Música e conhecimento 

 

A segunda edição do Festival BR 135, que aconteceu no bairro da Praia Grande entre os dias 10 e 12 de dezembro, promoveu o fórum Conecta Música trazendo mais uma vez uma programação formativa paralela aos shows com painéis, workshop, mesas e palestras sobre a cadeia produtiva da música com especialistas, pesquisadores, jornalistas, ativistas e agentes culturais de vários estados brasileiros. 
 
Na oportunidade, acompanhei as palestras “Jornalismo Cultural” com Zema Ribeiro (Blog Homem de Vícios Antigos) e Roberta Martinelli (TV Cultura) mediados pela jornalista Andréa Oliveira na quinta-feira (10); “Arte e ativismo urbano” com os urbanistas Baixo Ribeiro e Mariana Martins do Instituto Choque Cultural (SP) na sexta (11/12); e a mesa “Festivais: desafios e oportunidades” com os gestores culturais Paulo André (Abril Pró Rock), Melina Hickson (Porto Musical), Marcelo Damaso (Festival SeRasgum) e  Anderson Foca (Festival do Sol) no sábado (12/12). As três atividades foram realizadas no Cine Praia Grande. 
 
Na pequena série de postagens a seguir, o blog reproduz um pouco do conhecimento compartilhado por estes profissionais nas atividades mencionadas. 

CONECTA MÚSICA

QUINTA-FEIRA (10.12.2015) – Cine Praia Grande
Palestra “Jornalismo Cultural” com ZEMA RIBEIRO e ROBERTA MARTINELLI. 
Mediação: Andréa Oliveira.

Palestra Jornalismo Cultural (da esquerda para direita):
Andréa Oliveira, Roberta Martinelli e Zema Ribeiro.

PARTE 1 – Jornalistas comentam trajetória e experiência no Jornalismo Cultural

Teimosia, liberdade e paixão. Equacionados, estes três elementos resultam na resistência necessária para atuar na área de Jornalismo Cultural, segundo o jornalista e blogueiro Zema Ribeiro. Nesse sentido, a equação tem sido posta há prova há pelo menos uma década por Zema em seu blog Homem de Vícios Antigos e há sete anos por Roberta Martinelli, apresentadora e curadora do programa Cultura Livre com edições na Rádio Cultura Brasil e na TV Cultura. 

Em palestra, que reuniu os dois comunicadores mediados pela jornalista Andréa Oliveira, o assunto girou em torno da atuação na área do Jornalismo Cultural a frente de trabalhos que priorizam olhares sobre o cenário da produção musical nova, no caso do Cultura Livre e em um blog pessoal no caso do Zema, que escreve sobre cultura, direitos humanos e afins. 

Roberta Martinelli iniciou a conversa comentando sua trajetória do Direito até a Comunicação Social, passando ainda por uma experiência como atriz. Após abandonar o Direito por incompatibilidade com seus anseios profissionais, Martinelli retornou à área pela via da arte. É que um professor seu de teatro convidou-a para ser assistente dele nas aulas para uma turma de Direito, contando com os conhecimentos jurídicos de Martinelli e sua boa comunicação. Após essa experiência, a moça foi convidada a dar aula na mesma faculdade e como ainda não tinha formação suficiente para lecionar, ganhou uma bolsa e se formou em Rádio/TV. A partir daí, obteve conhecimentos, contatos e foi estagiar na Rádio Cultura, participando da equipe que idealizou o Cultura Livre. “Gostava muito da programação da Rádio Cultura, achava que era uma rádio que tocava música brasileira. Uma rádio de qualidade, uma rádio ótima, mas que tocava sempre as mesmas músicas, até que com uma variedade enorme, mas era Djavan, Caetano, Gil.”, conta Roberta Martinelli, que notando a ausência de um programa que desse conta da nova produção musical, juntou-se a mais dois colegas e pensaram em um programa que cobrisse exatamente essa lacuna. Para emplacar o Cultura Livre, contudo, precisaram argumentar bastante porque mesmo diante de um piloto que agradou a direção, a equipe ainda foi questionada se um programa cobrindo música nova passaria da edição 87. Como resposta, o Cultura Livre não só passou como extrapolou as ondas do rádio ganhando uma versão televisiva e muitas íntegras de shows e faixas bônus para internet em uma existência que já dura sete anos. 

