Sobre o papel da escola no diagnóstico do bullying

Por ser novo na escola e não conhecer ninguém. Por ser bom aluno e não fazer bagunça com a turma do fundão. Por ser gordinho e ter fama de comilão. Por andar diferente, se vestir diferente, falar diferente, sorrir diferente, pensar diferente. Por não ser igual.

Mas afinal, quem é igual a quem?

Nada justifica o bullying. E não justifica porque o fato de ter motivação prévia não diminui o efeito em quem sofre bullying. Podemos sim, percorrer o histórico do agressor e entender os motivos que o levam a agir de tal forma. Entender quem são os homens, onde vivem e como vivem é fundamental para entender suas atitudes, mas não para justificá-las e nunca para aceitá-las como naturais, incontornáveis. Temo que as investigações amplamente televisionadas da vida do atirador de Realengo, por exemplo, alimentem a busca por justificativas para tão aterradora atitude, distorcendo fatos, disseminando preconceitos e dando margem – e ideia – para novos indivíduos.

Entendo que quando o assunto é bullying, devemos considerar um ponto primordial: quando ainda na educação básica conhecemos e entendemos quem são nossos alunos, antecipamo-nos à descoberta tardia e irremediável de um agressor. Primeiro porque o educador, em seu papel fulcral na formação do ser humano, age efetivamente na assistência escolar que cada criança demanda, sobretudo a que vive em situação de risco; segundo porque precisamos ensinar às nossas crianças que quando somos capazes de entender o outro pelo meio em que vive, passamos a respeitar suas atitudes. Ensinamento esse que mais do que coibir o bullying antecede a necessidade de entender crimes brutais, demostrando real potencial de evitá-los.

Tudo porque considero o respeito um valor que está acima da educação familiar. E que precisa sim ser reforçado com discussões na escola, principalmente porque cada família ensina sua criança a se portar e pensar de determinada forma e é na escola que todas essas formas entram em conflito pela primeira vez. Onde as crianças se deparam cara a cara com o diferente e assumem posteriormente papéis de agressor e vítima.

Sugiro que no lugar de repreender o estudante que implica com o colega, o educador se posicione no sentido de mostrar àquele agressor em potencial que não existem motivos aceitáveis para perseguir quem quer que seja. Acredito que o professor sensível – e que trabalha em condições decentes – transforma imprevistos em conhecimento. Aproveita o fato de ter um aluno acima do peso para convocar a família e trabalhar educação alimentar dentro da escola, com todos. Descobre as habilidades do tímido e o enturma ao grupo. Promove inclusão, consolida a cidadania.

Nada disso é sonho, paixão, utopia. Exemplos de educação vitoriosa pelo país não faltam. Cabe a nós, cidadãos, arregaçarmos as mangas, tomarmos partido e agirmos em prol de uma educação plena, exigindo do governo o suporte necessário a uma educação pública de qualidade e dos inúmeros profissionais formados todos os anos, um trabalho compromissado. Só dessa forma alcançaremos o patamar da educação que transforma a sociedade hipócrita, sensacionalista e doentia que temos, em uma comunidade verdadeiramente humana.