A 9ª Feira do Livro de São Luís chega ao sétimo dia com uma programação que não para! Confira o que temos para indicar hoje:
 
POESIA NO BECO
Beco Catarina Mina
18h- Leitura Poética com Josoaldo Rego
19h- Recital com Demetrius Galvão (Teresina PI)
20h- Recital com Katia Dias
 
CAFÉ LITERÁRIO
Centro de Criatividade Odylo Costa, Filho
18h30 – TEMA: “Lourdes Lacroix e o mito da fundação francesa de São Luís”
DEBATEDORES: Flavio Reis e Flávio Soares
MEDIADOR: Henrique Borralho
AUDITÓRIO MULTIMÍDIA
Centro de Criatividade Odylo Costa, Filho
20h – PALESTRA: “As formas escriturais da contemporaneidade: o autor, o livro, o
leitor”. PALESTRANTE: Rosane da Silva Borges
 
PALESTRA
Teatro João do Vale
20h – TEMA: “Prosa urbana brasileira: tendências” 
DEBATEDORES: Clara Averbuck (SP) / Michel Laub (SP) MEDIADOR: Eduardo Júlio
No sexto dia da #9ªFeliS, acompanhei a instigante mesa “Nova literatura brasileira: olhares femininos” com as escritoras Simone Campos (RJ), Micheliny Verunschk (PE) e Jorgeana Braga (MA), sob mediação da jornalista Andréa Oliveira. 
 
Leia no texto abaixo como foi.
 
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#9FeliS – 07.OUT.2015 (Quarta-feira)
 
Da direita para esquerda:
Andréa Oliveira, Jorgeana Braga,
Micheliny Verunschk e Simone Campos.
A desconstrução do pensamento de que existe uma literatura feminina marcou o Café Literário da noite de quarta-feira (07/10) no Odylo. Com o tema “Nova literatura brasileira: olhares femininos” as escritoras Simone Campos (RJ), Micheliny Verunschk (PE) e Jorgeana Braga (MA), sob mediação da jornalista Andréa Oliveira, dissertaram longamente sobre seus olhares literários recusando-se a categorizá-los como “femininos”. Nesse sentido, “Eu não acredito em literatura feminina” foi uma frase dita em consenso pelas três autoras.
 
A mediadora Andréa Oliveira foi a responsável por lançar a provocação, convidando todos a repensarem a validade de classificar a literatura em gênero feminino/masculino. E nesse sentido considerou uma transgressão propor que o tema em discussão se concentrasse na “nova literatura brasileira”, eliminando o “olhares femininos”. “As autoras convidadas não escrevem porque são mulheres”, declarou Andréa para em seguida olhar para as escritoras e lançar à mesa a questão: “Por que vocês escrevem?”.
 
Jorgeana Braga
A escritora maranhense Jorgeana Braga foi a primeira a responder, rebatendo a afirmação da mediadora com bom humor ao declarar que sim, escreve também por ser mulher. “Escrevo com minha corporalidade. Escrever é como respirar. Faz parte. E é um ato confessional”, disparou Jorgeana. “É porque eu existo. É uma forma de existir. De intermediar minha subjetividade com o outro”, prosseguiu com uma fala muito firme. Quanto à existência da literatura como atividade humana, Jorgeana Braga avaliou como “uma forma de construir algo que a gente não percebe no mundo, mas quer que exista”. Já sobre comentar a própria obra, a escritora se esquivou da missão afirmando ser mais confortável ouvir os comentários de outras pessoas. “É mais fácil ouvir o outro falar da nossa literatura”, comentou descontraída e acrescentou que a literatura funciona como um esconderijo às avessas para quem prefere se expressar através da palavra escrita. “Eu me revelo escrevendo”, disse a autora e demonstrou isso abrindo um exemplar de seu A casa do sentido vermelho (PITOMBA, 2013) e lendo um trecho.
 
Micheliny Verunschk
Na sequência foi a vez da pernambucana Micheliny Verunschk responder à questão lançada pela mediadora. “Escrevo porque não sei fazer outra coisa”, Micheliny foi direto ao ponto. “Tudo o que faço é capenga”, soltou contando que já tentou bordar, cozinhar, pintar e nenhuma atividade funcionou tão bem quanto a escrita. “Eu sei escrever. Ou acho que sei. Escrevo também porque escuto e vejo. Tudo o que escrevo é a partir de uma vivência do olhar” e explicou que sua literatura é muito visual, se interessa pelas “coisas que vejo e meu olhar transtorna”. 
 
Assim como Jorgeana, Micheliny leu um trecho de seu romance de estreia, Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida (PATUÁ, 2014). 
 
Simone Campos
Fechando a rodada inicial de respostas, a carioca Simone Campos explicou o porquê de sua literatura. “Escrevo pra promover empatia. Para se colocar no lugar do outro” e retomou a questão de gênero comentando sobre ser mulher. “A gente não faz as coisas pensando ‘ah sou mulher’. A gente faz as coisas de acordo com as nossas experiências. Como estamos em um corpo de mulher as pessoas te veem como mulher”, analisou. “Minha experiência se reflete no que escrevo e agora eu tô com essa proposta de fazer vestirem a pele”, revelou avaliando o contraponto aos seus dois primeiros livros, que são de prosa poética. Simone também aproveitou para fechar lendo um trecho de seu livro, o romance A vez de morrer (COMPANHIA DAS LETRAS, 2014).
 