Mas para quem pensa que essa jornada foi tranquila, o relato de Roberta Martinelli definitivamente mostra que não. Uma semana antes do programa estrear, os dois colegas da equipe que idealizou o Cultura Livre foram desligados da rádio, deixando Roberta sozinha para tocar o programa. Para dar conta da seleção musical, que antes era feita por Ronaldo Evangelista, e da apresentação do programa, Roberta Martinelli teve que se desdobrar, ouvindo muito mais música e ficando atenta a toda a produção contemporânea. Passou a assistir muitos shows e entrevistar artistas nos eventos. “Os músicos até me chamavam na época de ‘a louca do microfone’ porque eu chegava e não tinha espaço, então a gente ia gravar no banheiro ou em algum lugar que desse. Fiz entrevistas nos lugares mais estranhos do mundo” e recorda a vez em que entrevistou o músico Rômulo Fróes em um banheiro porque era o único lugar em que era possível gravar o áudio. “Eu gravava, montava e levava pra rádio e aí o que acontecia é que eu achava que o Cultura Livre era um programa que eu contava como tudo era tão legal, mas ele de fato não era tão legal porque eu tava só contando como tinha sido muito legal conversar com o Rômulo no banheiro, mas as pessoas não tinham acompanhado a conversa naquele momento”, lembra Roberta, que a partir desse incômodo teve a ideia de levar entrevistados ao estúdio da Cultura Brasil na Rádio AM.

A primeira artista a ir ao programa foi a cantora Tiê, cuja participação rendeu uma edição particularmente memorável. “Eu pensava ‘Quem tá me ouvindo? Será que tem alguém me ouvindo na rádio AM? Será que tá fazendo algum sentido isso que eu tô fazendo? Levei o meu computador, montei e fiz uma twitcam com a Tiê e foi muito divertido, as pessoas participavam, foi outra coisa assim. Isso sim foi legal. No dia até a rádio caiu do ar na hora do programa por um tempo e foi a única transmissão de rádio muda da história da humanidade. Fui eu que fiz. As pessoas ficaram vendo eu e a Tiê assim [gesticula com a boca sem sair som] e aí eu falei ‘façam perguntas que a gente responde por plaquinhas’ e aí a gente começou a escrever respondendo. Dei um batom, ela beijava a folha e eu mostrava pras pessoas, fala Roberta Martinelli. A experiência deu tão certo que a Rádio Cultura topou levar uma câmera para o estúdio dando início às transmissões do programa. 

A versão televisiva do Cultura Livre surgiu pouco depois, mas a partir de um outro contexto. O setor comercial soube dos vídeos criativos que Roberta fazia com o iphone para divulgar o programa e pediu que ela participasse de um vídeo promocional para vender uma marca, que acabou não rolando, mas rendeu um vídeo bacana que acendeu a lâmpada para a possibilidade de fazer programetes de dez minutos gravados com o iphone para a TV. Até chegaram a começar, mas o trabalho operacional para editar ficou muito dispendioso, chegando a seis horas de ilha só para linkar áudio e vídeo. A experiência, contudo abriu caminho para que o programa ganhasse um estúdio de TV estilizado até ser transferido para um teatro, onde atualmente é gravado com transmissão direta pelo youtube, que depois vai para televisão em uma edição de meia hora. “A gente grava uma hora e a segunda parte vai só pra internet”, informa Martinelli, que faz questão de não se afastar da curadoria do programa. “Todo ano me perguntam por que eu não levo bandas grandes e eu falo que eu levo. Eu levei Bixiga 70 e Trupe Chá de Boldo que são gigantes, Orquestra Brasileira de Música Jamaicana que é bem grande…”, rebate, passando a palavra em seguida para Zema Ribeiro que emendou com a declaração: “Jornalismo cultural é um sacerdócio!”.

O jornalista e blogueiro conta que foi abduzido pelo jornalismo cultural através do próprio jornalismo cultural, ainda muito jovem lendo revistas como a Bizz. “Essa coisa de ler a Bizz e outras publicações da época acabaram me empurrando pra um jornalismo e ai depois pro jornalismo cultural. Eu sempre gostei de escrever. Em um determinado momento eu pensei que era aquilo que eu queria pra minha vida embora eu tenha tido outros empregos tão chatos”, afirma o jornalista que já trabalhou em banco e na parte administrativa de uma faculdade. “Voltando a questão do sacerdócio do jornalismo cultural, meu blog dá dinheiro eventualmente. Não é uma coisa assim que eu viva do blog, então pra me sustentar, pra pagar as fraldas do neném, a cerveja do papai, eu preciso fazer assessorias”, conta Zema cuja atuação está bastante ligada à área de Direitos Humanos, tendo prestado assessoria a movimentos sociais e presidido a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos – SMDH até o momento atual, em que trabalha na Secretaria de Direitos Humanos e Participação Popular do Estado. 

