o cenário da arte e do ativismo urbano na capital paulista.

Filha de um artista plástico crítico do predomínio de elementos europeus como uvas e flores dos alpes na arte produzida no Brasil, Mariana Martins reconheceu no cenário artístico muito da crítica que outrora seu pai fizera à necessidade de estimular a cultura nacional, genuinamente brasileira, feita por pessoas inseridas em um contexto local. “Tem que ter flor de maracujá, tem que ter pitomba, tem que ter banana”, defendeu Mariana, que também é artista plástica, sobre a importância de valorizar a identidade nacional.


Como Baixo Ribeiro trabalhava como estilista criando roupas para skatistas, o casal conheceu muitos artistas urbanos, entre grafiteiros e tatuadores e foi a partir do contato com esse universo criativo que Baixo e Mariana desenvolveram o projeto de uma galeria de arte que viabilizasse o sustento dos artistas e promovesse atividades educativas. 

“Como é que eu posso encaminhar um filho que desenha nos anos 90, pra que lado ele pode ir com esse mercado elitista, difícil, tão cabeça, cerebral, tão distante da realidade brasileira? E ao mesmo tempo, a gente conheceu esse pessoal do grafite e eu vi que os amigos dele também estavam interessados nesse universo e que ninguém tava vendo, sabe? O status quo, as pessoas, os jornais, eles não estavam percebendo a geração incrível de grafiteiros, de artistas urbanos em geral que a gente tava tendo”, contou Mariana Martins, que ao começar a se tatuar se surpreendeu com o trabalho artístico envolvido. “Fiquei fascinada com a qualidade dos desenhos dos tatuadores” declarou a artista plástica, também formada em Arquitetura e Urbanismo, que não parou de conhecer artistas que lhe chamaram a atenção. “Conheci um monte de músicos de rock que faziam uns cartazes. Esse universo estava sendo muito desprezado. Não tava visível. Então vamo fazer esse universo se tornar visível porque sim, eu quero que meu filho e os amigos dele tenham essa possibilidade de trabalhar, de mostrar e de colecionar arte e de dar um sustento pra esses artistas que tão ai batendo cabeça.”, disse Mariana Martins.

O trabalho de Mariana e Baixo começou modesto. O casal fazia pôsteres dos trabalhos dos artistas urbanos que não estavam inseridos no circuito de galerias para torná-los conhecidos do público. “Pensei assim: se a gente pegar o que esses meninos tão fazendo na rua e passar prum papel, prum meio mais normal que a arte considera, uma gravura, assinada, numerada, tal, talvez eles vejam quando andarem na rua ‘nossa eu tenho uma gravura dessa pessoa que pintou esse muro’ e comece a ver como é bom esse trabalho que tá acontecendo na rua que as pessoas não estão vendo.” expôs Mariana. A iniciativa não só vingou como foi tomada no momento certo, observa. “Caiu muito bem, acertamos num tempo muito certo e as pessoas começaram a ver e a querer saber quem eram aqueles artistas, como eles tavam trabalhando na rua.”, conta Mariana, recordando que no começo dos anos 2000, os artistas sofriam muito pois não tinham apoio para expor seus trabalhos sendo maltratados e confundidos com criminosos pela polícia. “Eles ainda apanhavam muito da polícia, perdiam seu trabalho, perdiam dinheiro, eram presos. Essas histórias são terríveis. Eles tavam precisando de dinheiro, então a gente começou a vender original e virar uma galeria de verdade assim, galeria tradicional, por causa dos artistas. Os artistas tavam precisando e a gente virou.”, revela, ressaltando que ainda assim a ideia nunca foi ser uma galeria de arte pautada na missão de comercializar obras e ganhar dinheiro às custas dos artistas. “Era muito mais vamos fazer as pessoas entenderem, formar um mercado de arte e formar os artistas, as pessoas, esses alunos, esses adolescentes que estão na escola e são massacrados por um ensino que é tecnicista, que não é humanista, um ensino que não valoriza o potencial criativo dessas pessoas. Amassa essas pessoas, massacra. Essas pessoas acabam ficando à margem em vez de serem pessoas que ganham dinheiro, se viram, atingem a sociedade e interferem na vida das outras pessoas de maneira positiva, enfim.”, esclarece a urbanista.

