Em setembro de 2008, eu trabalhava em um hospital infantil. Observava o vai e vem de crianças e pais todos os dias, de segunda à sábado no período da tarde. À noite, cursava Jornalismo. 

Naquele mesmo mês, colhi uma cena em flor, desabrochada em uma tarde de expediente e levei para a crônica de abertura do blog que eu manteria pelos oito anos seguintes.

Em setembro de 2016, o Ensaios em foco, blog que nasceu de um apanhado de observações afetivas sobre o mundo, se transforma em site. Traz desses oito anos o carinho por todas as flores e espinhos encontrados no caminho. 

Para abrir a sessão EM FOCO do site, a crônica de abertura do Ensaios em foco retorna para dar boas vindas a esse novo endereço e desejar que esta nova fase seja marcada por mais observações amorosas, relatos de delicadeza cotidiana e aprendizados sobre a vida e o mundo.


A árvore dos sonhos infantis

Um menino magro, com soro no braço, chega à sala de espera do raio-x de um hospital acompanhado do pai. Caminha até a janela e põe-se a observar a rua, o movimento dos carros e o vendedor ambulante do outro lado da calçada. Volta o olhar para o pai, que concentrado nas perguntas da recepcionista não percebe a coisa incrível que tem do outro lado da rua. “Papai!”, chama baixinho com a mãozinha livre no vidro. Ele não ouve, assina a requisição de exames do plano de saúde. O menino não desiste e caminha até o adulto, pois precisa falar-lhe o que viu em plena cidade. O movimento é rápido: a criança chama a atenção do pai puxando-lhe a barra da blusa e solta “me dá um fruto daquela árvore de brinquedos?”. O homem, atordoado, olha para o filho e pede que ele fique quieto, que aquilo não vai demorar muito. Não serve de afago para a criança, que mesmo doente não perde a poesia da infância, mas quieta-se com a voz do adulto e toda a sua seriedade.

Balões pendurados em árvore na Rua do Apicum, em São Luís-MA. (Foto: Talita Guimarães. Set/2016)

Balões pendurados em árvore na Rua do Apicum, em São Luís-MA. (Foto: Talita Guimarães. Set/2016)

A árvore em questão está em frente a um hospital infantil de São Luís – MA e expõe, pendurados em seus galhos por fios de nylon, uma boa variedade de bonecos infláveis que apitam quando apertados. São personagens dos desenhos animados e filmes infantis, bichinhos, bolas coloridas, bonecas e até martelos gigantes. Obra e arte de um vendedor ambulante criativo, que viu no contexto daquela rua um jeito ótimo de expor seus produtos.

Dada a dificuldade em aceitar que as coisas simples podem fazer diferença, convido à reflexão: por que ainda confundimos simplicidade com insignificância com tanta força? Passa despercebido no dia-a-dia permeado pela rigidez e seriedade do trabalho mais a responsabilidade dos estudos e família, mas deixa rastros marcantes depois de um tempo, já que levar a vida tão a sério endurece sorrisos e cega a vista para detalhes formidáveis.

Não deveríamos crescer perdendo a cada momento a poesia da infância e a brandura do olhar infantil sobre os fatos. Amadurecer o olhar da criança não significa perder a sutileza, mas apenas carregar a vida de uma dose de poesia nova e revigorante. Muito diferente de se deixar amargurar pelos problemas de uma vida adulta e ser tachado do que vai do chato ao insuportável. Como por exemplo, gente que reclama de tudo, vê dificuldades em coisas banais, cria escarcéu por muito pouco e que por tudo isso vive com dor de cabeça, insônia e mais problemas de um ciclo vicioso originado por reações medíocres e precisamente evitáveis. Em alguns casos mais graves, essas pessoas são incapazes de sorrir, pois acabam esquecendo de reconhecer as coisas boas e valorizá-las ainda que sejam pequenas ou rápidas. Gente que só se dá conta de que as borboletas existem quando uma nuvem amarela, diga-se de passagem, causada pelo desequilíbrio ambiental, surge no céu da cidade. Coisas simples e fáceis como parar um pouco e contemplar um céu estrelado, uma borboleta em pleno voo ou um simples beija-flor que emparelhou com o ônibus na estrada cortante fazem um bem impagável. Traz de volta a crença em torno de que tudo pode ser bom e que sempre pode haver algo fantástico por trás de coisas simples e por vezes imperceptíveis.

Enquanto acharmos graça da menina que prefere em rede nacional a prata no lugar do ouro, ou da criança que escreve no bloco de sugestões de uma empresa que gostaria que a mesma disponibilizasse “um quintal bem grande para as crianças brincarem”, ou do menino do hospital que olha para a árvore dos seus sonhos e pede um brinquedo ao pai, tão simples, tão sutil, mas inimaginável à mente de um adulto, que não entende nem um grama do seu apelo, não teremos nem metade das nossas complicações de gente dita grande solucionadas. E o pior, não estaremos aproveitando o melhor da vida, que ainda está muito bem colocado entre detalhes.