Quando ensinar representa uma experiência de aprendizagem viva II
Ele é professor, orienta projetos de pesquisa, coordena o ensino médio e técnico do Centro Federal de Educação Tecnológica do Maranhão (CEFET-MA), organiza mostras de exposição científica de caráter local, regional e nacional, acompanha comissões de alunos em viagens para exposição de trabalhos em congressos e ainda desenvolve pesquisa em torno de física aplicada com projetos em processo de patente, artigos submetidos a revistas científicas e publicações nos Cadernos Temáticos do Ministério da Educação (MEC). Com toda essa bagagem, a última coisa que falta ao professor Fábio Sales é fôlego para enumerar projetos e trabalhar intensamente na execução de cada um.

Antes de descobrir que a ciência seria um forte caminho para o desenvolvimento de muitos projetos até a realização profissional, o atual Coordenador de Articulação do Ensino Médio e Técnico do CEFET-MA, professor Fábio Henrique Silva Sales de 39 anos, passou pela dúvida comum entre os jovens quanto à escolha da carreira pela qual gostaria de seguir. Passeou da medicina ao serviço militar e não foi por falta de inteligência que não permaneceu em nenhuma dessas áreas. Na medicina, a eterna idéia de trabalho em contato com sangue fez com que o jovem desanimasse, já na carreira militar, chegou a ser aprovado para a Aeronáutica, mas sentiu que ainda não estava na área de sua vocação.

Somente quando cursou Eletrotécnica na então Escola Técnica Federal do Maranhão (ETEF-MA) – atual CEFET-MA – que Fábio Sales descobriu a aptidão para física e o gosto pelos estudos referentes à eletricidade. Foi aí que sentiu finalmente “aflorar o cientista”, como ele mesmo definiu.

Licenciado em Física pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) em 1993, com mestrado e doutorado em Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em 1997 e 2004, respectivamente, ainda na graduação começou a trabalhar como professor de matemática para o ensino fundamental de uma escola do município de São Luís. “Sempre achei a carreira de professor muito bonita”, afirma e acrescenta que a influência para o magistério vem da família, onde o professor encontra inspiração nos pais, tias e irmãs, todos atuantes na educação.

Paralelamente ao magistério, o Fábio cientista procurou aliar sua preocupação com a qualidade do ensino ao desenvolvimento de projetos de pesquisa na área experimental com base na física aplicada. Durante a graduação, foi bolsista do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) desde o 2º período, desenvolvendo um trabalho sob orientação do Professor Antônio Pinto Neto tão bom, que a bolsa foi estendida até o fim do curso, o que na época constituiu um feito raro entre estudantes de física. Antes de cursar o mestrado – em Física da Matéria Condensada pela UFRN – o professor viajou por vários estados participando de congressos e grupos de pesquisa e acumulando conhecimento em gestão de eventos da área tecnológica e desenvolvimento de pesquisas científicas. “Fui para o Rio Grande do Norte com a cara e a coragem”, avalia sobre o início do mestrado e da força de vontade necessária para obter uma formação continuada. Graças ao empenho, em poucos meses tornou-se bolsista do CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e pode receber o auxílio para o prosseguimento da pesquisa e os gastos adicionais do curso e da permanência no estado.
Foi através da experiência pessoal em estudar e aperfeiçoar o conhecimento adquirido com a pesquisa, que os trabalhos científicos sempre fizeram parte de sua carreira. Principalmente porque consistem em um meio eficaz de aplicar o conhecimento teórico ensinado aos alunos de forma mais dinâmica, prática. Quando a turma não compreende a aplicação dos conceitos e fórmulas da física em seu cotidiano, não se interessa pelo estudo da disciplina e a encara como algo complexo, o que acaba gerando grande desmotivação e mau rendimento nas aulas. Por isso, uma vez professor e pesquisador, Fábio Sales sempre incentivou a pesquisa científica e o desenvolvimento de estudos em áreas da física que trouxessem como resultado benefícios e melhorias à sociedade. Ainda na rede municipal, trabalhou com estudantes do ensino fundamental no projeto “Fontes alternativas de energia elétrica”, cujo material fornecedor de energia eram legumes, como batatas e cenouras. “Tenho consciência de que todo o investimento que é feito em mim, através dos cursos que realizo, não deve servir só para ter um diploma engavetado. O que vale é repassar a aplicação do conhecimento para a sociedade”, reflete sobre a importância dos projetos que desenvolve.