“Ao mesmo tempo que a gente mantinha esse trabalho comercial, a gente criava esse ambiente de sustentabilidade pra vários artistas que não teriam possibilidade de ganhar a vida em outro ambiente.” explica Baixo Ribeiro que ao lado da esposa deu início a um trabalho oficial como curador de arte, participando de feiras e se inserindo de fato no mercado com discussões a respeito da própria dinâmica mercadológica, que historicamente tende a se fechar para as vanguardas. O interesse do casal nesse meio, contudo, não se limitou ao mercado. “A gente tinha interesse por causa dessa questão de sustentabilidade mesmo, mas o mercado era parte do nosso interesse”, pontuou Baixo, que também tem formação em urbanismo, destacando que o interesse maior estava nas questões relacionadas à cidade, como a transformação urbana proposta pelos artistas com quem eles estavam trabalhando. “A gente enxergava o potencial que tem

a arte pra sensibilizar as pessoas, mobilizar o público pra algumas causas, exatamente iluminar pontos cegos na cidade, coisas que a gente não percebe.”, e comenta como a cidade é agressiva com o pedestre e quem está no espaço público. Aqui menos um pouco, mas em São Paulo e nas cidades mais novas do que esse Centro Histórico aqui, o que você tem? Você tem casas com muros muito altos, os shopping centers todos fechados, as grades com lanças, enfim são várias coisas que a gente acaba encontrando  na sinalização da cidade que é agressiva com você, que é agressiva com o pedestre. O grafite exatamente discute isso. Ele vai lá e pinta aquele muro de quatro metros de altura que te oprime. Ele pinta criando uma imagem que te leva além, ele amplia o espaço público. Então é um discussão muito quente pra um urbanista. Exatamente essa da revalorização do espaço público, da retomada, da reocupação do espaço público para as pessoas, pelas pessoas. Quer dizer a gente ampliar o espaço público ao invés de deixar que o espaço privado reprima o espaço público.”, afirma o urbanista.

E nesse sentido de ocupação do espaço urbano, Mariana Martins observou a relação entre os skatistas e o grafite na experiência de transformar a cidade. “A gente percebeu que boa parte dos artistas que faziam grafite tinham vindo do skate. Eram skatistas que também exploravam, porque o skate é uma coisa interessante. Ele explora exatamente aquele lugar que não é bem do pedestre, o pedestre tem medo de entrar, mas o carro não pode entrar. E ele tem obstáculos. O skatista sabe usar o obstáculo e aí ele começa. O lugar é muito feio, muito fedido, normalmente tem mendigos, fogueira. Aí ele começa a pintar o lugar e começa a transformar. Tem esse desejo de transformação do lugar que normalmente é um fundo, é um fim, é um baixo atrás assim da cidade, é um lugar que sobrou entre um viaduto, uma passarela subterrânea.”, analisa Mariana Martins.

Nesse contexto de descoberta de artistas urbanos e experiências de transformação do espaço público com arte, Baixo Ribeiro e Mariana Martins criaram o Instituto Choque Cultural com o objetivo de criar redes de ativismo em prol de uma redefinição do espaço público. Foram contatados ativistas envolvidos com horta urbana, ciclismo, mobiliário urbano, entre outros. Com a formação do instituto, o trabalho se voltou para novos campos, saindo da esfera da cidade e entrando na escola. “A gente tinha certeza que a educação era a maneira mais útil de a gente pegar todo o know how que a gente tinha desenvolvido de ensino de arte e começar a repensar o próprio ensino de arte dentro da escola. O ensino de arte como parte de uma motivação para que os alunos tenham mais vontade de ficar na escola.” relata Baixo, apontando que aos altos índices de evasão escolar estão também ligados à falta de interesse e perspectiva dos alunos na escola.

Na sequência, Baixo Ribeiro exibiu um vídeo apresentando um pouco da atuação do Instituto Choque Cultural em São Paulo. “A gente reuniu grupos de ativistas de várias áreas pra repensar a situação do centro da cidade de São Paulo que é um lugar que tem problema de degradação sério, principalmente no que se refere a noite. Durante o dia ele é habitado, é vivido, tem muita gente trabalhando, mas a noite fica deserto e perigoso.”, e conta que a partir daí eles se propuseram a pensar uma solução.



Segundo Mariana Martins, a situação é semelhante à observada no Centro de São Luís, onde a partir de certo horário da noite o movimento diminui porque é uma região comercial de atividade diurna. Foi ao sair de um show e atravessar o Anhangabaú de madrugada que o casal se deu conta de como aquele espaço, limpo, bonito e bem iluminado estava sendo desperdiçado. “Em qualquer lugar do mundo, o Centro é o lugar que tem barzinho, todo mundo tá cantando, ouvindo música, bebendo cerveja, conversando, tem um teatro e aqui não tem nada.”, Mariana lembra o que pensou na ocasião, referindo-se ao Anhangabaú em SP, onde a sede do instituto foi instalada.

