TEXTO: TALITA GUIMARÃES

Com o objetivo de atingir a igualdade de oportunidades para mulheres no mercado da cultura, o projeto musical Meninas do Brasil surgiu em 2015 através da iniciativa da cantora e compositora carioca Luiza Sales em publicar vídeos no youtube destacando o trabalho de compositoras brasileiras do cenário independente. Nos vídeos, Luiza conversa com as artistas sobre suas trajetórias na música e em seguida apresenta um número musical com as convidadas. 

Em dois anos de projeto, o MdB já lançou duas temporadas somando mais de 50 vídeos de música e 24 entrevistas no ar, contando com a participação de mais de 30 mulheres, entre compositoras, cantoras e instrumentistas em atuação no mercado musical contemporâneo com formação e trabalhos sólidos que valem muito a pena conhecer. Entre os nomes que já passaram pelo projeto estão Ana Clara Horta, Luiza Brina, Bárbara Rodrix, Gabi Buarque, Michele Leal, Dandara, Vanessa Moreno, Ana Kucera, Anna Paes, Iara Ferreira, Antonia Adnet, Elisa Fernandes, Paloma Roriz, Carol Panesi, Ilessi, Anna Tréa entre outras.

Em maio de 2017, o Meninas do Brasil lança campanha de financiamento coletivo para execução do desdobramento internacional do projeto que visa promover o intercâmbio cultural entre seis composições de artistas brasileiras e seis compositoras estrangeiras residentes em Berlim, na Alemanha. A campanha hospedada na plataforma Benfeitoria  pretende arrecadar R$ 16.000 reais até 20 de junho de 2017 para cobrir os custos de produção dos vídeos com 6 compositoras, o que inclui equipamento, equipe, locação, transporte, alimentação, edição de vídeo, legendas e mixagem de áudio.

Ensaios em Foco conversou com Luiza Sales sobre o Meninas do Brasil e o financiamento para o Meninas de Berlim. Na entrevista a seguir, a idealizadora do projeto comenta a importância da articulação das artistas independentes, do ser mulher produtora de música na contemporaneidade e de como o MdB tem exercido um papel social de lançar luz sobre a produção autoral feminina atual a fim de refutar a tese de que a música brasileira estagnou nos grandes nomes midiáticos.

1) O Meninas do Brasil apresenta a produção musical de mulheres brasileiras em vídeos em que você conversa com as artistas e vocês cantam juntas seu repertório autoral. Em tempos de intensa articulação para dar visibilidade aos trabalhos executados por mulheres em todas as áreas, como você avalia a importância e até a necessidade de um projeto que realize a curadoria de compositoras, cantoras e instrumentistas no Brasil atual?

LUIZA SALES: Em primeira instância, eu acho importante para combater aquele discurso de que na música brasileira não tem nada de bom atualmente. As pessoas que foram fãs de grandes nomes da MPB nos tempos em que Chico Buarque, Caetano e Gil apareciam constantemente na televisão e tocavam no rádio, precisam saber que existem excelentes artistas dando continuidade ao legado destes compositores – mas a diferença é que hoje este tipo de artista não está tocando no rádio nem aparecendo na TV. A gente luta nas redes sociais para compartilhar estes trabalhos de qualidade nos quais acreditamos. O enfoque na produção das mulheres é mais importante ainda, para mostrar que nós podemos ser mais do que rostinhos bonitos cantando à frente de uma banda e podemos estar ocupando espaços da criatividade e liderança na música.

2) É expressiva a quantidade de compositoras, cantoras e instrumentistas apresentadas pelo Meninas do Brasil em quase três anos de projeto. Como tem sido feita a curadoria dessas artistas, há algum critério de seleção, são aceitas sugestões? E como tem sido o processo de descoberta de artistas novas? 