CEFET-MA: celeiro de talentos para a pesquisa científica no estado


Em 2005, o CEFET-MA abriu edital para preenchimento de vagas de professores substitutos pelo prazo de um ano. Foi aí que o professor e ex-aluno, teve a oportunidade de voltar à escola que lhe apresentou ao mundo da ciência e tecnologia. Aprovado para ministrar aulas de física às turmas de ensino médio, técnico e superior, em pouco tempo percebeu o potencial dos alunos para a pesquisa científica e detectou que o que faltava dentro da instituição era a informação em torno da possibilidade de melhorar o ensino através de um maior incentivo à produção dos alunos. Já que se sabe que o CEFET-MA, como instituição da rede federal de ensino tecnológico, possui reconhecida infra-estrutura e potencial humano para o que se constituem, segundo o professor Fábio Sales “os pilares da Iniciação Científica”.

Em pouco mais de um ano, Fábio prestou concurso para o cargo de professor efetivo no regime de dedicação exclusiva e logo assumiu a Coordenação do Ensino Médio, começando então a movimentar o CEFET-MA com um salto qualitativo em termos de eventos, mostras, exposições e simpósios e quantitativo em projetos de pesquisa dos próprios alunos da instituição. Entre as ações que motivaram a mudança de cenário na escola estiveram a participação dos estudantes nas Olimpíadas Brasileira de Astronáutica, Foguetes, Informática, Língua Portuguesa, Robótica e Matemática das Escolas Públicas.

Com informação e valorização do potencial de cada um, foi impossível não haver uma mudança de consciência e atitude entre os estudantes. Muitos se sentiram motivados a desenvolver projetos de pesquisa com o conteúdo estudado em suas áreas, tanto nos cursos técnicos quanto nos de ensino superior. A partir de então, o professor e coordenador inscreveu projetos sob sua orientação no Programa de Iniciação Científica Júnior (Pibic–Jr) da FAPEMA (Fundo de Amparo ao Desenvolvimento da Pesquisa Científica e Tecnológica do Maranhão) conquistando um número expressivo de bolsas para um primeiro edital. Nos anos que seguiram os projetos de pesquisa de alunos do CEFET-MA foram aumentando e conquistando, em grande parte, aprovação para as bolsas de pesquisa do Pibic, tanto o Júnior quanto o destinado à graduação. Tanto que em 2008, o percentual de bolsistas da escola correspondeu a 50% das vagas ofertadas pela FAPEMA.

Com projetos em fase avançada de desenvolvimento, os estudantes começaram a apresentar seus trabalhos em congressos por todo o país. O trabalho do professor Fábio rendeu novos recursos para a pesquisa dentro da instituição e os alunos receberam auxílio para a produção de pôsteres e painéis para exposição de comunicações orais nos eventos em que participaram e ainda contaram com a aquisição de um ônibus especial para as viagens dos estudantes. Entre os eventos nos quais o CEFET-MA marcou presença, estão as reuniões anuais da SBPC, o CONNEPI, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia e uma das mais recentes conquistas da gestão Fábio Sales com a direção do Professor José Costa – atual diretor geral do CEFET-MA e Presidente do CONCEFET – a realização da II Jornada Nacional de Produção Científica em Educação Profissional e Tecnológica em São Luís, sediada pelo CEFET-MA.

Com todo esse trabalho em prol da melhoria na qualidade do ensino da física e no desenvolvimento da pesquisa no estado, quando questionado sobre os desafios que enfrenta para dar continuidade aos projetos, o professor recorre a um fator essencial capaz de impulsionar qualquer tipo de trabalho independente do auxílio financeiro: a dificuldade em montar um grupo de profissionais compromissados com a construção do conhecimento através da humanização e da ética. “Meu maior trabalho é ver a preocupação dos estudantes com a parte social, mas fica difícil trabalhar, movimentar essa turma se na maioria das vezes, inicio um trabalho junto com outros professores, mas ao fim chego só eu e o professor Jorge”, lamenta citando o atuante professor de Filosofia do Departamento de Ciências Humanas e Sociais (DHS) do CEFET-MA, Jorge Leão. Mas ainda assim, o coordenador garante que em todos os projetos desenvolvidos há um retorno muito satisfatório dos alunos.