“É uma coisa que às vezes a gente se confunde mesmo, a gente pensa em patrimônio cultural como uma coisa ligada ao prédio antigo, à manutenção, conservação do prédio antigo, mas o patrimônio cultural é a relação que a gente tem com a cidade. São as pessoas, aquelas que tem a iniciativa de cuidar e de conservar os prédios. Como a gente deixa essa comunidade mais coesa, mais firme e mais consciente de como fazer as coisas, de como conservar, de como manter vivo”, Baixo Ribeiro explica exibindo em seguida um vídeo demonstrativo do trabalho de revitalização feito em São Paulo que pode ser aplicado em São Luís. A gente já levou um pouco desse conceito de trabalho em rede, de trabalho coletivo pra melhoria em vários campos do espaço público e do espaço urbano.”

Nesse contexto, Mariana Martins destacou o conceito de arquitetura humana. Não é mais a arquitetura só do edifício. Até agora os arquitetos, os urbanistas pensaram muito no edifício, na construção, que é aquela coisa boa né, dá dinheiro pra todo mundo e não reclama. Mas o importante hoje em dia é você tratar as pessoas. As pessoas são importantes para o lugar. O Chico Discos não existe sem o Chico. Tem lugares que são específicos com as pessoas, as pessoas tem que estar lá e assim também é a arquitetura. Ela tem que ser pensada pras pessoas, com as pessoas, pelas pessoas.”, afirma a urbanista.

Quanto ao emprego dessa corrente de pensamento, Baixo conta que existem exemplos de como lidar com a arte para sensibilizar as pessoas, promovendo o entendimento da forma como a comunidade se relaciona com a cidade e lida com os problemas cotidianos. Mostra que em São Paulo, onde a comunidade de skatistas é muito expressiva, essa relação de pertencimento ao espaço urbano é notável. O skate é o segundo esporte mais popular depois do futebol. E o skate tem exatamente aquela coisa do enxergar. De enxergar a cidade, enxergar os defeitos da cidade, os buracos, os obstáculos, a confusão do equipamento urbano que geralmente é mal pensado, é mal construído, é mal elaborado. Não como um defeito, mas como um obstáculo a ser explorado. Então o skatista enxerga a cidade como um tabuleiro de jogo onde ele vai encontrando e vai fazendo a sua brincadeira.”, e cita o espaço da Praça Roosevelt em São Paulo, cuja reforma converteu-a em uma solução viária, pois foi construída em cima de um estacionamento, o que para Mariana é alvo de crítica. “Ela foi uma praça, agora é uma laje em cima de um monte de avenidas subterrâneas que se encontram e se distraem.”

Praça Roosevelt, SP.
Imagem disponível aqui.

Baixo complementa a explicação: “Quando ela foi reformada a última vez, inaugurada em 2012 essa reforma, os arquitetos que foram reformar não pensaram exatamente nos skatistas. Eles pensaram simplesmente em fazer uma praça mais ampla, mais aberta, mais livre, sem árvore, sem equipamento, sem banheiro, sem bebedouro, uma praça com uma infraestrutura muito mal organizada, mas porque ela é tão árida, feita de uma maneira tão simples, num pensamento tão rústico do arquiteto, que combinou tão bem com o tipo de espaço que os skatistas gostam, que é um espaço limpo, livre.”, observa, criticando em seguida que existam projetos arquitetônicos encomendados por gestões públicas preocupadas em não fornecer espaço para quem dorme na rua, evitando esse tipo de uso do equipamento. O fato é que essa praça virou a praça dos skatistas apesar dela não ter sido construída pensada para ser uma praça de skate, uma praça pra prática desse esporte. Logicamente isso causou uma série de problemas porque a população do lugar queria usar a praça de outras maneiras também e aí os skatistas ocuparam. Praticamente só skatista tava usando e aí teve que haver uma série de conversas, o que é bom, entre os vários públicos de uso, que queriam usar aquela praça.”

Mariana lembra que a Roosevelt acabou sendo utilizada por vários públicos, pois é uma praça rodeada de teatros. “As pessoas fazem performances às vezes ali em volta e foi usada muito pra reuniões políticas também, porque tem esse espaço amplo, vazio então dá pra juntar muita gente, dá pra fazer show até.”  e comenta que apesar disso, alguns moradores não gostam do movimento artístico. “As pessoas que foram morar implicam e chamam a polícia toda vez que alguém toca um saxofone.”, conta Mariana Martins.

NOTA: Na segunda parte a ser publicada na próxima postagem, os urbanistas Baixo Ribeiro e Mariana Martins comentam sobre a exposição feita pela Galeria Choque Cultural no MASP, que contou com intervenções urbanas e respondem às perguntas do público.