“Quando eu comecei em 2004, blog era uma tecnologia que tava surgindo ou nem tanto, quer dizer, eu descobri naquela época e tinha um certo movimento aqui em São Luís de blogueiros, de uma turma que nem tá mais por aqui, mas que pode contar a história: Reuben, Janaína, Jane Maciel, Carolina Libério, que hoje tão dando aula na UFMA. Era uma tradição de blogs que acabaram substituindo aqueles zines de papel, que era uma coisa mais voltada pra poesia e aí quando eu inaugurei o meu já queria fazer essa coisa da resenha, da crítica, de querer compartilhar com aquela turma que me lia alguma coisa que eu achasse bacana“, afirma Zema, que escreve em blog há 11 anos. Quanto ao conteúdo, Zema Ribeiro considera como uma opção crítica escrever preferencialmente sobre o que gosta. “Já que o tempo é curto, prefiro não perder tempo escrevendo sobre alguma coisa que eu não tenha gostado, embora eu eventualmente faça, mas eu prefiro compartilhar aquilo que me agrada porque o tempo de quem lê também é curto então a própria pessoa já vai fazer seu filtro dentro daquela indicação pra ir aquele show ou comprar aquele disco ou ler aquele livro”, acredita.

Para quem acompanhou nos últimos dois anos a série de entrevistas “Chorografia do Maranhão” produzida por Zema em parceria com Ricarte e Rivânio Almeida Santos e publicada aos domingos no jornal O Imparcial, cabe destacar que a relação do blogueiro com a mídia impressa é mais antiga. “Eu já escrevia pra jornal antes de entrar na faculdade de jornalismo e já tinha essa prática de compartilhar, de negociar espaço no jornal. Durante muito tempo enquanto estudante foi bacana ocupar aquela coluna, ocupar determinados espaços pra fazer um nome, né? Inclusive durante muito tempo o blog funcionou praticamente como uma espécie de clipping aberto, tudo que saía escrito por mim em qualquer jornal da cidade eu acabava reproduzindo no blog e tinha até uma preocupação de achar que o jornal era mais importante que o blog e acho que do ponto de vista do número de leitores talvez ainda seja, mas assim eu segurava as vezes um texto ali um tempo enquanto saía no papel pra depois jogar na internet e aí depois eu desisti”, relata criticando ainda o fato de em São Luís os jornais não pagarem por textos de colaboradores, publicando muitas vezes de graça as resenhas e os artigos dos jornalistas freelancers.


Apesar de conhecer os percalços do mercado maranhense, Zema Ribeiro não desestimula os estudantes de comunicação a trilharem um caminho pelo Jornalismo Cultural. “Eu costumo também sempre incentivar estudantes a abrirem blogs, a ter seus canais livres de comunicação porque acaba funcionando também como portifólio, né? Então muitas vezes eu já fui convidado pra mesas como essa e pra fazer trabalhos freelancers por conta dessa experiência com o blog super bacana. É um reconhecimento. A partir do blog também fui convidado a colaborar em alguns veículos”, e enumera suas colaborações ao site Overmundo, que era um coletivo sob curadoria de Hermano Viana com um jornalista correspondente em cada estado mapeando a cultura produzida no Brasil e à Brazuca, uma revista francesa bilíngue, para a qual escreveu a convite de Daniel Carielo, que o conheceu no Overmundo. Jornalismo é bem isso né? É rede assim, é contato, é você estar inserido no meio e a partir daí ser convidado para outras experiências e outros momentos, seja na Piauí seja no blog do Zema”, conclui o jornalista.


NOTA: A Parte 2, em que a mediadora Andréa Oliveira comenta as falas dos jornalistas Zema Ribeiro e Roberta Martinelli e abre para participação do público, será publicada na próxima postagem. O debate foi bastante interessante e contemplou vários tópicos que não podem ficar de fora. 


Com agradecimentos especiais às irmãs Beatriz e Meiri Farias 

(Blog Armazém de Cultura – SP) por toda gentileza 
e apoio na decupagem dos áudios da cobertura do Conecta Música.