Em seguida, o assunto se voltou para o cenário da nova literatura. A mediadora Andréa Oliveira perguntou como as autoras se colocam no cenário editorial e como elas enxergam a produção nova. 
 
Jorgeana Braga mais uma vez foi a primeira a responder. Para Jorgeana, falar em nova literatura é falar no que é novo para ela em termos de leituras que a alcançam. Nesse sentido, citou seu encanto recente com a obra de Carolina Maria de Jesus, escritora mineira da década de 1950 autora de Quarto de despejo, livro que Jorgeana Braga fez questão de levar para a mesa e indicar, pois crê que o momento da feira é também propício para recomendar leituras e trocar dicas.
A escritora, que publica pela editora independente Pitomba! e costuma escrever em meios virtuais, não se vê como uma boa vendedora dos próprios livros. “À medida que eu escrevo, não sei vender livro. É preciso ter um tino pra isso. Se não seu livro vai acabar debaixo da cama. Tenho muitos livros embaixo da cama”, conta. No canto da mesa, Simone murmurou um “eu também” sorrindo.
 
Já Micheliny entendeu a pergunta como uma avaliação do cenário atual de publicação e aproveitou para indicar autores contemporâneos e ler “Poema para se ler em pé” da escritora baiana Kátia Borges. 
 
Micheliny Verunschk lê poema de Kátia Borges
Micheliny fez ainda uma observação sobre o tema da mesa. “A gente nunca vai encontrar numa feira do livro ou festa literária uma mesa de homens discutindo o olhar masculino na literatura”.
 
Sobre as leituras e o cenário atual, Simone Campos afirmou ler muitos autores e mencionou a tendência recente de jovens autores urbanos como ela de publicarem romances sobre personagens que se refugiam fora da cidade, como em Biofobia de Santiago Nazarian e Barba ensopada de sangue de Daniel Galera. 
 
Ao término desta rodada de comentários, a palavra foi aberta ao público. A atriz Júlia Emília, presente na plateia, deu sua contribuição sobre a questão de gênero compartilhando seu incômodo com a denominação “Espaço do Dramaturgo”, local da FeliS destinado às artes cênicas, que segundo ela não privilegia a dramaturgia, tampouco as mulheres que escrevem e produzem para o teatro. 
 
Uma jovem leitora de Jorgeana Braga pediu para ler um poema da autora, que ficou emocionada com o gesto gentil e carinhoso. 
 
Aproveitando o gancho em torno da polêmica sobre o olhar feminino, o poeta Celso Borges fez um provocação colocando que entende haver uma linha unindo algo em comum na literatura feita por mulheres. Perguntou então à mesa se esta seria uma leitura torta. 
 
Simone Campos brincou que adoraria ver o teste cego, comum na degustação de vinhos, aplicado à leitura, quando o leitor desconhece se o autor é mulher ou homem. E devolveu a provocação questionando se Celso seria capaz de enxergar essa ligação caso não soubesse o sexo do autor. Complementando a fala de Simone, Micheliny crê haver uma leitura condicionada nesse caso e propôs que os leitores deixem de lado quem é o autor e se debrucem na discussão em torno do conteúdo do livro, no mal estar do tempo atual e não se quem escreveu tem um olhar masculino ou feminino. 
 
Jorgeana Braga fez coro louvando a leitura interessada no pensamento e comparou às leituras filosóficas que se debruçam sobre o conhecimento sem distinção sobre o gênero do pensador. Dentro desse contexto, comentou que não há interesse em questionar se quem escreveu foi Hannah Arendt ou Aristóteles, pois quem se interessa por filosofia está em busca do conhecimento acerca do pensamento do autor. Voltando ao campo da literatura, lembrou de Hilda Hilst, que queria ser lida com seriedade. 
 
A última rodada de perguntas para as escritoras partiu da participação do poeta e músico da banda Validuaté Tiago E, que pediu que as escritoras falassem sobre seus novos projetos. 
 
Simone Campos falou sobre seu interesse em video games e HQ’s e antecipou que está preparando uma graphic novel em parceria com uma desenhista oriental. Já Micheliny revelou estar escrevendo um livro sobre serial killers que a tem mantido envolvida em pesquisas sobre assassinatos em série, vodu e música. “Se a CIA rastrear meu histórico de pesquisa vou presa”, brincou a pernambucana. Já Jorgeana Braga prepara atualmente o lançamento do livro Cemitério de Espumas pela Pitomba! e conta de seu trabalho atual dando aulas para jovens encarcerados por homicídio, com os quais pretende desenvolver uma caixinha poética com a intenção de trabalhar a ressignificação das mãos desses jovens.
 
Por fim, as autoras agradeceram ao convite para participar do Café Literário na #9FeliS e ficaram a disposição do público para fotos, abraços e dedicatórias nos livros.