L.S.: Quando comecei o projeto eu tinha medo de não encontrar tantas compositoras quanto eu precisava para o primeiro ano de temporada… conforme íamos divulgando os vídeos, sempre surgiam indicações de novas compositoras nos comentários dos vídeos, muitas compositoras enviando seus trabalhos em mensagens diretas e também por email. Fui conhecendo novas compositoras por indicação das próprias convidadas e também através do público. Tem sido muito bacana. Ainda temos limitações técnicas que não nos permitem filmar todas as compositoras que gostaríamos, mas abrimos um espaço em nossa página do Facebook para mostrar toda terça feira os trabalhos que recebemos por email, na “Participação da Internauta”. Tem sido legal receber vídeos de todo o brasil, de compositoras iniciantes/amadoras e também profissionais… tem espaço pra todas elas! 

3) Você acredita que o Meninas do Brasil enquanto iniciativa que reúne esses trabalhos tem atraído também novos nomes, como um farol que lança luz sobre um território para identificar quem está produzindo e acaba encontrando preciosidades que por algum motivo ainda não tiveram chance de alcançar maior visibilidade?

L.S.: Sim! Eu gosto muito de acompanhar a reação  espontânea dos nossos seguidores aos vídeos que lançamos na Participação da Internauta. Alguns atingem um maior número de visualizações do que nossos vídeos “oficiais”, produzidos com mais aparato técnico para filmagem… 

4) Como você, que também é cantora e compositora, avalia o contato com as artistas que já passaram pelo MdB enquanto intercâmbio cultural de gêneros, referências, influências e modos de fazer música no Brasil atualmente?

L.S.: Pessoalmente, o contato com as compositoras que recebi no Meninas do Brasil mudou muito minha forma de compor música. Cada uma me inspirou de uma forma especial a pesquisar mais sobre jeitos diferentes de tocar violão ou escrever letras, por exemplo. Os relatos delas sobre rumos que tomaram suas carreiras e também processos de composição me motivaram de várias formas. Também graças ao Meninas do Brasil tive minhas primeiras parcerias com Antonia Adnet e Iara Ferreira… tive frutos concretos da minha relação com estas compositoras, que estarão em duas faixas do meu novo CD. Acredito que nossos vídeos possam inspirar também jovens musicistas ou compositoras que tem trabalhos guardados na gaveta a criar coragem e mostrar seu trabalho!

5) Em maio, o Meninas do Brasil lançou uma campanha de financiamento coletivo para executar o braço internacional do projeto, levando composições de seis artistas brasileiras para um intercâmbio com seis artistas estrangeiras em Berlim. Qual a importância de estabelecer um diálogo entre a música feita por mulheres de lugares tão diferentes do mundo? 

L.S.: Acho que será importante ouvir o relato delas sobre como é ser mulher, artista independente, vindo de outro país, atuando na Europa. Eu já morei no exterior e vejo que os brasileiros muitas vezes têm uma visão romantizada do que é ser artista no exterior, sempre achando que seria melhor se estivessem fora do país. A nossa ideia é mostrar a realidade e a luta que é, em todas as partes do mundo, ser artista independente – e ainda por cima, mulher. Internacionalizar o projeto também tem como objetivo trazer música de artistas estrangeiras para ampliar o repertório do público brasileiro. Para fechar com chave de ouro, com a ideia de levar as canções de compositoras brasileiras, queremos que o público no exterior conheça também seu trabalho, fazendo um intercâmbio completo. Já está sendo muito bacana mostrar as músicas das compositoras brasileiras para as artistas estrangeiras. Estamos fomentando uma troca que não seria possível sem que o Meninas do Brasil interferisse, fazendo esse link entre as artistas. Esperamos que nasçam daí novas parcerias, composições – e quem sabe até turnês.

6) A segunda temporada do MdB apresentou artistas do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Minas Gerais. Com o desdobramento internacional, artistas de mais seis países somarão seu som ao projeto. Há o interesse em circular pelas outras regiões do Brasil, como norte e nordeste, por exemplo, que tem recortes regionais particulares no fazer musical e também no ser mulher? 

L.S.: Temos muito interesse em levar o projeto para outras regiões do país. Mas, a oportunidade de ir a Berlim surgiu antes e, por uma série de fatores, estamos perseguindo este objetivo no momento. Mas o projeto para 2018 é ir ao Nordeste, Sul e Centro do Brasil. Como eu falei antes, recebemos material de compositoras de todo o país e queremos muito poder viajar para encontrá-las!