PESQUISAS ORIENTADAS PELO PROFESSOR FÁBIO SALES
ENTRE OS ANOS DE 2005 E 2008
Saldo de pesquisas desenvolvidas:
34
Supervisões e orientações concluídas:
24
– quatro trabalhos de conclusão de curso de graduação;
– dez projetos de iniciação científica;
– dez orientações de outra natureza.

Orientações em andamento:
10
– uma dissertação de mestrado;
– um trabalho de conclusão de curso;
– oito projetos de iniciação
científica.
O CEFET PESQUISADOR EM NÚMEROS:

Financiadoras das pesquisas:
FAPEMA
(Fundo de Amparo ao Desenvolvimento da Pesquisa Científica e Tecnológica do Estado)
CEFET-MA
(Programa de Bolsas de Iniciação Científica)
Bolsas concedidas:
Edital FAPEMA:
– 2006: 20 (de 50)
– 2007: 27 (de 100)
– 2008: 100 (de 200)
Edital CEFET:
2008: 5 projetos financiados
2009: previsão de 11 novas bolsas
2010: previsão de 20 novas bolsas
Investimento:
PIBIC-jr
R$ 3.000,00 por ano
(cada pesquisa)
Iniciação Científica
R$ 6.000,00 por ano
(cada pesquisa)

Número de pesquisadores por projeto:
Máximo de 5 estudantes
Projetos atuais desenvolvidos por todos os pesquisadores do CEFET-MA:
200
(em nível médio, técnico e superior)

E é esse resultado positivo que o motiva a continuar trabalhando em novas idéias e projetos. Dentre as linhas de pesquisa mais promissoras e inovadoras estão o desenvolvimento do ensino voltado aos portadores de deficiências físicas, o projeto de educação para jovens e adultos (PROEJA) e ainda o trabalho em torno da produção de um controle remoto universal, que segundo o professor Fábio será capaz de operar tudo, desde aparelhos eletroeletrônicos – tv’s, rádios, dvd’s – até comandos como ligar e desligar lâmpadas e sinalizar invasão de domicílio.

O diferencial

Aliar pesquisa, ensino e extensão com competência é o forte das instituições de ensino da rede federal, tanto nas universidades quanto nas escolas técnicas e agrícolas cobertas pelo sistema. No entanto, acrescentar a esse tripé o controle logístico na gestão de eventos de pequeno, médio e grande porte é um desafio que o professor Fábio encara com tranqüilidade. E conciliar o trabalho burocrático com a sala de aula é uma “dobradinha” que o coordenador tira de letra. “A formação vinda da licenciatura ensinou a planejar bem as aulas e com antecedência. E as viagens como representante de grupos de pesquisa acrescida de experiências como a Presidência do Centro Acadêmico de Física trouxeram muitos ensinamentos sobre organização de eventos, desde feiras de ciências até encontros de caráter nacional.”

Confira o quadro com o número de participações que comprovam a vasta experiência do professor em gestão, pesquisa, ensino e extensão:
Participação como congressista, expositor e orientador:
97 eventos
Gestão e Organização de seminários, mostras, olimpíadas, simpósios e congressos:
32 eventos

Não é à toa que o professor é Coordenador de Articulação do Ensino Médio e Técnico. Sua função ali é estabelecer as bases da pesquisa, ensino e extensão através da promoção de eventos, com exposições e debates oferecidos dentro do ambiente acadêmico para uma melhoria contínua no desenvolvimento da ciência e da tecnologia dentro do estado do Maranhão.

Com tudo isso, a maior meta é firmar parcerias para a realização de mais pesquisas e unir instituições à comunidade para procurar caminhos de melhoria na qualidade de vida da cidade. Assim, a lição que fica, após conhecer o trabalho do professor Fábio Sales é a certeza de que ali há um profissional comprometido com a vontade de levar conhecimento a todos como uma forma de retribuir tudo o que foi aprendido com muito empenho e dedicação. É o verdadeiro sentido contido dentro da transformação do ensinar em uma “experiência de aprendizagem viva”, segundo palavras do professor Jorge Leão.